Acidente japonês é muito pior que se pensou

Governo e mercados começam a admitir dimensões do vazamento — omitidas até há pouco para preservar interesses de investidores em energia nuclear

A dimensão e as consequências do acidente nuclear que atingiu a usina atômica de Fukushima, após o terremoto de sexta-feira passada no nordeste do Japão, começaram a transparecer esta manhã, por meio de dois fatos. O primeiro-ministro Naoto Kan voltou a dirigir-se à população pela TV, e desta vez admitiu contaminação em níveis ainda desconhecidos: “A radiação espalhou-se a partir dos reatores e os níveis parecem altos. Há ainda risco muito grande de novas emissões”, disse ele. Além disso, a Bolsa de Tóquio fechou em queda de 10,6%, refletindo a enorme preocupação dos investidores com as consequências econômicas do desastre atômico.

Até ontem, as autoridades japonesas recusavam-se a admitir o pior: houve ruptura na blindagem de ao menos um dos reatores de Fukushima; persistem os risco de derretimento do reator. A entrevista do engenheiro nuclear norte-americano Arnold Gundersen, que Outras Palavras publica hoje ajuda a enxergar as dimensões que a tragédia já atingiu, e as ameaças ainda existentes. Gundersen acredita que, na melhor hipótese, a área num raio de três quilômetros da usina terá de ser evacuada por cinco anos. Haverá contaminação dos lençóis d’água e da produção de alimentos. Se houver derretimento do reator, as dimensões da catástrofe serão semelhantes às de Chernobyl — a maior tragédia nuclear da história.

Ao omitir a gravidade do drama, continua Gundersen, o governo nipônico age de modo semelhante ao soviético, há 25 anos. Na época, buscava-se preservar a imagem de eficiência do regime; agora, os imensos investimentos estatais e privados do Japão em energia nuclear — responsável por 1/3 da eletricidade gerada num dos maiores consumidores mundiais do insumo.

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