Gaël Giraud e aposta numa Internacional dos Comuns

Próximo ao papa e às formulações da Economia de Francisco, proeminente matemático francês aponta: para evitar desastre, será crucial refundar a noção de democracia, livrar Sul global do jugo das dívidas e apostar na comunhão com a Natureza

Por Pascale Tournier e Olivier Nouaillas, no La Vie, com tradução do IHU Online

Desde o verão passado, o economista e padre Gaël Giraud, 51 anos, ocupa o campo da mídia de todas as tendências. Ele já se expressou na GQ, na revista Études, na Forbes, no canal do YouTube Thinkerview – sua entrevista já foi vista mais de 1,1 milhão de vezes – e logo anuncia uma colaboração com Blast, a nova mídia do jornalista Denis Robert. Além disso, existem as redes sociais, onde atinge mais de 500 mil internautas por mês, e as suas conferências.

Nesses canais, o pesquisador do CNRS martela sua mensagem: cancelamento da “dívida da Covid” e mudança radical em nosso modelo econômico. Sua linha de horizonte? A República dos comuns, que passa por um grande plano de “reconstrução ecológica”, articulado em torno de um Estado que recuperou sua soberania para melhor proteger o local, e por uma refundação da democracia.

Compromisso e fé

Em poucos meses, Gaël Giraud deixou o interior católico e político. A urgência está aí:

“Foi a crise financeira de 2008 que me fez compreender que o nosso sistema financeiro tornou-se perigoso, que a maioria do grande público, mas também dos políticos, não entendia muito sobre isso. Portanto, era necessário tomar a palavra. As reflexões resultaram em um livro escrito com Cécile Renouard, 20 Propositions pour réformer le capitalisme, Flammarion (20 propostas para reformar o capitalismo). De 2008 a 2018, criei um clube parlamentar, para formar deputados e senadores, participei de diversas comissões, escrevi notas com a cumplicidade de Alain Grandjean, hoje presidente da Fundação Nicolas Hulot, esperando que os políticos compreendessem as questões. Fui ver o François Hollande, depois o Emmanuel Macron. Sem sucesso. A releitura orante desses 10 anos revelou-me que fiquei muito agitado, pressupondo que o jogo político tornaria possível a apropriação do que, com outros, eu tinha a dizer. Este, infelizmente, não é mais o caso”.

Seu engajamento no debate público é inseparável da sua fé. “Os jesuítas nunca ficaram de fora da arena dos assuntos públicos”, recorda, antes de acrescentar: “Existe tal crise em relação à instituição democrática, às nossas condições de vida, à nossa relação com o planeta e ao nosso futuro que, como cristãos, temos o dever de nos mobilizar. Devemos testemunhar por meio das nossas ações que existe uma esperança possível em nome do Evangelho. Temos o dever de testemunhar a fé, a alegria – apesar da depressão de Covid! – e uma relação feliz com a criação. Em um mundo onde o crescimento não pode ser infinito, nossa tradição espiritual expressa uma capacidade de autocontenção e uma verdadeira soberania do humano na qual nossas sociedades desorientadas podem encontrar uma fonte de inspiração”.

Discurso neokeynesiano

E funciona. Com suas palavras claras, mas taxativas, Gaël Giraud seduz também os militantes e ativistas da CGT, dos católicos ecologistas, dos CSP +, bem como a muitos jovens. “Ele é um professor muito bom, com uma visão transversal do sistema econômico”, defende Chloé Ridel, do Instituto Rousseau, um think tank de esquerda que preside desde 2020. De fato, seu lado economista de alto voo dá credibilidade ao seu discurso neokeynesiano, que pode afastar o mundo econômico mais tradicional. Normalista, politécnico, graduado pela Escola Nacional de Estatística e Administração Econômica, detentor de uma tese em matemática aplicada e outra em teologia, Gaël Giraud sabe fazer malabarismos com as árduas regras do mundo da economia.

“Quando fala de ecologia, não fala da quantidade de pratos vegetarianos na cantina, mas dos grandes equilíbrios, do papel de instituições como o Banco Central Europeu e da responsabilidade ética das multinacionais”, observa o deputado Dominique Potier, do PS. No entanto, essa visão tão ampla não faz dele um investigador fora da realidade. Durante seu estágio de cooperação no Chade, 25 anos atrás, ele se defrontou com a realidade da pobreza. “Ele nunca vai esquecer os meninos de rua, com quem viveu durante um ano”, lembra Marcel Rémon, diretor do Centro de Pesquisa e Ação Social (Ceras) e da revista Projet, que o conhece desde os anos 1990. Seu posto de economista-chefe da Agência Francesa de Desenvolvimento, de 2015 a 2019, mostra-lhe o impacto da ação institucional no dia a dia dos cidadãos. Mas também seus limites.

