Do assassinato de Kennedy ao STF e a mídia

Retrospectiva histórica revela: está se gestando no Brasil mesma atmosfera de ódio que instigou, há 50 anos, crime de Dallas

Por Venício A. de Lima, na Carta Maior

kennedy

Retrospectiva histórica revela: pode estar se gestando no Brasil mesma atmosfera de ódio que instigou, há 50 anos, crime de Dallas

Por Venício A. de Lima, na Carta Maior

No final da tarde do dia 22 de novembro de 1963, me aproximei de um pequeno grupo de pessoas que ouvia incrédulo à edição extra do noticiário de um velho rádio no “Bar do Seu Crispim”, bem defronte ao Cine Villa Rica, em Ouro Preto. Foi onde e como fiquei sabendo do assassinato do presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, nas ruas de Dallas, Texas.

Militante estudantil, apesar de ter apenas 18 anos, vivi intensamente o momento político, marcado pela radicalização da Guerra Fria, pelas repercussões da Revolução Cubana, pelo conturbado processo de resistência às Reformas de Base do presidente João Goulart e da ativa movimentação de opositores como Carlos Lacerda que percorriam o país – inclusive Ouro Preto – pregando abertamente o golpe de estado.

Cinquenta anos depois, estaríamos diante de um processo de intolerância e radicalização política que lembra os conturbados meses que se seguiram àquele novembro longínquo?

Dallas, 1963: Entre as inúmeras atividades que marcam os 50 anos do assassinato de Kennedy, nos Estados Unidos, está o lançamento do livro Dallas 1963 resultado de um elaborado trabalho de reconstituição histórica realizado por Steven L. Davis e Bill Minutaglio (Editora Twelve, outubro de 2013). A preocupação dos autores não é apresentar uma nova hipótese sobre quem afinal matou o presidente. O que pretendem é reconstituir a atmosfera de intolerância que fez de Dallas a “cidade do ódio” e construiu o cenário no qual o assassinato se tornou possível.

Os autores iniciam sua reconstituição três anos antes (1960) e mostram como conservadores extremistas e antiliberais difundiam o ódio a Kennedy, que consideravam um traidor socialista que promovia os direitos civis e estava a transformar os Estados Unidos num país comunista (sic).

Em entrevista concedida à jornalista Juliana Sayuri e publicada no caderno “Aliás”, do jornal O Estado de São Paulo, de domingo dia 17 de novembro, Steven L. Davis explica que esses conservadores lunáticos “não estavam à margem da sociedade, mas no centro. Líderes cívicos e poderosos eram os organizadores dessa resistência.”

Ele menciona especificamente dois homens de mídia: o bilionário petroleiro H. L. Hunt, que controlava várias emissoras de rádio, e Ted Dealey, herdeiro e editor do Dallas Morning News, “o mais influente jornal no sul do país”. Também o pastor W. A. Criswell, líder espiritual da maior igreja batista dos EUA, dentre outros. A ação desses “lideres” acaba por criar “uma atmosfera insana” condutora de ações violentas e culmina com o assassinato de Kennedy.

Perguntado se “há uma cidade raivosa como Dallas atualmente nos EUA?”, Steven responde: “Não há uma cidade em particular. Na verdade, esse sentimento de ódio que nós vimos começar, dominar e explodir em Dallas agora se espalhou nacionalmente. Está em todos os lugares do país”.

Brasil, 2013: O 15 novembro de 2013 – dia em que se celebraram os 124 anos de Proclamação da República – certamente ficará marcado na história política do nosso país pela prisão midiática dos réus condenados pela Ação Penal 470.

Os questionáveis deslocamentos, de São Paulo para Belo Horizonte e, depois, para Brasília foram cobertos ao vivo, ao longo do dia e da noite, pela mesma grande mídia que criou a atmosfera que ajudou a condená-los e contribui para transformá-los em figuras de escárnio público para boa parte da população, independentemente de serem culpados ou não.

Escrevendo sobre os efeitos políticos do julgamento da Ação Penal 470, Renato Janine Ribeiro afirma:

“Um segundo resultado (…) foi converter nossa disputa política em guerra. É básico para qualquer analista político que a democracia se distingue dos outros regimes porque nela há adversários e não inimigos. Ela não é guerra. A democracia é o único regime no qual a divergência é admitida, e a oposição — que ao longo de milhares de anos foi presa, banida, executada com requintes de crueldade — tem o direito de falar, e de tornar-se governo. Mas desde o mensalão o que temos é um estado de guerra inscrito no espaço político, substituindo o debate pelo ódio” [cf. “A prisão dos condenados”].

Pode haver alguma dúvida de que as ações emanadas do STF, conduzidas pela Polícia Federal e “celebradas” pela grande mídia no último dia 15, em nada contribuíram para amenizar “a guerra” em que vem se transformando o processo político brasileiro?

E o futuro?: Para um dos autores do Dallas 1963, como já dito, “o sentimento de ódio que nós vimos começar, dominar e explodir em Dallas agora se espalhou nacionalmente. Está em todos os lugares do país”. Vale dizer, 50 anos depois, os Estados Unidos estariam a viver a mesma atmosfera que levou ao assassinato de Kennedy.

