Honduras: desonra da doutrina yanque

O país centro-americano registrou 61 assassinatos políticos em 2010 e outros 59 em 2011. Os Estados Unidos apoiam governo que se instalou no poder após eleições condenadas pela comunidade internacional 

Por Mark Weisbrot, The Guardian | Tradução: Adital

Imagine que um ativista opositor fosse assassinado em plena luz do dia na Argentina, na Bolívia, no Equador ou na Venezuela por pistoleiros mascarados, ou sequestrado e assassinado por guardas armados de um conhecidíssimo partido do governo.

Seria uma notícia de primeira página no New York Times e em todos os canias de TV. O Departamento de Estado dos Estados Unidos emitiria uma enérgica declaração sobre graves abusos dos direitos humanos, caso algo semelhante acontecesse.

Agora, imagine que 59 assassinatos desse tipo aconteceram até agora, durante o ano de 2011, e 61 no ano passado. Muito antes de que a quantidade de vítimas chegasse a esse nível, seria convertido em um importante tema de política exterior para os Estados Unidos, e Washington exigiria sanções internacionais.

Porém, estamos falando de Honduras, não da Bolívia ou da Venezuela. Portanto, quando o presidente Porfirio Lobo, de Honduras, foi a Washington, no mês passado, o presidente Barack Obama o saudou calorosamente e disse: “Há dois anos, vimos um golpe em Honduras que ameaçou desviar o país da democracia e, em parte pela pressão da comunidade internacional; porém, também pelo forte compromisso com a democracia e a liderança do presidente Lobo, o que vemos é uma restauração das práticas democráticas e um compromisso com a reconciliação, o que nos dá muitas esperanças”.

Evidentemente, o presidente Obama, inclusive, negou-se a reunir-se com o presidente democraticamente eleito, que foi derrocado pelo golpe mencionado, apesar de que esse presidente, logo após o golpe, foi por três vezes a Washington em busca de ajuda. Era Manuel Zelaya, o presidente de centroesquerda que foi derrocado pelos militares e setores conservadores em Honduras após instituir uma série de reformas votadas pela cidadania hondurenha, como o aumento do salário mínimo e leis de impulso à reforma agrária.

Porém, o que mais enfureceu a Washington foi a proximidade de Zelaya com os governos esquerdistas da América do Sul, incluída a Venezuela. Não estava mais próximo da Venezuela do que o Brasil ou a Argentina; porém, foi um crime de oportunidade. Portanto, quando os militares hondurenhos derrocaram a Zelaya, em junho de 2009, o governo de Obama fez todo o possível durante os seis meses seguintes para assegurar-se de que o golpe havia sido um êxito.

A “pressão da comunidade internacional”, a que Obama se referiu na declaração mencionada, veio de outros países, especialmente dos governos de esquerdas da América do Sul. Os Estados Unidos estavam do outro lado, lutando –finalmente com êxito- a fim de legitimar o governo golpista mediante uma “leleição” que o restante do hemisfério negou-se a reconhecer.

Em maio desse ano, Zelaya declarou em público o que já havíamos adivinhado os que acompanhamos de perto os acontecimentos: que Washington esteve por trás do golpe e ajudou para que se perpretara. Mesmo que nignuém se dê ao trabalho de investigar qual o papel dos Estados Unidos no golpe, é algo bastante plausível em vista da grande avidência circunstancial.

Porfirio Lobo assumiu o poder em janeiro de 2010; porém, a maioria do hemisfério negou-se a reconhecer seu governo porque sua eleição aconteceu mediante graves violações dos direitos humanos. Em maio de 2011, chegou-se, finalmente, ao Acordo de cartagena (Colômbia), que permitiu que Honduras voltasse à Organização dos Estados Americanos (OEA). Porém, o governo de Porfirio Lobo não cumpriu sua parte nos Acordos de Cartagena, que incluíam garantias para os direitos humanos da oposição política.

Em seguida, menciono duas das dezenas de assassinatos políticos que aconteceram durante a presidência de Lobo, tal como foram recopilados pela Red de Liderazgo Religioso de Chicago sobre Latinoamérica (CRLN, por suas siglas em inglês): “Pedro Salgado, vice presidente do Movimento Unificado Camponês do Aguán (Muca) foi eliminado a tiros e depois foi decapitado, aproximadamente às 8 da noite em casa da empresa cooperativa La Concepción. Sua esposa, Reina Irene Mejía, também foi assassinada a tiros na mesma ocasião. Pedro sofreu uma tentativa de assassinato em dezembro de 2010… Salgado, como os presidentes de todas as cooperativas que reivindicam direitos a terras utilizadas pelos empresários do óleo de palma africana no Aguán, havia sido objeto de constantes ameaças de morte desde inícios de 2011”.

A coragem desses ativistas e organizadores frente a semelhante violência e horrível repressão é assombrosa. Muitos dos assassinatos do ano passado aconteceram no Valle Aguán, no Nordeste, onde pequenos agricultores lutam por direitos à terra contra um dos altifundiários mais ricos de Honduras, Miguel facussé.

Ele produz biocombustíveis nessa região em terras em disputa. É próximo aos Estados Unidos e foi um importante apoio ao golpe de 2009 contra Zelaya. Suas forças privadas de segurança, junto com policiais e militares respaldados pelos EUA são responsáveis pela violência política na região. A ajuda dos EUA aos militares hondurenhos aumentou a partir do golpe.

Recentes comunicações diplomáticas publicadas por WikiLeaks mostram que os funcionários estadunidenses souberam, desde 2004, que Facussé traficou grandes quantidades de cocaína. Dana Frank, professor da Universidade de Santa Cruz, especialista em Honduras, resumiu para The nation, no mês passado: “Fundos e treinamento da ‘guerra contra a droga’ dos EUA, em outras palavras, estão sendo utilizados para apoiar a guerra de um conhecido narcotraficante contra os camponeses”.

A militarização da gurerra contra a droga na região também impulsiona Honduras pelo mesmo caminho perigoso trilhado pelo México, um país que já tem uma das mais altas taxas de assassinatos no mundo. The New York Times informa que 84% da cocaína que chega aos EUA agora cruza pela América Central, em comparação com os 23% em 2006, quando Calderón chegou à presidência no México e lançou sua guerra contra a droga. The Times também assinala que “os funcionários estadunidenses dizem que o golpe de 2009 abriu a porta aos carteis [da droga]” em Honduras.

Quando votei por Barack Obama, em 2008, nunca imaginei que seu legado na América Central seria o retorno do governo dos esquadrões da morte, do tipo que Ronald Reagan apoiou tão vigorosamente nos anos 80. Porém, parece ser o caso em Honduras.

O governo ignorou até agora a pressão dos membros democratas do Congresso para que sejam respeitados os direitos humanos em Honduras. Esses esforços continuarão; porém, Honduras necessita ajuda do Sul. A América do Sul foi a que encabeçou os esforços para reverter o golpe de 2009. Apesar de que Washington os derrotou, não pode abandonar Honduras enquanto gente que não é diferente de seus amigos e partidários em seus países são assassinadas por um governo respaldado pelos Estados Unidos.

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