Lições da greve selvagem contra os apps de entrega

Investigações sobre as greves de entregadores ingleses de 2016, o papel dos trabalhadores migrantes e as novas organizações coletivas contra a algoritmização da vida. Apontarão pistas para uma Internacional dos Precarizados?

Callum Cant, em entrevista ao IHU Online

Se, de um lado, o desenvolvimento tecnológico-científico possibilitou a criação de novas tecnologias, como o uso de aplicativos para a compra de alimentos, de outro, ele transformou e segue transformando o capitalismo e, consequentemente, o trabalho e as relações trabalhistas.

Entre as categorias que estão no centro das análises sociológicas neste período de transição tecnológica, destacam-se os entregadores de plataformas, que, somente em Londres, já são responsáveis por 80% de todas as entregas realizadas.

Callum Cant, doutor em Sociologia pela University of West London, pesquisa como o capitalismo de plataforma se organiza e qual seu impacto tanto na reorganização do trabalho quanto na vida diária dos trabalhadores e na organização das ações coletivas de reivindicação de melhores condições de trabalho.

Quando concluiu sua pesquisa de mestrado, ele trabalhou para a plataforma de entrega de alimentos Deliveroo – Food Delivery, fundada em 2013 em Londres, e presente atualmente em vários países, como Holanda, França, Bélgica, Irlanda, Espanha, Itália, Austrália, Nova Zelândia, Cingapura, Hong Kong, Emirados Árabes Unidos e Kuwait.

No mês de fevereiro deste ano, Cant participou do XIX Simpósio Internacional IHU Homo Digitalis. A escalada da algoritmização da vida, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU e transmitido através do seu Canal no YouTube. Na palestra intitulada “Discriminação algorítmica e justiça social”, ele narra sua experiência pessoal na participação das greves que ocorreram em Londres e Brighton, na Inglaterra, entre 2016 e 2017, as razões das dissidências entre os grevistas, os conflitos entre trabalhadores e plataformas, e os limites e potencialidades de novas organizações trabalhistas em rede.

A seguir, reproduzimos sua exposição no formato de entrevista, na qual ele também conta como plataformas de entrega funcionam, supervisionadas por gerenciamento algorítmico, e como esse tipo de atividade tem gerado trabalhos precários. “Na Inglaterra, um dos principais impactos é que não há salário mínimo nesse setor, não há como garantir que o trabalhador ganhe o mínimo. Não ganhamos oito libras por hora, independentemente do que acontecer. Podemos ganhar zero libras por hora. Isso significa que podem pagar salários excepcionalmente baixos, abaixo do salário mínimo legal, porque tecnicamente não somos empregados”.

Cant também expõe a situação dos migrantes, que por medo de serem deportados, se transformaram em uma população altamente vulnerável que trabalha por qualquer salário. “O meu argumento é que isso é central para o que acontece com as plataformas de alimentação. O que acontece aqui é que, por não haver relação empregatícia formal e não existir salário mínimo, muitos trabalhadores são migrantes indocumentados do Sul global, os quais fazem entregas de moto e ganham salários baixos. Mas eles estão forçados a aceitar essas condições porque, se tentam se impor, há o risco de deportação e repressão”, diz.

Callum Cant (Foto: Reprodução/Youtube)

Callum Cant é escritor e pesquisador independente. Doutor em Sociologia pela University of West London e autor do livro Riding for Deliveroo (Polity, 2019). Seu livro é um retrato de uma nova classe de trabalhadores militantes.

Confira a entrevista

Em que consiste sua pesquisa sobre algoritmos versus justiça social?

Vou falar sobre “Algoritmos vs. justiça social: a contradição entre a produção no capitalismo de plataforma e a ‘comunidade livre de produtores’”. O que quero dizer com isso? Basicamente começo com a premissa de Marx, de que esse mais recente desenvolvimento no modo de produção é inerentemente contraditório com os interesses dos trabalhadores que, na verdade, fazem todo o trabalho. Embora possa soar como um ponto de partida relativamente radical, é aqui onde realmente começa grande parte da pesquisa sobre a gig economy no capitalismo de plataforma. Nesse campo, há uma corrente muito forte de pesquisa marxista. É uma corrente que vem se destacando até então.

O que vem acontecendo em geral? Acho ser importante começar a partir desta premissa: é a ação coletiva o que tem definido esse setor até agora. Portanto, desde o desenvolvimento do tipo de capitalismo de plataforma em suas formas iniciais – e em particular enfocarei nas plataformas de entrega de alimentos –, em 2015, havia empresas como Deliveroo, Ubereats, iniciando suas opções de entrega. E desde o começo tem havido conflitos neste setor. Ele sempre se definiu como uma ação coletiva dos trabalhadores, e essa tendência escalar, que se faz evidente no estado atual, recebeu continuidade. Só temos que olhar para o que aconteceu em São Paulo meses atrás para ver que esta onda contínua de lutas é a característica definidora dessas plataformas. O conflito entre capital e trabalho define como entendemos esse campo.

Portanto, para mim não existe um estudo real da gig economy sem que toquemos na ação coletiva, e toda a minha pesquisa na área enfoca no campo da ação coletiva. Em particular, tenho interesse em observar a maneira como os trabalhadores do setor estão inovando na resposta às novas condições.

Transição na organização e exploração da mão de obra

O argumento preliminar do capitalismo de plataforma oferece muito mais detalhes, mas o argumento preliminar é que, com o desenvolvimento dos aplicativos e das tecnologias, como a interface aplicativo/usuário, nós não vemos uma mudança fundamental nas relações sociais. Não é que um personagem real de uma relação social se transformou profundamente. Em vez disso, é o modo como ele se organiza que mudou. Portanto, a relação de trabalho ainda é a relação de trabalho capitalista, mas agora ela acontece através de um novo conjunto de componentes técnicos.

Eu e alguns outros pesquisadores, como Jamie Woodcock e algumas das pessoas com as quais trabalhei atualmente, falamos disso em termos de composição de classe. Dizemos que, enquanto o modo de produção – e o que fundamentalmente vemos aqui é o modo de produção capitalista com uma oposição completa entre capital e trabalho em termos interesses materiais – permanecer consistente, haverá uma transição na maneira como a exploração da mão de obra será organizada.

