Racismo no Shopping Cidade Jardim‏

Por Ibira Machado*

Caros representantes do Shopping Cidade Jardim e interessados em ouvir,

Foi com muita indignação que entrei em contato, ainda nesta manhã, com a história vivida por Pedro Bandera, cubano, músico e negro, ocorrida em meados de 2010. Ao se aproximar da Livraria da Vila, dentro do shopping, onde iria tocar percussão na apresentação da cantora Marina de La Riva, Pedro foi abordado por seguranças que, sem causa aprente, pensaram que ele pudesse ser um perigo ao bem estar do shopping. Não por menos, Pedro sente-se até hoje profundamente atingido pelo que teve que forçadamente passar. Mas, ao contrário do que pensam pessoas que agem como vocês, a ofensa não se restringe somente à pessoa que sofre o absurdo, e nem mesmo se restringe a seus familiares e amigos.

Eu não conhecia e sigo sem conhecer Pedro Damian Bandera Izquierdo. Mas, neste caso, não faz a absoluta menor diferença. Ao saber o que ocorreu com ele nas dependências do Shopping Cidade Jardim, senti-me triste, chocado, ofendido, envergonhado. Triste, porque não desejaria a ninguém a discriminação e isso já basta pra tristeza. Chocado, porque Pedro foi discriminado tão e somente por sua cor de pele, embora justificativas estúpidas tenham sido colocadas na mesa pra explicar a atitude do shopping – o que piorou a história. Ofendido, porque não me sinto diferente de Pedro, nem de nenhum ser humano, e, portanto, atitudes como essa inevitavelmente atingem a mim também. E envergonhado porque a vida quis que eu nascesse no Brasil, em São Paulo, na zona oeste da cidade, o que me coloca, a olhos desconhecidos, basicamente no mesmo balaio das pessoas que têm nojo e medo de afrodescendentes, independentemente de sua índole. E, na verdade, tenho consciência de que o Shopping Cidade Jardim e grande parte das pessoas que compactuam com ele estão, na verdade, na zona sul da capital paulista. Mas isso não me livra da vergonha.

Não culpo os seguranças que abordaram Pedro e o fizeram passar por tamanha infelicidade. Eles, na verdade, nem sabem o que fazem; reproduzem e cumprem as ordens transmitidas por aqueles que pagam seus salários. É provável que eles tenham filhos e acredito que eles não reproduzam racismo a eles, pois é muito provável que eles não morem na região geográfica brasileira onde se concentra o maior número de pessoas com medo. Portanto, não justifica que os seguranças propriamente sejam racistas, preconceituosos e tão pobres de espírito. Mas, mesmo que sejam, neste caso eles somente cumpriam ordens.

A Constituição brasileira de 1988 define o racismo como crime com pena de prisão, inafiançável. Provavelmente o Shopping Cidade Jardim não será preso, porque não se prende um shopping, mas bem que se poderia fechá-lo. Seria injusto prender os seguranças que abordaram Pedro, já que cumpriram ordens, ainda que cumprir ordens signifique ser conivente. Mas não é fácil pro ser humano ser assim tão desobediente. Os administradores do shopping, provavelmente, posicionam-se tão distantes disso, atrás de tantas burocracias, que provavelmente também não serão punidos – até porque a justiça brasileira resguarda a integridade dos criminosos de maior estirpe de nosso país. Integridade física, porque moral criminoso nenhum nunca teve.

Mas se a esperança morre por último, antes dela a gente dá o fôlego da vida, nem que seja pro cisne cantar.

Pedro encontrou em suas mãos a internet e a internet encontrou sobre ela as minhas mãos. É o recurso que temos, e com esse recurso, encaminho neste exato momento este email não somente ao SAC do Shopping Cidade Jardim, como também à JHSF, construtora e administradora do shopping, ao próprio Pedro, ao seu advogado, Daniel Teixeira, aos jornais Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, à Revista Piauí e ao site Outras Palavras, de jornalismo colaborativo e mídia livre.

*Ibira é geógrafo, autor do texto Ei, mas o sertão não é mais de vidas secas?. Trabalhou há alguns anos com consultoria de impactos socias, ecológicos e econômicos destas grande obras pelo Brasil adentro. Alimenta atualmente o blog de Cinema Indiano.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

7 comentários para "Racismo no Shopping Cidade Jardim‏"