Uma figura capaz de congregar

Em um momento em que a esquerda busca desesperadamente sua unidade para 2022, Gaël Giraud aparece como uma figura capaz de congregar. “Ele tem tudo do baobá que deita suas raízes em diferentes lugares: o mundo dos mais pobres, da ecologia, dos países do Sul…”, observa Marcel Rémon.

Mas nessa busca pelo homem providencial, que papel ele pode desempenhar? Conselheiro do príncipe ou o próprio príncipe? Essa possibilidade surgiu no outono. “Ele pode ter a tentação da hubris”, constata um socialista. Mas esse cenário foi finalmente descartado. Seu status de padre o impede. Em todo caso, do lado dos candidatos às eleições presidenciais, Anne Hidalgo, Jean-Luc Mélenchon, Yannick Jadot, Éric Piolle ou Arnaud Montebourg, todos dizem que o consultam.

“Falo com todos”, confirma, embora prefira a visão de Montebourg. Ele disse que concordou em ocupar um lugar de destaque se o ex-ministro da Economia entrasse na disputa. Por enquanto, as pesquisas não lhe são favoráveis… E, desde fevereiro, Gaël Giraud ganhou espaço. Como o espírito livre que pretende permanecer, ele levantou voo para a Universidade de Georgetown, em Washington. Uma forma de aperfeiçoar sua estatura internacional, para poder pregar melhor a boa palavra.

A fraternidade de Gaël Giraud em Creuse

“Eu venho a Creuse todos os anos. Tenho raízes familiares perto de Saint-Sulpice-le-Dunois e La Souterraine. Quando criança, passei todas as minhas férias em Saint Sulpice. Estou voltando para cá para trabalhar com um pequeno grupo de pessoas daqui, de Paris, de Amiens, religiosos e leigos, de várias gerações: estamos em processo de fundar uma fraternidade em Creuse”, confidenciou Gaël Giraud em Ainsi naquit Chemin faisant en Creuse, uma associação de uma dúzia de membros (incluindo o teólogo Christoph Theobald e Cécile Renouard, religiosa da Assunção) que se reúne pelo menos uma semana a cada verão em Creuse. E cujos princípios estão contidos em uma carta de 10 páginas que detalha a fonte (o Evangelho), o funcionamento (deliberação coletiva, autoridade espiritual) e um modo de vida articulado em torno da ecologia e da “frugalidade feliz”. “Na verdade, os dois elementos fundadores são a doação à Fraternidade da Casa Familiar de Gaël Giraud e também o texto Recréer un village, de Édouard Pousset, um jesuíta que se instalou na década de 1970 em Fresselines, a cerca de dez quilômetros daqui”, informa Marie-Jo Deniau, 61 anos, atual presidente da Chemin faisant, que mora o ano todo em Creuse e é referência pastoral a nível nacional da educação católica. “Para Gaël, explica ela, é também uma forma de fincar raízes em uma terra à qual ele está muito apegado”.

Todos os verões, nesta pequena aldeia de 620 habitantes, durante as jornadas livres da Fraternidade, podemos ver Gaël Giraud, de calção e sandálias, receber os visitantes no jardim da antiga casa da família, um edifício sólido de 90 m2, rodeado por um pomar onde uma grande tenda branca é montada para os debates envolvendo espiritualidade e ecologia. Ali se fala de permacultura, apicultura, transição ecológica, das Redes Colibris ou ainda da encíclica Laudato Si’.

Além disso, essas jornadas livres são frequentemente acompanhadas por uma conferência para o público em geral (como em 2019 sobre as mudanças climáticas ou em 2020 sobre o coronavírus), organizada na comuna de Dun-le-Palestel e que muitas vezes fica completamente lotada (entre 100 e 150 pessoas), uma espécie de pequeno milagre nesta terra limusina (região de Limousin) descristianizada.

Xavier Durand, da Mission de France, padre da Paróquia de Saint-Jacques em La Souterraine, que nunca perde nenhuma das jornadas livres da fraternidade, vê esta iniciativa com bons olhos: “Elas nos dão uma lufada de ar fresco, uma respiração. E mostram que existem muitas maneiras de levar uma mensagem cristã e de comunhão à sociedade”.

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