Quais os efeitos dessa transição?

Essa transição produz um antagonismo muito significativo. Aqui baseio-me em Tassinari e Maccarrone. O estudo dos autores apoia-se em artigo intitulado “Riders on the Storm”. Penso que eles resumem bem o que aconteceu em termos de desenvolvimento do conflito dentro do capitalismo de plataforma.

Total global de protestantes que trabalham em plataformas de entrega (Foto: Reprodução/Youtube)

Os exemplos que podemos ver no gráfico [acima], de luta, em contextos nacionais diferentes como Itália e Inglaterra, valem em muitos outros campos que tendem a compartilhar o mesmo padrão genérico. Há fontes de antagonismo no processo de mão de obra, seja no que diz respeito a salários baixos, demissões injustas, seja um restaurante que força os trabalhadores a aguardarem do lado de fora, no frio, enquanto suas entregas são preparadas. Esse tipo de situação em particular se transforma em conflitos.

Há uma série de fatores que modelam como isso ocorre. Dependendo da plataforma, ou de quando ou em que cidade o processo de trabalho acontece, tais fatores podem ser diferentes. Como resultado, podemos ter solidariedade e formas de ação coletiva emergentes ligeiramente diferentes.

Os autores listam alguns dos mais importantes: onde os trabalhadores se encontram, tanto na vida real, como enquanto aguardam os pedidos de entrega? E como se reúnem on-line? Como criam uma comunidade digital onde discutem ideias? Como é o seu engajamento em administração? As plataformas enviam gestores locais para tentar persuadi-los ou os administradores não se comunicam com eles em absoluto? Há outros fatores que os autores não listam: qual é, como podemos chamar, a composição de classe social da cidade? Que tipo de trabalhador migrante existe? Há uma comunidade imigrante muito forte?

Grande parte da minha pesquisa centra-se em Brighton, como mostrarei em breve. Nessa cidade, temos uma comunidade imigrante brasileira muito forte. Então, para nós todos os fatores definidores da forma como a ação coletiva surgiu indicam que os trabalhadores brasileiros agiram coletivamente para começar todo esse processo. Isso mudou a forma como surgiu a solidariedade.

Como as ações coletivas acontecem e são organizadas entre os trabalhadores de plataformas?

Há uma variedade de formas. Uma das principais, eu diria provavelmente a mais visível, é a ação de “greve selvagem”. Certamente foi isso o que chamou a minha atenção para o setor. Em 2016, houve uma ação de greve selvagem em Londres, onde basicamente não havia muita pesquisa no setor. Não sabíamos o que estava acontecendo, mas vimos surgir rapidamente, em 2016, após redução salarial na cidade, uma espécie de movimento grevista de um número significativo de trabalhadores. Vimos centenas deles juntando-se à greve e indo às ruas protestar.

Eles surgiam “do nada” e nenhum de nós entendia o que estava acontecendo, de onde este movimento havia surgido. Observando e aprendendo, começamos a pesquisar o setor. Mas essa forma de ação é uma das características do setor: parece que não está havendo nada, então, ocasionalmente explode; acontecem greves enormes. Como mostram Tassinari e Maccarrone, temos outras formas de ação coletiva de menor impacto. Há casos jurídicos, petições on-line, etc. Todos esses processos também surgem.

Portanto, se dizemos que o capitalismo de plataforma e, em particular, de entrega de alimentos, caracteriza-se pelo conflito, se dizemos que depois de um período de pesquisa aqui estão as formas nas quais o conflito se manifesta, então começamos a ter a sensação de que havia uma literatura de pesquisa que, na verdade, era um bom caminho para entender o que vinha ocorrendo. Foi realmente isso que aconteceu.

Resumo o que aprendemos após cinco anos de pesquisa. De minha parte, me interessei pelo setor em 2016, quando finalizei o mestrado. Eu observei o que acontecia com aquela grande greve selvagem de Londres. Tive muitas dúvidas. Fiz perguntas sobre esse fenômeno que eu simplesmente não entendia. Cinco anos depois, creio que podemos dizer que o entendemos muito melhor agora.

Como iniciou sua pesquisa e seu interesse por esta temática?

Eu era aluno de mestrado em 2016. Vi as greves em Londres na época e procurei emprego na Deliveroo. Não trabalhei na empresa com intenção de fazer pesquisa, mas para entender o que estava acontecendo e juntar um dinheiro. Morava numa cidade chamada Brighton, onde ocorrera uma recente ampliação da força de trabalho. Trabalhei por alguns meses e, durante esse processo, nos organizamos na forma de sindicato. Participamos da ação grevista e esse trabalho com o sindicato começou a ser a base da minha pesquisa atual. Depois, escrevi um livro chamado “Rider for Deliveroo” e outros trabalhos. Acabei me aprofundando nesta área de estudos.

Trabalho descentralizado e gerenciado por algoritmos

O que descobrimos é que as plataformas de entrega são os locais logísticos de trabalho menos descentralizados e são supervisionados por gerenciamento algorítmico. O que quero dizer com isso? Basicamente, esses fatores cooperam em duas camadas distintas. Uma camada muito ampla de lugares a partir dos quais as entregas precisam ser feitas; são os restaurantes espalhados pela região central da cidade. E uma camada de lugares para as quais as entregas precisam ser feitas; ou seja, os endereços em torno do centro. Portanto, o que as plataformas fazem é gerir a interação entre essas duas camadas. Elas distribuem os trabalhadores para completar tarefas de trabalho específicas e operam aquilo que pode ser um sistema logístico complicado. A maior parte disso é supervisionada através de uma gestão algorítmica.

Historicamente, trabalhos de entrega contam com controladores, uma pessoa que ficava sentada em um escritório, na frente de monitores, rastreando onde os trabalhadores estavam e dizendo a eles: “Você precisa ir para X fazer uma entrega para Y”. Hoje, esse processo foi automatizado, com o tipo de alocação do trabalhador para fazer essas tarefas sendo assumida por um aplicativo. O aplicativo que instrui o trabalhador é uma espécie de gerente algorítmico.