  1. O shopping encaminhou a seguinte resposta:
    Caros,
    O Shopping Cidade Jardim e o músico Pedro Bandera informam que mantêm nesse momento esforço conjunto para colaborar no esclarecimento dos fatos que ocasionaram de…sconforto ao artista na ocasião do show de sua banda ocorrido nas dependências da Livraria da Vila, no Shopping, em agosto de 2010.
    A artista Marina de la Riva conhecedora da credibilidade e essência do músico Pedro Bandera e do empreendedorismo social do Shopping, tomou a iniciativa de reunir ambas as partes para que a abertura do diálogo fosse possível e se chegasse a um consenso quanto ao esclarecimento do que realmente houve na ocasião.
    Desse encontro restou claro para o músico Pedro Bandera que o Shopping é totalmente contra qualquer ato discriminatório e que está comprometido a continuar contribuindo para o esclarecimento dos fatos.
    Essa nota está sendo publicada em comum acordo nos perfis do artista Pedro Bandeira e igualmente nos do Shopping Cidade Jardim. Desde já ambos agradecem a colaboração da Marina de la Riva no sentido de se buscar o esclarecimento dos fatos.
    Atenciosamente,
    Shopping Cidade Jardim

  2. Minha resposta a eles:
    Caros,
    Muito obrigado pela resposta.
    Eu acredito que o Shopping é contra qualquer ato discriminatório, até porque a Constituição de 1988 proibide que alguém seja a favor. Quanto ao posicionamento de vocês, eu nunca tive dúvida. E reafirmarem o óbvio é irrelevante enquanto Pedro Bandera não disser, com todas as palavras, que aceita o posicionamento do Shopping. Ou alguém aqui tem dúvidas de que tudo o que deve ser feito é uma indenização por danos morais ao Pedro?
    A questão maior diz respeito às medidas que vocês optaram por adotar, após os assaltos que ocorreram no Shopping no ano de 2010. Ao invés de optar por um sistema de detecção de metais e coisas semelhantes, como adotam países com risco de terrorismo, vocês optaram por, dentre outras medidas, treinar seguranças para que fiquem mais atentos, o que acabou por atingir Pedro Bandera, um inocente.
    Entendo que um sistema de detecção de metais na entrada seja um pouco agressivo e, em alguns casos, invasivo. Mas se vivemos em uma sociedade que permite dar espaço a aberrações urbanas como o Parque Cidade Jardim, essa mesma sociedade assume, desta maneira, que não está interessada em compreender a própria responsabilidade sobre a violência e a pressão urbana que ela própria cria. Não estando interessada, com a mesma força e (falta de) vontade, ela também cria espaços supostamente isolados e protegidos, onde pode, supostamente, viver bem e feliz, consumindo com muito conforto, luxo e com a companhia de pessoas bonitas de cabelos lisos.
    Acontece que o isolamento não existe e essa pobre sociedade acaba vivendo no medo. A felicidade e o bem estar são ilusórios e vocês todos sabem disso. Infelizmente, ao não optar pela implantação de detectores de metais – porque feriria a felicidade e bem estar das pessoas bonitas de cabelos lisos – vocês conseguiram atingir todo o restante da sociedade, muito maior que vocês, via Pedro Bandera.
    Enquanto vocês preferirem aprimorar o sistema de segurança através da diferenciação dos seres humanos feita por outros seres humanos, podem ter certeza de que estarão tão e somente confirmando a discriminação praticada há séculos nesse país, que só passou a ser velada.
    Atenciosamente,
    Ibirá Machado

  3. Lucila disse:

    Caro Ibirá, obrigada por nos trazer a informação desse triste acontecimento. É insuportável esse tipo de abordagem. A cor de pele ainda é um definidor de superioridade ou inferioridade para os encastelados do Parque Cidade Jardim, essa aberração urbana, como você diz. As pessoas ‘bonitas de cabelos lisos’ que moram lá precisam rever seus conceitos, urgentemente….

  4. Antonio jorge disse:

    Fico feliz pelo apoio ao Sr. Pedro Bandeira, não ao músico, pois não importa, mesmo porque no instante do ocorrido não se sabia ser ele um músico.
    Essa é uma defesa para todos nós !
    “O acatamento inteligente do indivíduo a normas, regras, deveres e leis, contribui para estabilizar a harmonia na convivência humana.”
    Do livro Deficiência e Propensões do Ser Humano

  5. Lucila e Antonio Jorge, obrigado pelas palavras e apoio!

  6. Laudelina disse:

    Racismo é um lixo. Espero um dia poder viver numa sociedade em que todos sejam tratados da mesma maneira.
    Por outro lado tem alguns comentários que são ridículos.
    Tem pessoas que adoram fingir indignação com alguma coisa e aí faz uma grande polêmica com a finalidade de mostrar o quanto são superiores e nobres por defender os pobres e oprimidos!
    Eu dúvido se você que diz não ter preconceito, fosse abordado por um negro a noite numa rua deserta, se você não acharia que é um assalto….
    Para de ser hipócrita. O Pedro foi uma vítima neste caso sem dúvida. Agora quem escreveu esses comentários quer se aparecer isso sim.

  7. Diiii disse:

    Aff que ridiculo tudo hoje e visto como racismo por essa midia sionista manda esse cubano tomar no cu e volta pra terra dele

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *