Leite, fraudes e descontrole

Tudo indica que produtores gaúchos foram vítimas. Mas contaminação revela fragilidade do controle sanitário pelas empresas e Estado

Por Samir Oliveira, no Sul21

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Tudo indica que produtores gaúchos foram vítimas. Mas contaminação revela fragilidade do controle sanitário pelas empresas e Estado

Por Samir Oliveira, no Sul21

A deflagração da operação Leite Compensado por parte do Ministério Público nesta quarta-feira (8) gerou apreensão entre os consumidores gaúchos. O MP identificou um esquema de adulteração de leite através da inclusão de água e de uma mistura de ureia e formol no produto.

O crime era cometido pelas transportadoras que levavam o leite dos produtores às empresas que beneficiam e comercializam a mercadoria. Por conta disso, o MP interditou lotes vendidos pelas marcas Italac Integral, Italac Semidesnatado, Líder/Bom Gosto UHT Integral, Mumu UHT Integral e Latvida UHT Desnatado.

As interdições ocorreram para que os produtos adulterados não chegassem mais às prateleiras dos supermercados, mas técnicos da área e promotores do Ministério Público afirmam que as empresas foram vítimas da fraude, não cúmplices. Apesar da ressalva, as autoridades frisam que as empresas deveriam ter detectado a adulteração do leite e que precisam melhorar seus mecanismos de controle de qualidade.

Investigação começou em dezembro de 2012

A Promotoria de Defesa do Consumidor começou a investigar o caso em dezembro do ano passado. Através de um convênio com o Ministério da Agricultura, a Secretaria Estadual da Agricultura e laboratórios especializados, o MP recebia amostras de leite que eram auditadas por esses órgãos. As amostras eram conferidas também por um engenheiro químico do Ministério Público.

Fraude do Leite no RS

Empresas envolvidas são LTV, Transportadora 3C, Chiesa, Crisma e Jappe | Foto: MP-RS

A fraude teria sido comprovada por meio de análises químicas do leite cru, quando foi identificada a presença do formol, que, mesmo depois dos processos de pasteurização, persiste no produto final. Com o aumento do volume do leite transportado, os “leiteiros” lucravam 10% a mais que os 7% já pagos sobre o preço do leite cru, em média R$ 0,95 por litro.

Uma das formas de adulteração identificada é a da adição de uma substância semelhante à ureia e que possui formol em sua composição, na proporção de 1 kg deste produto para 90 litros de água e mil litros de leite.

“Começamos a constatar a possibilidade de adição de formol no ano passado para maquiar a adição de água no produto. Utilizavam uma substância usada pela indústria moveleira”, explica o promotor Alcindo Luz Bastos da Silva Filho. Ele afirma que a substância química era colocada nos caminhões de transporte antes mesmo de se recolher o leite com os produtores.

As empresas de transporte envolvidas no crime são a LTV, de Guaporé; a Transportadora 3C, de Ibirubá; a Transportadora Chiesa, de Ibirubá; a Transportes Crisma, de Ibirubá; e a Transportadora Jappe, de Horizontina.

Um processo criminal já foi instaurado contra as pessoas envolvidas na fraude. Foram cumpridos ao todo 22 mandatos de prisão, busca e apreensão nos municípios de Ibirubá, Horizontina e Guaporé. Foram presos empresários do ramo do transporte e apreendidos documentos e computadores em empresas e residências, além de 17 caminhões utilizados para o transporte do leite adulterado.

“Fraude por adição de água é facilmente detectável“, diz técnico em laticínio

O técnico em laticínios Fábio Carvalho entende que as indústrias do setor deveriam ser mais rigorosas no controle de qualidade de seus produtos. Para ele, a operação Leite Compensado demonstra que tanto as empresas quanto o governo federal – a quem cabe a fiscalização – têm deixado a desejar no controle do leite que recebem de produtores e transportadores.

Fraude do Leite no RS

“A fraude por adição de água é facilmente detectável, existem vários exames de rotina que poderiam ser feitos todos os dias. É uma fraude muito mal feita e grosseira, por isso chama a atenção que não tenha sido detectada”, comenta.

Ele acredita que as empresas do setor tenham sido pegas de surpresa pelo esquema criminoso das transportadoras, já que a adição de ureia e formol prejudica, inclusive, a própria produção das indústrias. “Além dos exames de rotina, as empresas precisam fazer pesquisas nas áreas físico-química e microbiológica para verificar suspeitas e acusar problemas. Fica claro que as empresas foram logradas. Além do prejuízo de imagem, a adição de formol é contraproducente, pois inviabiliza a produção de uma série de derivados do leite”, informa.

O técnico afirma que o ministério da Agricultura também é responsável pela fiscalização do produto nas grandes empresas e deveria ser mais atuante nos procedimentos. “Há uma falha, o controle de qualidade do leite no Brasil precisa ser feito com muita atenção. É um produto altamente perecível, consumido por crianças e idosos, por pessoas adoentadas e com baixa imunidade. É um produto muito suscetível à fraude”, explica.

Em nota divulgada à imprensa, o Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado do Rio Grande do Sul (Sindilat-RS) afirma que ” todos os lotes identificados com problema foram retirados do mercado e não se encontram mais à disposição do consumidor”. O comunicado também ressalta que “a indústria reafirma seu empenho na obtenção e distribuição de leite e derivados de alta qualidade e de consumo seguro, com a realização de análise do produto recebido dos produtores, importantes parceiros no elo da cadeia produtiva”.

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Um comentario para "Leite, fraudes e descontrole"

  1. Marcia Abrahão disse:

    As empresas são sim responsaveis pela qualidade the materia prima adquirida. Não foram logradas.

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