Se tentarmos entender o que acontece dentro do nosso telefone, se formos entender o processo por trás de um pedido, veremos que é impossível. Não há relação humana aqui. A pessoa recebe o fluxo que segue uma única direção. E não entendemos a lógica por trás de como a ordem é organizada. Para os trabalhadores, é basicamente um exercício de seguir as regras. Recebemos tarefas de trabalho para completar tarefas de trabalho.

Embora possamos não ter supervisor humano – e em alguns casos isso é uma libertação porque em muitos casos nós odiamos o supervisor humano –, a sua ausência pode ser uma libertação em certo sentido. Mas também põe o trabalhador sob uma forma rígida de controle algorítmico. Essa ausência faz parte da tendência mais ampla da falta de um intermediário entre as demandas do capital e a organização da tarefa de trabalho a fim de alcançar lucros máximos para o capital, e entre os trabalhadores e a mão de obra em si. Friedman fez a distinção entre o controle direto e a autonomia sem responsabilidade, quando estudava a indústria automobilística inglesa na década de 1970.

Como o trabalho de plataforma é gerido e controlado a partir dos algoritmos?

Penso que falamos aqui de um controle muito direto. Ele se caracteriza por aquele tipo de conjunto quase ciber-taylorista de instruções diretas. Ouvimos exatamente o que fazer e quando fazer. E o trabalhador tem certa liberdade emocional de como implementar as instruções, mas estamos falando de uma relação com o trabalho muito direta.

Recusa aos sindicatos e às relações coletivas de trabalho

Aqui não há barganha coletiva. Quero dizer que sistematicamente, essas plataformas evitam conviver com a noção de relação coletiva com a sua força de trabalho, ou em ter uma relação mediada via sindicato. Em muitos casos, trata-se de uma pura recusa em conversar com o sindicato. Mas também podemos lembrar a forma como as empresas se colocam na relação empregatícia. Quando trabalhei para a Deliveroo, eu era trabalhador autônomo. Tecnicamente, na Inglaterra muitos entregadores são trabalhadores autônomos.

Mudança na regulação e na vivência do trabalho

Isso quer dizer que eles não estão trabalhando para o capital e que são pequenos empreendedores que se puseram a fazer dinheiro? Não. Isso quer dizer que temos claramente uma relação entre trabalho e capital, mas, porque a categorização jurídica mudou, ela muda em grande parte a forma como regulamos o trabalho e como o trabalho é vivido. Por exemplo, na Inglaterra, um dos principais impactos é que não há salário mínimo nesse setor, não há como garantir que o trabalhador ganhe o mínimo. Não ganhamos oito libras por hora, independentemente do que acontecer. Podemos ganhar zero libras por hora. Isso significa que podem pagar salários excepcionalmente baixos, abaixo do salário mínimo legal, porque tecnicamente não somos empregados.

Esse tipo de mudança importa para a maneira como o processo de trabalho é vivido. Não há um estado intermediário que cuidará dos nossos interesses, não há regulamentações de saúde e segurança, não há salário mínimo, não há proteção para o trabalhador, além daquela que os trabalhadores podem conseguir via ação coletiva. Penso que podemos ver por que razão algumas reações em favor da ação coletiva são tão fortes.

Como se organiza a hierarquia trabalhista nestas plataformas?

Finalmente, hoje sabemos se tratar de uma estrutura empregatícia sem chances de ascensão. Há os chefes, aqueles que trabalham no escritório central, os técnicos e os entregadores. Não tem como progredir sendo entregador. Não há avanço disponível para nós, não há perspectiva de carreira. E também o escritório central não gasta dinheiro tentando nos manter felizes. Na verdade, entregadores felizes não fazem muita diferença. As entregas não precisam deles. Se estamos infelizes, provavelmente deixaremos a plataforma e a empresa recrutará outra pessoa. Então, é uma estrutura empregatícia muito plana.

Talvez alguns de vocês conheçam a obra de Katharine Stone, “Radical América”, sobre o desenvolvimento da indústria americana do aço e a forma como o tipo de estruturas de trabalho, onde há passos intermediários, foi desenvolvida para garantir que os trabalhadores pensem haver uma forma de eles progredirem. Nesse contexto, a oportunidade intermediária, a ideia de que podemos progredir no trabalho, foi retirada e não há estratégias tão inteligentes de recursos humanos que mantenham o comprometimento da força de trabalho. Pelo contrário, vemos trabalhadores em confronto com um aplicativo, o aplicativo muitas vezes se comporta de maneira ditatorial e, consequentemente, vemos trabalhadores entendendo que os seus interesses se opõem aos interesses dos patrões da plataforma.

Quem é a força de trabalho dessas plataformas? Qual é o perfil dos trabalhadores?

Em muitos casos, falamos da população extra urbana, pessoas excluídas da força de trabalho por uma série de fatores, sejam habilidades linguísticas, seja a racialização ou qualquer coisa do tipo. A maior parte do trabalho é feita por motoboys, apesar da autoimagem retratada por parte das empresas. Por vezes, há quem use bicicletas. Os entregadores realizam 80% das entregas em Londres. Não me surpreende se o mesmo ocorre em outros lugares.

Com certeza, na Europa há um papel importante para os migrantes indocumentados. Discutirei o tema adiante com referência ao conceito de Emmanuel Terray, chamado “Délocalisation sur place”. Mas, basicamente, falo aqui do uso do trabalhador migrante para manter os custos lá embaixo, sendo essa uma das características definidoras aqui.

Como se dá a auto-organização dos trabalhadores neste contexto?

Callum Cant – Obviamente, temos a rede logística, os restaurantes e os pontos de entrega que se espalham pela cidade e exigem uma grande elasticidade. Não sei exatamente a que horas se janta no Brasil, provavelmente é mais tarde do que na Inglaterra. Mas, aqui, por volta das 19 horas, há grande demanda nas entregas. As pessoas pensam: “Quero uma pizza. Vou usar o aplicativo de entrega.” Isso significa que, de repente, todos os trabalhadores disponíveis precisam trabalhar rapidamente, mas uma ou duas horas antes, o volume de pedidos podia ter sido muito menor. Há um momento em que as entregas não precisavam de ninguém trabalhando com pressa. Os trabalhadores poderiam ficar vagando à espera de futuros pedidos. Aqui temos uma dinâmica parecida com aquela do trabalhador portuário, do caminhoneiro da década de 1920 nos Estados Unidos. Há a demanda de uma mão de obra elástica. O que significa que precisamos armazenar os trabalhadores em algum lugar para usar sua força de trabalho quando preciso.

