A "nova" tática da mídia para demonizar protestos

Apoiando-se nos “black-blocs” e nos provocadores policiais, jornalões procuram ofuscar reivindicações sociais, associá-las a violência e convocar repressão

Por Mauro Malin no Observatório da Imprensa

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Título e imagem da “Folha de S.Paulo”, em 8/10

Apoiando-se nos “black-blocs” e nos provocadores policiais, jornalões procuram ofuscar reivindicações sociais, associá-las a violência e convocar repressão

Por Mauro Malin no Observatório da Imprensa

Virou rotina a colaboração da mídia jornalística com as polícias militares (leia-se governos estaduais), black blocs e provocadores infiltrados pelas autoridades. Finalidade: esvaziar e/ou manipular passeatas no Rio e em São Paulo.

A demonstração está nas imagens abaixo. Os jornais valorizam a violência de centenas, não a manifestação pacífica de milhares. E, sobretudo, não perguntam por que as polícias militares ou agem violentamente contra manifestantes pacíficos, ou, alternativamente, observam passivamente os agentes da violência até que eles cheguem a extremos.

Começou em São Paulo

Esse padrão foi observado pela PM de São Paulo nas manifestações de junho. No dia 13 de junho houve uma tentativa de esvaziar mediante o uso de violência extrema todo o processo iniciado pelo Movimento Passe Livre. Foi o dia em que uma repórter da TV Folha e um fotógrafo autônomo foram atingidos nos olhos por balas de borracha. Como se disse aqui, tratou-se de ato destinado a sufocar os protestos (“Gás de provocação”).

Depois, as autoridades mudaram de tática. Aparentemente, os comandantes teriam ficado preocupados com a má repercussão da pancadaria e passado a determinar que os policiais assistissem passivamente até mesmo às ações de manifestantes que empregam a violência como arma. Na verdade, deixaram sistematicamente que a situação chegasse a um ponto em que se justificasse o emprego da força (não a ponto de deixar mortos e feridos graves, até aqui).

Contra os professores

Nas recentes manifestações de professores no Rio de Janeiro, a sequência foi idêntica. Na terça-feira (1/10), a PM fluminense partiu para a ignorância, como se dizia antigamente. A constatação é do secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame: “Houve, sim, preliminarmente, excesso dos policiais, mas esse excesso veio também, por vezes, dos dois lados” (noticiário da Agência Brasil, 5/10).

O presidente da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal da OAB, Wadih Damous, declarou: “O que vemos no Rio é uma política de extermínio de manifestantes, pondo em risco a vida das pessoas com o uso indiscriminado de balas de borracha e sprays de pimenta” (Agência Estado, 7/10).  Essa retórica fora de propósito não ajuda a entender as coisas. Damous deve ter se expressado mal, ou não sabe o significado da palavra “extermínio”. Em todo caso, constata-se que a violência policial causou comoção.

Na segunda-feira seguinte (7/10), a PM-RJ passou à segunda modalidade. Deixar acontecer e depois dar combate. Nem o Globo, cujo noticiário segue um padrão de calhordice cada vez mais esmerado, deixou de notar que “a PM reduziu o número de policiais mandados ao local e, desta vez, demorou para reprimir a ação dos mascarados”.

A quem interessa?

Quem chegou mais perto de fazer a pergunta correta (mas não de tentar respondê-la) foi o Dia. Em box no alto da página 5 (“Sepe condena vandalismo no protesto”), reproduz declaração do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro segundo a qual “agentes infiltrados na manifestação iniciaram o vandalismo com a intenção de esvaziar as próximas passeatas”. Um diretor do Sepe, Jalmir Ribeiro, foi mais explícito. Segundo ele, pode ter havido “PMs infiltrados entre os professores e sindicalistas”.

Nenhum dos jornais faz a pergunta óbvia: por que a PM usa esse duplo padrão, do qual no final das contas resulta a mesma coisa, a pressão para esvaziar os protestos? A resposta, que acabará aparecendo em declaração de alguma personalidade política mais independente, é: a PM funciona a serviço da tentativa de evitar prejuízo político e tirar o maior proveito possível para o grupo do governador Sérgio Cabral Filho no xadrez eleitoral de 2014.

E por que a pergunta não é feita? Porque esses veículos são, em grau maior ou menor, aliados políticos de Cabral e do prefeito Eduardo Paes. Aventar as razões dessa aliança ultrapassa os limites deste tópico.

Show de pirotecnia

Eis as imagens das primeiras páginas de terça-feira (8/10). Da manchete do Extra foi copiado o título deste tópico. A imagem da esquerda é do jornal O Estado de S. Paulo. Só o título das fotos está acima da dobra. Foi o único jornal que deu a foto do mascarado em cima de um carro tombado da polícia.

A mídia Ninja também deu, comprazendo-se. Mas seus ativistas não pretendem ter compromisso com a defesa da democracia, tal como entendida pelos constituintes de 1988, que representavam os cidadãos votantes de 1986. Se o carro da democracia capotar, a tarefa do ninja de plantão será fotografar a derrocada. Antes de ser preso e…

Dia destinou a capa inteira às fotos assustadoras.

