Um caminhão de evidências

Maior estudo feito no Brasil sobre hidroxicloroquina repercute no mundo todo ao concluir: substância não tem efeito no tratamento de casos leves e moderados da covid-19

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Saiu ontem outro estudo sobre a hidroxicloroquina, desta vez focado no tratamento dos quadros leves e moderados de covid-19 – exatamente como propala o Ministério da Saúde desde que Pazuello assumiu. A pesquisa, feita no Brasil e publicada no New England Journal of Medicinerepercutiu no mundo todo. Aponta que a hidroxicloroquina, associada ou não ao antibiótico azitromicina, não tem eficácia. E pior: constatou que pode fazer mal, aumentando risco de arritmia cardíaca e lesões no fígado.

Participaram do ensaio clínico 667 pacientes internados em 55 hospitais. Eles foram divididos em três grupos de forma randomizada (por sorteio): 221 pessoas receberam hidroxicloroquina; 217 também receberam o medicamento, mas associado à azitromicina; e 227 foram tratadas com suporte clínico padrão. Os voluntários receberam as medicações por sete dias e foram acompanhados por duas semanas.

“Outros estudos internacionais já mostraram que ela [hidroxicloroquina] não tinha eficácia para casos graves, mas muitos críticos diziam que ela não havia funcionado porque foi administrada muito tarde, quando o paciente já estava em estado grave. Mostramos que, mesmo quando o início do tratamento é precoce e em casos leves, não há eficácia”, destaca Renato Lopes, professor da Unifesp, em entrevista ao Estadão.

Ao divulgar os resultados, o dirigente do Hospital Albert Einstein – que também coordenou o estudo –, rebateu especificamente Jair Bolsonaro. “Foi comprovado que não funciona“, ressaltou Sidney Klajner, em referência à declaração do presidente de que “não tem comprovação científica de que [a cloroquina] seja eficaz [contra a covid], mas também não tem comprovação de que não seja”.

O triste é que Bolsonaro não está só. Além do Conselho Federal de Medicina (CFM) que, lá no início da crise, fez o papelão de entregar nas mãos do presidente o protocolo isentando de processos os profissionais que optassem pela prescrição das substâncias, a Associação Médica Brasileira (AMB) defendeu na semana passada a “liberdade do médico para prescrever da cloroquina para pacientes com covid-19”. A nota da AMB foi uma resposta à outra, de autoria da Sociedade Brasileira de Infectologia, que instava o Ministério a mudar o protocolo e abandonar a indicação da droga.

Vamos refletir sobre essa situação: o CFM é uma autarquia pública que deveria fiscalizar os médicos; mas, neste momento, ao arrepio da ciência, continua liberando geral essa conduta irresponsável. Já a AMB é uma entidade que reúne sociedades de especialistas diversos; mas, na hora em que uma delas se posiciona respaldada nas melhores evidências disponíveis, resolve se contrapor à ciência. Faz algum sentido?

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