Esse tipo de contenção, na história do trabalho, transforma-se em momentos nos quais os trabalhadores se auto-organizam, por passarem muito tempo entre si, sem realizar trabalho, discutindo o fato de não estarem realizando nada, frequentemente lamentando por estarem sem trabalho, pois significa que não estão fazendo dinheiro.

Organização e mobilização

Em minha experiência, são os chamados centros zonais. São regiões marcadas nos aplicativos onde os trabalhadores aguardam entre as entregas. Mas há também versões informais delas. Sempre que vemos um grupo de motoboys reunidos numa esquina, é isso o que acontece. E esses pontos de acumulação criam a possibilidade de uma organização rápida. A proliferação de troca de mensagens em massa permite um tipo de auto-organização dos trabalhadores, via grupos de bate-papo. Em particular, na Inglaterra o WhatsApp é um fator importante, e muitos conversam entre si via grupos. A pessoa torna-se um trabalhador em uma cidade e acaba engajada com este tipo de rede.

Muitas vezes, os trabalhadores mobilizam-se contra as reduções nas cotas de entrega. Esses trabalhos são remunerados por cotas, e isso quer dizer que eles recebem por entregas e não um salário fixo. A estrutura tende a ser essa. E quando as cotas mudam, quando o salário diminui, a única resposta é a ação coletiva. Portanto, esses grupos de bate-papo transformam-se numa espécie de redes de organização, e isso acontece de maneira orgânica. As ações não precisam ser criadas por um agitador externo. Essa é a natureza do local de trabalho enquanto ela desenvolve este ímpeto.

Greves selvagens

O que surge são greves selvagens que se ampliam e podem ser bem eficientes. Elas podem cancelar a grande maioria das entregas numa cidade. Muitas vezes, elas possuem um tempo de escala bastante limitado e não necessariamente constroem poder mês a mês. Podem ser eficientes em ganhar um aumento salarial no curto prazo, mas não constroem um sindicato que garanta vitórias no longo prazo.

Então, essa é a lógica da ação de greve selvagem. Não há uma lógica de influência que predomine entre os grandes atores do mercado de trabalho, que estão dispostos a limitar a difusão do modelo capitalista de plataforma, pessoas que não querem que essa relação informal entre trabalho e capital se alastre a outros setores, onde há melhores proteções reguladoras no momento. É aqui que os atores do mercado de trabalho, a Confederação dos Sindicatos e os partidos sociais-democratas pressionam por regulamentação. Às vezes, uma colisão pode surgir entre os grandes atores do mercado de trabalho que pressionam por regulamentação e os trabalhadores que lutam por bandeiras como aumento de salários. Mas essa colisão nem sempre acontece, e os interesses de ambas as partes nem sempre são idênticos. É importante termos isso em mente.

Como dito, há uma tendência a aumentar os conflitos ao redor do mundo. Isso porque as plataformas, como Deliveroo, Ubereats e Glovo, são transnacionais e operam ao longo de muitos contratos diferentes, e os trabalhadores acabam fazendo essas conexões. Na Europa, existe uma organização chamada Transnational Courier Federation. Hoje, muitos trabalhadores estão em contato uns com os outros por trabalharem nas mesmas plataformas. Portanto, esse movimento trabalhista nascente, esse movimento auto-organizado, conecta-se intensivamente ao redor do mundo.

Que novas pesquisas surgiram a partir da tese de doutorado?

Vou apresentar aqui algumas das pesquisas que decorrem da minha tese de doutorado. Vejamos a situação em Brighton, que fez parte do livro “Riding for Deliveroo”, que escrevi e, como trabalhador, é uma investigação a partir da base. Esse livro é um complemento, em termos, da pesquisa acadêmica. É um estudo que olha para a experiência de construir um movimento e tenta descobrir algumas das tensões em jogo quando falamos em organizar greves selvagens e de como elas podem, ou não, se desenvolver. Focarei no papel dos grandes grupos de bate-papo, como eles estruturam e mudam a forma como o trabalho acontece, e como a auto-organização coletiva ocorre. Também mencionarei algumas das armadilhas.

Movimento sindical

Começo com a história do movimento sindical, isto é, a primeira reunião do ramo local do sindicato nacional, formado por entregadores, em janeiro de 2017, e que acontece com discussões acaloradas sobre as condições deteriorantes dos pagamentos, quando nos encontrávamos nos centros zonais, frustrados com a diminuição dos salários. A mais-valia dos pontos de acumulação da mão de obra que era construída dentro do processo de trabalho nos oferecia uma oportunidade.

Cerca de 20 trabalhadores se reuniram num centro social e começamos a pensar como poderíamos formar um ramo sindical. A estratégia era realizar lentamente o objetivo. Baseamos isso no conselho recebido por sindicalistas. A IWGB é um sindicato relativamente pequeno e militante que, até então, atuava predominantemente em Londres. Os seus integrantes nos assessoraram sobre como construir um sindicato. Eles já fizeram isso em muitos ambientes de trabalho e nos deram esse conselho genérico de começar aos poucos. Tentaríamos e ganharíamos apoio entre a força de trabalho, cobrindo os nossos uniformes como uma primeira ação, progredindo aos poucos.

Esse plano, no entanto, foi rapidamente superado por uma iniciativa surgida num grupo influente de bate-papo, composto predominantemente de trabalhadores migrantes brasileiros. Chamava-se “Brazilian Rules WhatsApp Chat”. Basicamente, esses trabalhadores decidiram que a resposta apropriada à piora dos salários não era um processo lento, mas, sim, uma greve. Então, começaram a encaminhar mensagens em outros grupos formados por entregadores, convocando para uma ação grevista. Aos poucos, todas as diferentes redes de bate-papo que havia na cidade se engajaram nas discussões. Os novos sindicalistas, eu incluso, tomaram uma rápida decisão de que precisávamos apoiar essa greve e garantir que fosse a mais eficiente possível.

