Calçadas, marginais na ditadura do automóvel

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Numa grande metrópole brasileira, livro mostra a deterioração da estrutura que daria dignidade ao pedestre — e propõe caminho para construção de passeio cidadão

Por Francisco Carneiro da Cunha e Luiz Helvecio, no Mobilize

O livro Calçada: O primeiro degrau da cidadania urbana é resultado do levantamento realizado em 2012 por dois pesquisadores preocupados com a mobilidade a pé na cidade do Recife, o arquiteto Francisco Cunha e o engenheiro Luiz Helvecio.

A situação encontrada pelos autores em todos os bairros da cidade revelou: calçadas inexistentes; calçadas sem piso ou construídas com material inadequado; calçadas esburacadas, sem manutenção; calçadas com derramamento de esgotos; calçadas com inclinações excessivas, com batentes, degraus e com rebaixamento de meio-fio além do permitido pela legislação.

Toda a estrutura voltada para os pedestres se deteriorou, constata o trabalho. E a cultura do automóvel é, observam, a grande responsável por essa situação degradante, que se intensifica conforme os recursos da cidade passam a se direcionar integralmente para obras de avenidas e viadutos. “Andar a pé no Recife passou a ser atividade das pessoas de menor poder aquisitivo (…), que não decidem os destinos da cidade”. Assim, analisam os autores, aumenta a exclusão social e a apropriação da cidade pelos habitantes e turistas.

Mas nem sempre foi assim, lembram os pesquisadores: “Houve períodos em que as pessoas se locomoviam, de forma quase majoritária, em transporte coletivo ou mesmo a pé. Isso aconteceu até a década de 1960, quando começou a aumentar de forma intensa em nosso país, e em particular no Recife, a frota de veículos motorizados”.

Ao realizar este trabalho de fôlego, o objetivo dos autores foi, nas suas palavras, “ajudar, de alguma maneira, a restaurar a justiça e a dignidade nas calçadas do Recife. Para que, assim, possamos almejar uma cidade justa e sustentável, como é o anseio de todos os recifenses, nascidos na cidade ou vindos de outros cantos do planeta”.

O livro

Fartamente ilustrado com desenhos e fotos que documentam os diversos problemas encontrados nas calçadas do Recife, a publicação traz também, entremeados no texto, depoimentos de cidadãos que contam suas experiências no caminhar pelas ruas da cidade, além de análises críticas de urbanistas e outros especialistas sobre a mobilidade a pé na cidade.

O primeiro capítulo traz o levantamento feito pelos autores das calçadas em todo o Recife. Em seguida, são apresentados exemplos de boas calçadas nos países vizinhos (Peru, Chile e Colômbia) e no Brasil, para que sirvam de referências às mudanças que espera-se a capital pernambucana venha a receber. O capítulo seguinte aborda a legislação (“Sobram leis e faltam calçadas”, onde o problema da falta de vontade política é denunciado). Por último, é apresentado, a título de sugestão, um roteiro para uma calçada cidadã no Recife, com 10 passos: consciência e engajamento; coordenação unificada; complemento da legislação; padrão para as calçadas; cartilha para orientação; controle rígido; fiscalização rigorosa; plano de adaptação à legislação; programa de conscientização; e participação cidadã.

Capa do livro

Leia o livro “Calçada: O primeiro degrau da cidadania urbana” na íntegra, em formato pdf. 

 

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Redação

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