Como o Brasil poderá se beneficiar da crise (III)

O país como um todo e o governo como um todo, setor privado e universidades, devem acordar para o grande desafio de unir inovação e sustentabilidade para o desenvolvimento

Por Luis Nassif, em seu blogue

Chegou a hora de convocar os formuladores de futuro.

Não dá mais para encarar a crise global apenas de forma defensiva, tendo como único objetivo minimizar seus efeitos sobre o Brasil. A crise abre a oportunidade histórica do Brasil dar um salto. Mas exige-se, antes, visão estratégica.

No governo Collor, houve um ensaio de visão estratégica nos estudos de Eliezer Baptista para a integração do continente. No governo Lula, criou-se a Secretaria de Assuntos Especiais, montou-se o projeto Brasil em 2 Tempos, visando desenvolver essa visão. O projeto foi tocado pelo coronel Oliva, com um grau de sofisticação analítica excepcional.

Havia um problema nele. Eram formulações por demais sofisticadas para haver um elo automático com o dia-a-dia de governo. Havia a necessidade de um órgão intermediário – possivelmente a própria Casa Civil – assimilando os conceitos, enriquecendo-os e definindo o modo de casar as políticas públicas com os objetivos de longo prazo.

Mas não ocorreu.

Em seguida, assumiu o advogado Roberto Mangabeira Unger, que atuou – de forma inteligente – como uma espécie de propagandista das ideias chaves de cada ministério. Conversava com o Ministro, assimilava o que havia de relevante no trabalho (em cima da visão de futuro) e propagandeava, Foi eficaz.

Mas até agora a questão estratégica foi tratada como gambiarra. Avançou-se na coordenação de projetos – como o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) –, na definição de políticas multissetoriais (como o Brasil Sem Miséria).

Mas todos esses programas contemplam o que existe. Não há uma ação coordenada, sequer estudos sistematizados, que indiquem para onde caminhar, em um mundo que passa pelas mais profundas transformações desde a Primeira Guerra.

Há novos paradigmas que são intocáveis.

O primeiro é o da sustentabilidade. A médio prazo haverá uma mudança radical no modelo econômico atual, baseado no desperdício dos recursos naturais, na obsolescência planejada, no consumismo desenfreado, na vida em torno das megalópoles. E sob esse prima deve haver ênfase total na nova economia dos trópicos, no uso sustentado e tecnologicamente avançado das florestas tropicais e da agricultura sustentada.

O segundo paradigma é o da inovação.

E aí há que se identificar as áreas prioritárias.

Como explica o Secretário Executivo do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), Luiz Antônio Elias, o diferencial de crescimento brasileiro se dará nas áreas de alimento, petróleo e gás.

O país precisa diversificar cada vez mais sua agricultura, saindo do binômio cana-soja.

O terceiro paradigma é o da infraestrutura. Para tanto, não se pode sangrar o pré-sal. Ele precisa ser visto como eixo estruturante do desenvolvimento brasileiro nas próximas décadas.

O país já tem o melhor ambiente regulatório do mundo, diz Elias, todas as leis internacionais estão adaptadas aqui, o da propriedade industrial, da inovação, de incentivos fiscais, contratos com credibilidade. É um enorme celeiro de oportunidades para as grandes multinacionais.

Desde, obviamente, que se desenhe a estratégia correta para atraí-las.

***

Pesquisa recente com empresários – sobre como enfrentar a crise global – apresentou a inovação como a chave para a superação. No século 19, o grande salto norte-americano se deu, numa ponta, na consolidação do mercado de consumo de massa; na outra, em investimentos pesados em ciência. Esse é o ponto a se aprofundar em qualquer estratégia de definição do novo papel do país no mundo.

Como lembra Luiz Antonio Elias, secretário executivo do Ministerio de Ciência e Tecnologia (MCT), a partir dessas universidades, os EUA trouxeram grandes cientistas mundiais, montaram grandes laboratórios e, ainda hoje, são o principal centro de inovação do planeta.

Preso na armadilha financeira, o governo Barack Obama não está conseguindo dar visibilidade ao seu grande projeto, de redesenho da economia norte-americana. Lançou desafios enormes, como o redesenho da infraestrutura do país e a nova matriz energética, o avanço da biuotecnologia voltada para fármacos. Desafiou a indústria automobilística norte-americana – ou inova ou morre. E está mudando a face da economia dos EUA.

E aí se retoma uma grande discussão dos anos 90, sobre o papel da universidade e da ciência. Formou-se a convicção de que inovação se dá no âmbito das empresas. De fato, é nas empresas que se desenvolvem produtos, que se trabalha a propriedade intelectual e industrial. Mas essa visão acabou minimizando a importância da academia na produção de ciência. E sem ciência não há P&D (pesquisa e desenvolvimento).

Dados da Pintec (Pesquisa de Inovação Tecnológica, do IBGE) indicam que o principal fator de inovação, no setor privado brasileiro, ainda é a atualização de máquinas e equipamentos e licenciamento de know how e patentes e treinamento e assistência técnica. A maioria dos pesquisadores continua nas universidades; poucos, nas empresas.

Existem instrumentos poderosos de estímulo à inovação nas empresas, mas pouco aproveitados.

Trata-se de um problema cultural, constata Elias.

O Brasil só se tornou potência em etanol porque houve o desenvolvimento de ciência nas universidades e, depois, a Esalq (Escola de Agronomia Luiz de Queiroz) transformou o conhecimento em processo produtivo.

Hoje em dia, todas as multinacionais do setor de agronegócios trabalham em armazenamento, não em tecnologia, porque essa capacidade já é prerrogativa do Brasil.

O choque de ciência e inovação exige nova postura da área de recursos humanos das empresas, privilegiando mestres e doutores. Mas, principalmente, uma grande clareza sobre os objetivos futuros do país.

No Brasil, essa coordenação dá-se em cima da CENPES, da Petrobras, que montou uma extensa rede de laboratórios, 50 redes de pesquisa dando suporte às suas demandas.

No âmbito federal, finalmente a ciência entrou no PPA (Plano Plurianual, que orienta os investimentos orçamentários), como terceiro eixo estruturante. O MCT já dispõe do quinto ou sexto orçamento federal. A Finep recebeu recursos inéditos para inovação.

Falta o tilt, o país como um todo e o governo como um todo, setor privado e universidades, acordar para o grande desafio.

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