No começo de fevereiro, quando ocorreu a greve, uma grande maioria da força de trabalho parou, ou seja, de repente a capacidade das plataformas de entregas colapsou. Vimos um número significativo de cozinhas completamente desorganizadas, empilhando pedidos, sem ninguém para entregá-los. Foi uma expressão real de protesto muito eficiente. Falávamos de reduções massivas do número de entregas. Realizamos uma assembleia grevista em nosso centro zonal, onde tínhamos aproximadamente cem entregadores que se encontraram e discutiram quais seriam as demandas junto à plataforma. Outros entregavam formulários aos trabalhadores, tanto quanto possível.

Parece que uma fusão bem-sucedida havia sido alcançada entre esses grupos informais de trabalho, tais como o Brazilian Rules WhatsApp e o ramo formal sindical. No curto prazo, essa ação coletiva foi bem eficiente. Ganhamos um reforço nos pagamentos, um aumento temporário nas cotas de entrega, e também ocorreu uma série de protestos que renderam um congelamento nas contratações, que era uma das nossas exigências. Um congelamento nas contratações significa que, por não haver mais trabalhadores constantemente se integrando aos locais de trabalho, o número de entregas por corrida aumentava. Conseguimos aumentar os salários desse modo também. Começamos a construir uma coalizão com organizações comunitárias e com o partido social-democrata inglês, o Partido dos Trabalhadores, com John McDonnel, que era uma espécie de ministro encarregado da economia em caso de mudança de governo. Ele apoiou as nossas demandas.

Diminuição dos protestos

Isso tudo soa muito positivo, mas, na verdade, menos trabalhadores compareceram nos sucessivos protestos que organizamos depois daquela primeira greve. Em particular, membros do grupo de bate-papo brasileiro, que haviam convocado a greve, começaram a se desinteressar na medida em que as condições de pagamento dos motoboys os deixaram em melhores circunstâncias, enquanto os entregadores de bicicleta acabaram vivendo períodos mais difíceis.

Foram necessários cerca de quatro meses desde aquele primeiro encontro entre os trabalhadores até a primeira greve para termos vitórias intermediárias e, em seguida, vermos um declínio gradual do tipo de organização sindical coesa. Isso aconteceu muito depressa. Foram quatro meses para ir do nada a uma greve e conquistar bastante coisa, até a separação do sindicato. É como se estivéssemos em marcha acelerada. Mas não foi esse o fim da luta em Brighton.

Nova greve e fracasso na auto-organização

Uma outra greve aconteceu no fim de novembro de 2017 com questões semelhantes. Desde então, existe uma organização, mas também foi o fim do sindicato. O sindicato não é mais uma força poderosa em Brighton e não tem base entre a força de trabalho. Então, a minha pesquisa de doutorado refletiu sobre o assunto, a partir de conversas que tive com um dos trabalhadores, Gary, que manifestou o seu entendimento sobre o principal problema que havia com a tentativa que organizamos. Segundo ele, precisávamos de pessoas que trabalhassem a longo prazo para a Deliveroo, pessoas que respeitassem a frota como um todo, que eram bons ativistas e tivessem uma visão clara do que queriam e de como poderíamos conseguir isso. Em Brighton, isso não aconteceu.

Colocando o que Gary disse em termos teóricos, avalio que o processo de auto-organização que estávamos empreendendo falhou em recrutar uma base significativamente ampla de líderes orgânicos centrais, o tipo de pessoa que surge da força de trabalho. Então, apesar do esforço significativo de recrutar representantes de todos os setores da força de trabalho, líderes orgânicos, em particular motoboys migrantes não se convenceram a participar a longo prazo da estrutura sindical. E quando tentamos convencê-los, enviando mensagens de WhatsApp, tentando conversar, não obtivemos sucesso.

Parte do fracasso surgiu das clivagens da composição social da força de trabalho. Eu e muitos dos outros ciclistas tendíamos a pensar como os caras ingleses que, na maior parte, usavam bicicletas para as entregas, e não motocicletas. Nós éramos o núcleo do novo sindicato e nunca conseguimos chegar aos mais velhos, geralmente migrantes, motoboys, pessoas que trabalham mais horas por semana e que tinham um conjunto diferente de interesses, um conjunto diferente de referências culturais, e assim por diante.

Mas houve também causas técnicas para o fracasso. Penso que uma é a natureza dupla da comunicação digital.

Sindicalização pós-crise de 2008

Se pensarmos sobre a década após a crise financeira de 2008, veremos que a ação coletiva que ultrapassa as organizações formalizadas surgiu repetidas vezes. Podemos falar das insurreições na Inglaterra, das insurreições em Londres, do Occupy Wall Street, da Primavera Árabe. Teóricos da organização, como Rodrigo Nunes, sustentam que elas aconteceram porque a estrutura comunicativa da nossa sociedade contemporânea baseia-se nessas formas de comunicação em rede. Nunes defende que estas formas de comunicação podem levar a uma sincronização eficaz. Isto é, à difusão quase simultânea de respostas emocionais em escala massiva. E quando acontece esse tipo de difusão sincronizada de uma resposta emocional, via redes de bate-papo, uma forma de comportamento associativo vem à tona, e a ação coletiva pode aumentar em velocidade enquanto as pessoas conectadas veem pessoas, com as quais têm fortes laços, participando de uma forma de ação.

Em particular, estas redes podem ser direcionadas por algumas das figuras mais influentes dentro delas. Um líder particularmente orgânico pode ser capaz de direcionar o curso do movimento, modelando qual o conteúdo que compartilham. Essa tendência não é só uma tendência do movimento social. Porém, o que digo é que se trata de uma tendência nos movimentos de trabalhadores. A comunicação em rede está mudando a forma como (e quando) o trabalho se auto-organiza. Ela transforma a maneira como a ação coletiva se expressa, e essa tendência fica mais visível em plataformas de entrega de alimentos.

Como as redes de autocomunicação em massa modificam a organização dos trabalhadores?

Na Inglaterra, um pesquisador chamado Alex Wood tem falado das redes de autocomunicação em massa e como elas têm criado aberturas para o sindicalismo emergir na Walmart. É um estudo de 2015, mas creio que podemos ver esse desdobramento mais claramente no contexto do capitalismo de plataforma.

Há um rapaz chamado Mafi, que fala das comunidades web 2.0, da ascensão dos motoristas de aplicativo. Ele se refere aos motoristas de Uber. Basicamente, Mafi fez um estudo quantitativo e descobriu que quanto maior é a interação digitalmente mediada com outros motoristas de aplicativo, maior é o interesse na representação coletiva. Isso significa dizer que se os trabalhadores se envolvem em grupos de WhatsApp, em formas de comunidades digitais que são associadas com a identidade coletiva de trabalhadores, aumenta o interesse deles em unir-se a organizações trabalhistas e coletivas. Portanto, a rede de trabalhadores on-line é uma das formas emergentes do movimento trabalhista, o que tem sido vital nestes novos contextos.

Redes de trabalhadores on-line e o processo de sindicalização

É óbvio que os trabalhadores usam tecnologia comunicativa para gerar redes complexas e participarem dessas redes. Mas precisamos pensar como elas modificam o processo de sindicalização. Não é unir-se ao sindicato, mas talvez unir-se a uma rede de WhatsApp. Penso que uma rede de comunicação digital associada com o local de trabalho pode ser parte fundamental quando pensamos sobre o terreno do processo de trabalho. Não nos referimos apenas a quem trabalha com quem diariamente, mas também quais redes digitais surgem nesses ambientes.

Erick Blank, que mora nos EUA e escreve sobre as greves dos professores em West Virginia, Oklahoma e no Arizona, fala do modo como a maioria militante, a parcela ideologicamente socialista do movimento dos trabalhadores comprometidos com o desenvolvimento do trabalho combativo de poder, pode usar estes grupos, como grupos de Facebook, como uma forma realmente útil para expandir sua influência dentro da força de trabalho. Eles podem rapidamente crescer na capacidade de influir os trabalhadores em lugares muito diferentes.

Ele identifica que existe uma troca aqui. Se os trabalhadores usam essas redes mediadas digitalmente para alcançar muitas pessoas, eles podem expandir o seu alcance muito rapidamente, podem catalisar uma ação direta generalizada, podem mudar a forma como a ação coletiva se expressa, podem “pôr lenha na fogueira”, na falta de uma frase melhor.

Limites das redes de trabalhadores on-line

Ao mesmo tempo, essas variações diferentes têm as suas próprias fraquezas. Por exemplo, a falta de um contato face a face pode significar a falta de uma relação mais profunda. Quem organiza uma greve não necessariamente constrói relações profundas com quem participará da greve. Pelo contrário, ocorre uma interação mais amena. Também significa que não existe uma grande supervisão das infraestruturas comunicativas. Não existe necessariamente uma forma de os trabalhadores tomarem coletivamente decisões.

Portanto, acho que há uma dinâmica mobilizadora aqui que leva a uma escalada generalizada e rápida da ação coletiva, mas existe também uma dinâmica mobilizadora que não se enquadra no modelo sindical clássico. Sempre que os sindicatos tendem a direcionar e supervisionar o desenvolvimento de mobilizações em direção à ação coletiva a partir de um ponto de vista central – eles realizam reunião, nela decidem o que acontecerá e vão às ruas em mobilização –, essa ação coletiva tem muitos centros de direção. Ela não tem um ponto central particular. Cada um desses centros pode ser a vanguarda, pode levar ao caminho e direcionar o restante da rede.

Unidade contraditória

Penso que temos uma unidade contraditória aqui, na qual um sindicato tenta liderar um processo mobilizatório, mas também os grupos de WhatsApp que lideram o processo de negociação. Precisamos entendê-la como sendo um híbrido de dois conjuntos de diferentes lógicas. Nenhum pode vingar sozinho porque um exige a presença do outro. Porém, eles tornam tudo muito instável.

Superação da relação empregatícia

É importante reconhecer que isto também é auxiliado pela superação da relação empregatícia. Assim, na Inglaterra, participar de uma greve sem querer ser processado é um processo muito longo e envolvente, que implica vários passos jurídicos. Esses instrumentos jurídicos protegidos são pensados para reduzir a liberdade de ação dos trabalhadores. Nesse contexto, onde inexiste relação empregatícia, seja na Deliveroo ou qualquer outra plataforma, as empresas evitam empregar formalmente os trabalhadores, livram-se da exigência de pagar o salário mínimo, mas também se livram da proteção das greves selvagens. Aqui abre-se a liberdade para esses trabalhadores assumirem certas formas de ação de forma imediata, sem ter que pensar se precisarão de votações formais. Eles podem simplesmente agir, sem cerimônias.

Mediação entre capital e trabalho e a redundância dos sindicatos

O papel de um sindicato é fazer a mediação entre o capital e o trabalho. A perspectiva marxista clássica autoriza os trabalhadores a exercerem coletivamente o controle sobre as suas condições de emprego porque eles não as podem possuir enquanto indivíduos, o que pode ser feito através de um mediador. O capitalismo de plataforma é privado de mediação. Porém, por sua própria natureza, a plataforma se recusa a mediar com as forças de trabalho. O sindicato pode se tornar um pouco redundante com o que ele realmente realiza. Porque, se não pode forçar uma relação de barganha coletiva com o empregador, então qual o papel do sindicato? Penso que essa exclusão dos sindicatos nos processos legais e no processo de regulamentação pelos empregadores exacerba a tensão entre a rede grevista, as redes de WhatsApp e o sindicato, pois o sindicato precisa inventar um papel para si, uma vez que ele não está sendo incluído aqui.

Assim, muitos trabalhadores perguntam: Qual é o objetivo do sindicato? Se podemos organizar nós mesmos uma greve sem construir uma organização, por que devemos nos preocupar em construir uma organização? Só precisamos usar os nossos telefones. Se pudermos organizar uma greve sem participar de reuniões duas noites por mês, onde temos que sentar e conversar sobre como organizar uma greve, e se pudermos usar apenas o telefone, escolheremos a opção mais fácil. Portanto, há uma tendência aqui a excluir os sindicatos porque eles parecem quase redundantes no contexto.