Acontecimentos tão distintos como o ocorrido em Dallas em 1963 e os que ocorrem no Brasil em 2013, ressalvadas as enormes diferenças históricas, todavia, parecem ter algo em comum: o clima político não democrático de intolerância, de ódio, de recusa a ouvir o outro, de defesa intransigente de interesses privados e total desprezo pelo interesse público.

A questão que fica é: a quem e a quais interesses serve a intolerância insana, esteja ela nos Estados Unidos ou no Brasil?

A ver.

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7 comentários para "Do assassinato de Kennedy ao STF e a mídia"

  1. Geraldo Cristino de Assunção disse:

    Ódio, sm.1.Paixão que impele a causar ou desejar mal a alguém; raiva,ira. 2.Aversão a pessoa, atitude, coisa etc.

  2. Luiz Fernando disse:

    Tempos sombrios prevejo.

  3. JURIDICO disse:

    Estava lendo O SENHOR EMBAIXADOR, do Erico, quando o Corvo apareceu no sonho e repetiu –
    – Nunca mais.
    E ditou a seguinte peca.
    PRIMEIRO ATO
    A armadilha
    O departamento de Estado determina a mudanca do Senhor Embaixador .
    Os resultados obtidos na tese sob a possibilidade de diminuir por via pseudo legal a soberania que vinha sendo obtida nos paises latinos, sem emprego de armas, tinha obtido saldo altamente positivo em duas ocasioes.
    O metodo e obter um fato da vida real do pais nacional que possa ser manipulado de acordo com interesses desses grupos que nao aceitam a soberania nacional do povo da Nacao, e sim brigam por um retorno ao passado onde tinham as benesses do Estado.
    Com essas benesses fortunas foram criadas e o poder economico comanda a vida do Estado Nacao.
    Portanto, e preciso criar esse fato para manipulacao da opiniao publica.
    Nada melhor que via Poder Judiciario que normalmente Historicamente, decidia questoes so afeta as suas atribuicoes.
    Agora, atraves da premissa o Supremo tudo pode, inclusive para interpretar de qualquer forma a Constituicao , isto da forma que atende aos anseios politicos do homens e mulheres que o compoem em cada Nacao -Estado
    – a arapuca esta armada.
    SEGUNDO ATO
    O metodo
    O planejamento realizado pelo Departamento de Estado consiste em
    O Poder Judiciario cria um atrito com o Poder Legislativo ou Executivo
    Pratica-se um crime tipo –
    Servir-se das autoridades sob sua subordinação imediata para praticar abuso do poder, ou tolerar que essas autoridades o pratiquem sem repressão sua.
    De preferencia com um lider partidario para aumentar a tensao
    Criticar de forma negativas mazelas do poder sob ataque, cria-se o atrito.
    A Nacao treme.
    A Arapuca esta armada.
    IMAGINE
    SE O PODER EXECUTIVO COMETESSE CRIME
    SE O PODER LEGISLATIVO COMETESSE CRIME
    O PODER JUDICIARIO PODE RASGAR OS DIREITO INDIVIDUAIS
    A PERGUNTA QUE NAO QUER CALAR
    DE ONDE VEIO JOAQUIM BARBOSA?
    ANTERIOR AO DESCOBRIMENTO DE LULA O QUE FEZ BARBOSA?
    A COMPRA DO AP EM MIAMI FOI PARA FUGA TIPO BATISTA?
    A Arapuca esta armada.

  4. André Galhardo disse:

    Não há como comparar – apesar de ter a ressalva sobre o resguardo das proporções – estes acontecimentos.
    Infelizmente, desde quando nos conhecemos por nação, estamos habituados com o desgaste da imagem do homem público, pois este certo ou não, terá sua imagem vinculada aos escândalos de corrupção que se seguem repetidamente e acabam sem punições. O último dos exemplos foi a decisão de manter no cargo o Dep. Federal Natan Donadon mesmo este tendo sido preso. Não me importa aqui os seus partidos, e concordo com você sobre a perseguição da grande mídia para com alguns bodes espiatórios, mas atitudes como essa tiram a credibilidade dos políticos em detrimento do aumento desta para com o oligopólio dos veículos de informação no Brasil.
    Acho ainda que, parece cada vez mais sem espaço a opinião que de alguma maneira parece convergir com a da grande mídia, ainda que esta carregue verdade inexorável.

  5. Essas condenações foi uma verdadeira vergonha STF; do qual para mim era o “intocável Tribunal Federal”. Do qual hoje para mim não passa do “corrupto Tribunal Federal”. Que vergonha, que desrespeito a democracia e ao povo brasileiro.
    Leiam e concluam.

  6. Maria Sarah da Silva Telles/Sarah disse:

    Não é ódio, por parte da direita, mas é decepção profunda por parte de quem é de esquerda e confere que aqueles líderes se locupletaram do poder, como os conservadores que os antecederam… Acho que o artigo “delirou”… Em qualquer país do mundo a notícia de um ex-ministro tão poderoso como foi José Dirceu venderia muito.

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