As inovações de São Paulo no combate à corrupção

Como informática e redes sociais permitem identificar corruptos e “laranjas”. Favores estranhos da mídia a “esquemas” mafiosos. O combate à cultura de impunidade

Por Luis Nassif, no GGN

haddad e spinelli 21.11.13

Prefeito Fernando Haddad e Controlador Geral Mário Vinícius Spinelli

Como informática e redes sociais estão ajudando a identificar funcionários corruptos e “laranjas”. Estranhos favores da mídia aos “esquemas” mafiosos. O combate à cultura de impunidade 

Por Luis Nassif, no GGN

Para desmascarar uma quadrilha que atuava há pelo menos uma década da prefeitura de São Paulo foi suficiente uma equipe de meia dúzia de pessoas e a vontade política do prefeito Fernando Haddad.

Haddad trouxe de Brasilia o auditor Mário Spinelli, lotado na CGU (Controladoria Geral da União). Foi firmado um acordo com o governo federal que permitiu trazer cinco servidores da CGU e dois da Receita Federal.

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As medidas tomadas, de tão simples e óbvias, chamam a atenção do fato de jamais terem sido implementadas nas gestões anteriores.

Há uma obrigação legal dos servidores apresentarem sua declaração de bens. Só que elas eram entregues em envelopes, que ficavam fechados devido à dificuldade de conferir os dados.

Criou-se, então, a obrigatoriedade dos servidores entregarem a declaração eletronicamente. Montou-se um banco de dados com as declarações de 160 mil servidores. Foram firmados acordos com outros órgãos para cruzar os dados.

Em seguida, montou-se uma matriz de risco, para identificar as áreas mais expostas a propinas. A certeza de impunidade era tanta que muitos dos corruptos não se preocupavam em ocultar patrimônio ou coloca-los em nome de laranjas.

Na gestão do ex-prefeito Gilberto Kassab, o Secovi (Sindicato da Habitação) encaminhou um relatório com denúncias sobre os achaques sofridos pelo setor. Kassab encaminhou o dossiê justamente para o chefe da máfia dos fiscais, Ronilson Bezerra Rodrigues – que, entre outros feitos, foi responsável pelo vazamento do ISS de Antônio Palocci.

Não havia nenhuma forma de cercar um golpe óbvio. A Secretaria das Finanças não tinha sequer o registro eletrônico das notas fiscais das obras, sobre as quais incidiria o ISS.

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A segunda etapa das fiscalização consistiu em buscar os “laranjas”. Para isso, foi importante a análise das redes sociais. Através de um perfil do Facebook, por exemplo,  chegou-se a um servidor público que tinha uma pousada no Rio de Janeiro avaliada em R$ 6 milhões.

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Para tornar permanente o combate à corrupção, o prefeito enviou projeto à Câmara dos Vereadores criando a figura do auditor. O projeto empacou na Câmara e só saiu depois de denúncias envolvendo um dos vereadores.

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Outra dificuldade foi o viés político imprimido pelos jornais paulistanos ao tema, permitindo à quadrilha jogadas de contrainformação.

Em muitas reportagens, os escândalos revelados foram apresentados como se fossem da gestão atual – e não fruto das suas investigações.

Também tentou-se incriminar um secretário de confiança do prefeito, Antônio Donato, baseado exclusivamente em declarações dos chefes da quadrilha. Nem se levou em conta o fato de Donato ter participado de todas as etapas da investigação e a denúncia não vir acompanhada de um elemento concreto sequer.

Outra “denúncia” armada pela quadrilha consistiu em expor o próprio Spinelli, acusando-o de receber acima do teto da Prefeitura e informando sobre sua vida pessoal, incluindo o clube que frequenta. Não adiantou Spinelli informar o repórter que, sendo cedido pelo CGU, seu parâmetro salarial era a própria CGU. A divulgação de dados pessoais, além disso, expôs o auditor e a família a eventuais represálias da organização criminosa.

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3 comentários para "As inovações de São Paulo no combate à corrupção"

  1. Fellipe R. Andrade disse:

    Parabéns a CGU, mais uma vez!!!

  2. Quem realmente quer colocar na cadeia corruptores e corruptos?
    A “grande” mídia descobriu agora que existe corrupção no Brasil.
    A globo, com suas reportagens pensadas, analisadas, medidas, divulga de uma forma que a pessoa desavisada entenda que o Brasil descobriu a corrupção e, que ela – corrupção – não faz parte da vida brasileira há décadas.
    Um exemplo é São Paulo dirigido pelo Haddad. O prefeito tem feito de tudo para, aos poucos e de forma transparente desvendar os caminhos nebulosos e pérfidos da corrupção no município e na prefeitura. Vem criando com coragem toda a estrutura necessária para facilitar aos agentes públicos botar a mão no corruptor e corruptor.
    Será que a imprensa de São Paulo deseja realmente isso?
    Quem ganha com a corrupção no município de São Paulo ou no Estado?
    Quando o véu for finalmente retirado, o que aparecerá? Quem aparecerá?
    Vamos ver.

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