Isso significa que acabamos numa situação na qual os trabalhadores, quando querem melhorar as condições, retiram-se do trabalho antes e, depois, fazem-se perguntas. Ao causar dano econômico aos empregadores, assumem que irão receber aumentos nos meses seguintes.

Penso que podemos refletir sobre esse tema como uma plataforma equivalente de barganha coletiva via insurreição, o que Eric Hobson identifica como o modus operandi dos ludistas. Apesar de não haver nenhum canal formal de comunicação, os trabalhadores sabem que arruinar as plataformas faz surgir resultados. Eles ganham um aumento se causam dano. Eles querem negociar via greves e permanecem comprometidos com aquela forma de ação em rede que lhes permite exercer tal influência, em vez de se envolverem nos sindicatos ou construir um controle mais centralizado dos processos mobilizatórios.

Como superar essa tensão?

Já falamos dessa tensão. Penso que é importante pensarmos adiante. Há inúmeros passos que os sindicatos podem dar para melhorar a situação. Acho que eles precisam se localizar dentro das redes de WhatsApp, precisam encontrar um papel para eles neste novo contexto técnico. Isso significa desempenhar um papel mobilizatório ao invés de apenas tentar influir no mercado de trabalho via casos jurídicos. Os sindicatos precisam ser menos um regulador do mercado de trabalho, e mais um centro mobilizador da força de trabalho. Precisam investir em si mesmos, naquelas redes de comunicação em massa auto-organizadas dos trabalhadores.

Pode retomar o conceito “Délocalisation sur place”, de Emmanuel Terray? Do que se trata?

A “délocalisation sur place” é particularmente importante no contexto dos países europeus, onde trabalhadores migrantes desempenham um grande papel na forma como a ação grevista surge; sejam eles trabalhadores do norte da África, da América do Sul, ou da Europa Oriental. Na Inglaterra não conseguimos compreender como essas plataformas operam sem falar das dinâmicas da migração.

Emmanuel Terray é um marxista francês que propôs a ideia de “délocalisation sur place”, que significa “terceirização em vigor”. Ele fala basicamente da busca por mão de obra mais barata. Por exemplo, a manufatura ocorre quando enviamos fábricas para o exterior. Se os custos de mão de obra ficam altos demais, podemos simplesmente terceirizar a manufatura no Vietnã e, então, importar os produtos via transporte marítimo. Isso permite que a produção tenha um custo muito menor e uma commodity mais barata. Permite que um capital permaneça competitivo e reduz custos trabalhistas, potencialmente aumentando o índice de exploração, porque países como o Vietnã podem ter mercados de trabalho menos regulamentados.

Isso é disponível a todos os setores que podem terceirizar a sua produção. Eles podem enviar a produção das commodities para outros lugares e importar os resultados. Agora, no setor de serviços isso é impossível. Uma entrega não pode ser feita por alguém no Vietnã. Não há um jeito mais barato de conseguir isso porque é preciso empregar mão de obra no lugar onde se está. Não é possível dissociar as coisas. Não há um ajuste espacial, para usar as palavras de David Harvey.

Trabalhador interno terceirizado

Se não existe um ajuste espacial para esse setor, como conseguir mão de obra mais barata? O argumento de Terray é que a principal função dos regimes fronteiriços, que temos visto cada vez mais punitivos na Europa recentemente, é criar uma categoria de trabalhador interno terceirizado. Quer dizer, criar migrantes indocumentados como uma população altamente vulnerável que trabalha por qualquer salário, porque estão sob constante ameaça do regime de fronteira. Portanto, o regime fronteiriço é completamente ineficiente em deter migrantes que chegam à Inglaterra.

Por exemplo, a guarda fronteiriça inglesa nada pode fazer para deter quem quer entrar no país sem permissão de trabalho. Ela fundamentalmente não consegue. É como um elefante que tenta deter formigas. O regime de fronteiras pode ser forte e poderoso, mas só consegue atingir uma minúscula parte do número de pessoas que migram para a Inglaterra.

Organização de trabalhadores migrantes e o risco da deportação

Mas o que essa guarda pode fazer é criar condições em que qualquer trabalhador migrante que não possui permissão de trabalho, encontre uma repressão extrema. Isso significa que os trabalhadores migrantes indocumentados são mais propensos a aceitar qualquer trabalho; eles trabalharão por 3 libras/hora, se significar que poderão trabalhar e reproduzir a vida. Eles estão cientes de que, se eles se organizarem, se participarem de ações coletivas, haverá o risco de a guarda fronteiriça deportá-los.

Isso aconteceu em algumas universidades de Londres. Talvez vocês ouviram falar da Faculdade de Estudos Orientais e Africanos, de Londres. Funcionários se organizaram por melhores salários e a instituição cooperou com a guarda fronteiriça para deportar alguns desses trabalhadores latino-americanos. Esse tipo de cooperação entre o Estado e os empregadores tem o papel de tornar trabalhadores migrantes extremamente vulneráveis, dispostos a aceitar salários baixos e piores condições de trabalho. Assim, contribui-se para aquele tipo de setor localizado específico que não pode terceirizar a mão de obra no Sul global, abrindo caminho para que acessem mão de obra barata.

O meu argumento é que isso é central para o que acontece com as plataformas de alimentação. Por não haver relação empregatícia formal e não existir salário mínimo, muitos trabalhadores são migrantes indocumentados do Sul global, os quais fazem entregas de moto e ganham salários baixos. Mas eles são forçados a aceitar essas condições porque, se tentam se impor, há o risco de deportação e repressão.

Mas há a ação coletiva na forma de greves selvagens, porque ela não precisa se concretizar na forma de um sindicato. Ela permanece na informalidade, porque segue um estilo improvisado, à semelhança de um combate entre guerrilhas: não há alvos de longo prazo para os estados visarem. Não há sindicalistas destacados que poderiam dizer: “Ok, essas pessoas precisam ser deportadas”.

Pelo contrário, existe este fluxo de redes encriptadas de WhatsApp e que não são vulneráveis à pressão estatal. Portanto, há um outro forte incentivo aqui aos trabalhadores migrantes em especial: o de não se aproximarem da forma de organização sindical, pois gostam da flexibilidade e do caráter anônimo oferecido pelas redes de comunicação em massa.

