O homem da cafeteria!

O homem maltrapilho me fez lembrar o relato de George Orwell sobre a vida miserável dos farrapos humanos que perambulavam pelas ruas da capital inglesa

Por Antonio Ozaí da Silva, Blog do Ozaí

O homem maltrapilho surge à porta da cafeteria e se dirige às pessoas sentadas próximas à entrada. Nas mesas, as conversas prosseguem e o burburinho abafa a voz do pedinte. Olho ao redor e tenho a impressão de que os presentes sentem-se perturbados por aquele senhor, mas eles mantêm uma atitude de aparente indiferença. Talvez por autoproteção!

É impossível não perceber aquele ser humano num recinto de indivíduos bem vestidos, bem alimentados e socialmente incluídos. Eles são a sociedade, ele é o pária. Tento manter a atenção pela conversa à mesa, mas observo os movimentos do homem e as reações dos demais. Discretamente, o proprietário se dirige até ele, há um diálogo rápido que não consigo ouvir e depois o pacato cidadão sai. Quem sabe, para alívio de alguns!

O homem da cafeteria me fez pensar! O que leva um ser humano a chegar a este ponto, a ter que sobreviver nestas condições de vida, sem teto, exposto às intempéries, sem condições propícias de higiene pessoal, sem família e a depender da caridade? Quais os motivos que explicam o fato de um homem se degradar dessa forma? O que dizer de uma sociedade na qual existem seres humanos como este? Qual é a responsabilidade do poder público?

Para muitos, a resposta é simples: a culpa é do indigente. A indigência é debitada ao hábito, à vagabundagem. Desconhece-se o indivíduo, sua história de vida, as motivações e causas que o empurraram a esta situação. O preconceito social caminha pari passu com a caridade. Esta, apesar de bem-intencionada e repleta de sentimentos genuínos, atua na superfície e não desce às profundezas do abismo social que produz a exclusão. Age sobre as conseqüências e não questiona as causas. Assim, termina por reforçar os fatores que corroboram para a reprodução da miserabilidade social.

Por outro lado, se pensarmos no indivíduo necessitado, ainda bem que existem os caridosos. Talvez, porém, a caridade faça mais bem a quem a pratica do que a quem a recebe. Talvez, ainda que imbuídos pelas melhores intenções e valores humanitários, não percebamos que o agir caridoso mascara a relação de superioridade, a humilhação do outro, o abrandamento da consciência culpada e o inflar do ego. Preparamos o nosso caminho para a salvação após a morte, enquanto caridosamente contribuímos para reprodução do inferno aqui na terra, ou seja, da realidade material, econômica e política que nutrem as causas da miséria e injustiças sociais.

Por coincidência, no dia em que vi aquele homem na cafeteria, cujos traços denunciavam o sofrimento acumulado com o passar dos anos, eu estava com o livro Na pior em Paris e Londres, escrito por George Orwell. O homem maltrapilho me fez lembrar o relato deste autor sobre a vida miserável dos farrapos humanos que perambulavam pelas ruas da capital inglesa. A vida se confunde com a ficção, e vice-versa.

Sou leitor da obra orwelliana e admiro-o ainda mais após ler Na pior em Paris e Londres. Ele abriu mão do conforto para viver o cotidiano dos mendigos londrinos e como lavador de pratos em Paris. George Orwell fez uma opção pelos pobres e buscou compreender o que se passa na alma desses seres humanos desumanizados. Ele compartilha lições que contribuem para conhecermos melhor este universo e nos livrarmos dos preconceitos sociais.

Finalizo com o que George Orwell aprendeu nesta dura experiência de vida: “Nunca mais vou pensar que todos os vagabundos são patifes, bêbados, nem esperar que um mendigo se mostre agradecido quando eu lhe der uma esmola, nem ficar surpreso se homens desempregados carecem de energia (…)” (p.245). Como afirma o autor de 1984 e A revolução dos bichos, “Já é um começo”. Vale a pena ler Na pior em Paris e Londres. Aprendamos com ele…

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