É uma disputa de sensacionalismo, dentro de uma diretiva de solidariedade política aos governos. Essa mídia jornalística está brincando com fogo. A evolução possível deste cenário, com a imprensa curvada diante da estratégia das polícias militares (de seus chefes políticos), aponta na direção de potenciais prejuízos para as liberdades democráticas. Não falta quem esteja à espera de um momento propício à aceitação popular de restrições ao direito de manifestação. Para dizer o mínimo.

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6 comentários para "A "nova" tática da mídia para demonizar protestos"

  1. Fernando Vagah disse:

    O texto se esmera em desenhar possíveis conluios ou uma comunhão de interesses entre Governos, PM, a franquia blequebloque e grande mídia. Governos estaduais e municipais leia-se as coligações partidárias no poder. Alguns argumentos são razoáveis, outros muito pouco. Mas o curioso é que as outras organizações partidárias, de oposição, nessas interpretações estão apenas muito ajuizadamente conduzindo movimentos sociais legítimos, que apenas reagem aos equívocos dos outros. Nosso amigo, autor da análise, não se pergunta: nas oposições, a quem interessa o clima de radicalização, inclusive com violência? O que tem sido feito para sustentá-lo? Mas o fato é que alguns movimentos ou grupos organizados de militantes dentro desses têm sim radicalizado as suas táticas. E tem apostado deliberadamente na violência. Quem vai nas manifestações e acompanha redes sociais sabe disso. O bloqueio de ruas e a invasão virou coisa comum. Se vc junta 100 pessoas, vc para uma cidade, ocupa uma câmara de vereadores, ou força qualquer perímetro de contenção que possa estar ali na frente A reação da polícia faz parte da tática. É uma repressão que se deseja; que faz parte do show. Algumas organizações partidárias e outras lideranças tem sim interesse em manter o clima de conflito e violência!!! Imaginam que ganham eleitoralmente com isso. Outras são ambíguas em condená-los, preferindo apenas culpabilizar as policias, por todo tipo de excesso e nos portais e blogs no campo da esquerda essa tem sido uma posição muito frequente. É um erro. E o movimento de massa organizado mesmo, como os dos professores, totalmente legitimo, que se deixar envolver por esse tipo de condução, vai perder vitalidade, a menos que precise de vítimas e cenas de sangue para manter uma agenda artificialmente radical – um outro erro. A população sabe exatamente a quantidade de bobagem e de comportamento criminoso de que são capazes as nossas polícias! Mas também não é idiota. E ela sabe o que é baderna e vandalismo, perfeitamente. Ninguém precisa dizer o que é e o que não é. E vai votar contra!

  2. Marta Bellini disse:

    Vejo com graça a ingenuidade daqueles que acham que democracia é feita com fila, crachá e quiça balões. democracia é barulho. É movimento!

  3. Arnaldo Marques disse:

    Para mim é absolutamente intrigante as ações de vandalismos dos mascarados durante manifestações legitimas e pacificas. Quem e o que está por de traz disso? É altamente preocupante. É só observar a atuação em detalhes dos mascarados. É altamente suspeito. Parece que há uma soma de interesses, inclusive de alguns em atos de banditismo. Realmente já começa haver revolta da população contra as manifestações. Será que isso é um dos objetivos dos mascarados? Será que um dia esse mistério será revelado?

  4. Claudio disse:

    Acho que temos que ler de tudo, reler, pensar, conversar, discutir, nunca ver só um lado da história, etc. Censurar ou “regulamentar”( eufemismo usado por governos ditatoriais) a midia , nunca.

  5. Matheus disse:

    O autor fez bem em colocar a “novidade” entre as devidas aspas. Essa estratégia policial-midiática existe há décadas. O registro mais antigo que já pude ver foi a cobertura jornalística dos protestos de 1968 contra a ditadura. Outro exemplo interessante é o “badernaço” de 1986, verdadeiro laboratório de articulação entre tropa de choque, agentes provocadores e oligopólios da mídia. Qual a novidade? O noticiário foca apenas em crimes supostamente cometidos pelos ativistas. Ignora os crimes violentos cometidos pela polícia ao reprimir os movimentos. E mais importante, ignora as motivações sociais profundas da insatisfação e a maneira como as oligarquias lidam com as reivindicações de baixo para cima. É assim: finge-se que está tudo perfeito, que todos os conflitos se reduzem a questões administrativas (tecnicismo), e reduzem assim o confronto político à criminalidade e fingem que as violações cometidas pelos agentes da repressão nunca aconteceram.

  6. F. disse:

    Que texto simplista, com xs manifestantes e com a policia. Ainda estamos pra ver a policia tomar alguma atitude nova, pois so se mostra incapaz de lidar com os atos do Rio. E a violencia por parte de quem esta na rua eh legitima, pois em sua grande maioria eh organizada politicamente e tem como alvo principal o Estado e as corporacoes. So nao ve o carater radicalmente revolucionario disso quem acredita no Estado como possivel agente revolucionario. Palmas aos molotovs, que questionam exatamente um dos cernes do Estado: o monopolio do uso da violencia.

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