Aqui penso ser importante entender o modo como as plataformas fazem dinheiro e o uso da “délocalisation sur place” para reduzir os custos de mão de obra. É igualmente importante entender como e por que os trabalhadores escolhem esse tipo de organização informal em vez de uma maneira formalizada.

Novas dinâmicas de auto-organização

Portanto, migrantes sem documentos, sob a ameaça da guarda fronteiriça, podem receber pagamentos abaixo do oferecido a trabalhadores nativos, trabalhadores com permissão de trabalho. Mas isso também produz uma dinâmica, em que os trabalhadores respondem com meios informais. Penso que isso é parte do que aconteceu na greve de 2016, em Londres. Hoje, vejo e entendo com maior clareza. Do ponto de vista etnográfico, é notável que em manifestações seguintes, onde houve greves, víamos cartazes que continham erros de escrita. Havia muita gente com habilidades linguísticas – talvez não perfeitas – participando, pessoas excluídas da força de trabalho, que talvez não têm permissão de trabalho, e acabaram forçadas a adentrar na população urbana excedente, sendo esta a força de ação delas. É realmente uma forma de ação que se adequa aos que vivem o lado agudo da terceirização local, o lado afiado da “délocalisation sur place”.

Eis a base do meu debate aqui. É uma forma de trabalho propensa à auto-organização. É uma forma de trabalho que favorece os trabalhadores a agirem coletivamente. Esta ação coletiva acontece via redes de comunicação em massa auto-organizadas, ao invés da organização sindical formal. Ela origina-se no modo como a migração opera e como a comunicação digital opera em nossa sociedade atual, no jeito que usamos bate-papos encriptados como uma espécie de substrato do social. Estes bate-papos on-line são o conteúdo de grande parte da vida social. É assim que, segundo meu entendimento, a ação coletiva surge.

Contradição entre capitalismo de plataforma e comunidade livre de produtores

Prometi falar da contradição entre o capitalismo de plataforma e a comunidade livre de produtores, e assim farei. “Comunidade livre” é uma frase que Marx usa para denotar a sociedade que vem depois do capitalismo, na qual as pessoas não são obrigadas a trabalhar sob a ameaça da fome, na qual a produção é organizada coletiva e democraticamente, não em vista do lucro, na qual priorizamos o valor de uso, o que importa aos seres humanos diante dos valores de troca da produção da forma capitalista de valor.

Hoje, penso que vemos esta verdade no debate de Marx ao observarmos o seguinte: vivemos em uma sociedade na qual os combustíveis fósseis são considerados incrivelmente valiosos, e onde grande parcela da economia mundial vincula-se à extração desses combustíveis. Mas, na verdade, quando pensamos sobre o assunto a partir de um sentido humano, a extração e o uso dos combustíveis fósseis ameaçam a nossa existência enquanto espécie. Há uma contradição entre a forma capitalista de valor, o modo capitalista de produção e aquilo que fundamentalmente precisamos como seres humanos. Isso não só é verdade com referência aos combustíveis fósseis, onde esse setor – das empresas como Shell, British Petroleum – ameaça destruir a vida sobre a terra. Essa não é a única verdade com referência a esse setor, mas vale como referência aos demais.

Capitalismo de plataforma

Se observarmos o que acontece no capitalismo de plataforma, veremos que existem os aplicativos e os proprietários e investidores extremamente ricos, que exploram trabalhadores que recebem salários de pobreza absoluta na tentativa de criar tanto valor quanto possível. Aquelas pessoas não se preocupam com o impacto social aqui. Se os trabalhadores são forçados a trabalhar com mais rapidez e a tentar fazer o maior número de entregas, podendo sofrer acidentes de trânsito, isso não é assunto de preocupação das plataformas. E, na verdade, elas realmente não se importam.

Uma das coisas que realmente me marcaram quando trabalhei para essas plataformas, é que há um uso social desse trabalho. A entrega de alimentos é um serviço de cuidado bastante profundo. O que fazemos é que ajudamos aquele que recebe o seu alimento. Para mim, podemos pensar o quanto a gestão algorítmica e o uso capitalista dos algoritmos são completamente opostos ao uso social potencial do trabalho.

Potencial social das plataformas

O que precisamos pensar quando olhamos para as plataformas de entrega de alimentos é no potencial de usar essas plataformas e essa tecnologia para fazer entregas de alimentos a incapacitados, a idosos, a pessoas que lutam contra problemas de saúde, entregas a famílias que recém tiveram filhos e estão exaustas e que, agora, querem comida pronta.

Existe o uso social de valor aqui e existe uma necessidade profunda de cuidado. Enquanto essas plataformas atuarem como parte do modo capitalista de produção, essas duas coisas jamais irão se alinhar. O potencial de produzir resultados socialmente valiosos jamais se associará à necessidade daqueles resultados socialmente valiosos. Porque esse não é o curso assumido pelo lucro. Não é o modo mais lucrativo de organizar as coisas. Na verdade, esse modo nem sequer é lucrativo.

Quanto a mim, penso que o curso superior desta organização do trabalho precisa ser uma forma de sociedade na qual dizemos: Qual é o valor desse trabalho em termos de valor de uso? O que ele produz socialmente? Como podemos permitir que os trabalhadores assumam o controle da sua força de trabalho? Como podemos ter participação democrática naquilo que fazemos durante o dia? Como podemos otimizar os resultados sociais?

A otimização do lucro é, penso eu, uma otimização profundamente desumanizadora, profundamente corrupta, que tem levado a nossa sociedade a direções danosas e, na verdade, como indicam as minhas referências a Marx, isso acontece há centenas de anos.

Concluindo, o nosso horizonte de pesquisa precisa não ser apenas o de entender o que acontece dentro do capitalismo, mas também pensar o que pode ser uma saída. Quais formas de sociedade, quais formas de organização, quais oportunidades democráticas podem nos permitir alcançar uma situação na qual o valor de uso potencial desta mão de obra se realize realmente? Como fazer com que as plataformas de entregas de alimentos deixem de ser um setor degradante, de baixos salários, onde as pessoas arriscam a vida cruzando as cidades para o lucro de plataformas bilionárias, e se transformem num serviço social que importa a todos nós?

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