Não basta desenvolver e fabricar

Desconfiança pode atrapalhar vacinação em massa – e comunicação não está ajudando muito

Imagem: Ruth Basagoitia

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 22 de julho. Leia a edição inteira.
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Embora uma vacina segura e eficaz contra o novo coronavírus – ou, de preferência, um conjunto delas – seja aquilo que o mundo precisa desesperadamente para pôr fim à pandemia, talvez a aprovação de um imunizante por agências reguladoras não seja suficiente para acabar com os contágios. Já falamos muito aqui sobre os possíveis problemas logísticos envolvendo a produção e a distribuição de bilhões de doses, além da dificuldade de garantir acesso equânime entre países ricos e pobres. Mas a questão pode ser ainda mais complicada. Por mais paradoxal que isso possa ser, ao mesmo tempo em que encurtaria esse estado insuportável em que nos metemos, uma vacina descoberta rápido ‘demais’ poderia levar a um aumento da sua rejeição nas populações.

Há algumas semanas, comentamos uma pesquisa feita pela Associated Press e pela Universidade de Chicago que mostrou que só metade das pessoas nos EUA estariam dispostas a receber um imunizante contra a covid-19. Esta semana, uma pesquisa (ainda sem revisão de pares) feita em Hong Kong aponta que, mesmo entre profissionais da enfermagem, há hesitação. Entre mais de 1,2 mil desses trabalhadores entrevistados, 37% não pretendiam tomar uma futura vacina. E isso porque a pesquisa foi realizada entre março e abril, durante o auge do surto por lá. 

Ontem, no podcast The Daily, do New York Times, a repórter Jan Hoffman comentou o caso específico dos Estados Unidos e disse que há razões muito distintas para o receio. “Eu comecei a ouvir mais e mais pessoas que diziam: ‘Você sabe, eu tomo todas as vacinas, meu calendário está atualizado – mas não vou tomar esta. São pessoas pró-ciência e pró-vacina que estão encolhendo e querendo evitar essa vacina“, diz ela, afirmando que não há um perfil único que defina o grupo antivacina, muito menos no contexto da covid-19. Tem gente que não confia em Donald Trump, por exemplo, e associa qualquer aprovação nesse momento a uma pressão exercida diretamente por ele. A possibilidade de que o presidente se sobreponha ao poder da FDA (a Anvisa americana) também é uma preocupação entre democratas no Congresso.

E tem os processos acelerados da ciência durante a pandemia, o que provavelmente explica a relutância dos enfermeiros de Hong Kong – e deve ser uma inquietação presente noutras partes do mundo. “A maioria das vacinas leva cerca de uma década para ser produzida. Milhões e até bilhões de dólares são investidos em pesquisas que não provam nada. Não temos uma vacina contra o HIV, que está sendo pesquisada há 20, 30 anos. Não há vacina contra o câncer de mama. Então as pessoas pensam: ‘Como você pode ter uma vacina segura e eficaz no mercado em seis meses?’ Isso confunde a mente”.

Mas a comunicação das farmacêuticas e dos veículos jornalísticos também não parece ajudar muito, como nota a reportagem do site Wired. Para ilustrar isso, a jornalista Hilda Bastian fala dos resultados da vacina de Oxford/AstraZeneca divulgados na segunda-feira. A maior parte das reportagens (e a nossa newsletter também) só tratou en passant dos efeitos coleterais descritos, dizendo que não foram relevantes. E isso é o que afirma o comunicado de imprensa da pesquisa, de fato. O artigo original, porém, revela que sim, as reações leves foram muito mais corriqueiras do que as moderadas ou graves, mas essas últimas também foram muito comuns. “Cerca de um terço das pessoas vacinadas com a vacina covid-19 que não tomaram paracetamol tiveram calafrios moderados ou graves, fadiga, dor de cabeça, mal-estar e / ou febre. Quase 10% tiveram febre de pelo menos 38 graus e pouco mais de um quarto desenvolveu dores musculares moderadas ou graves. Em um grupo jovem e saudável de pessoas, isso é muito – e o paracetamol não ajudou na maioria desses problemas”. No caso da vacina da Moderna, que teve alguns resultados publicados na semana passada, todos os voluntários tiveram dor de cabeça, calafrios ou fadiga, e para 80% deles os efeitos interferiam em suas atividades normais. 

Não são efeitos graves o suficiente para evitar que os estudos avancem, nem para que as candidatas à vacina sejam rechaçadas pelo público. Mas, como aponta Bastian, seria preciso ter mais transparência quanto a isso justo porque qualquer deslize nesse sentido se torna um prato cheio para as teorias da conspiração. “Se os jornalistas não começarem a fazer perguntas mais difíceis, isso se tornará a configuração perfeita para mensagens antivacina: ‘eis o que eles esqueceram de dizer sobre os riscos…’ (…) Não ajudará a superar esse ceticismo se evidências notáveis ​​de danos continuarem sendo deixadas para o lado. É muito melhor esclarecer como é realmente tomar uma dessas vacinas. Por que alguém confiaria nos especialistas de outra forma?”, provoca. 

Também é importante explicar que uma vacina não vai oferecer necessariamente 100% de proteção, e seus efeitos positivos precisam ficar claros quando os primeiros resultados da fase 3 aparecerem. É nessa fase, com milhares de voluntários acompanhados por mais tempo, que vamos saber quais candidatas realmente garantem alguma imunidade contra o vírus, e em que medida. Na BBC, um dos coordenadores da pesquisa de Oxford, o brasileiro Pedro Folegatti, fala um pouco sobre isso. “Pode ser que a vacina proteja contra infecção grave, internação hospitalar, internação por UTI, morte, por exemplo. Pode ser que a vacina induza a uma proteção contra os casos mais leves e assintomáticos. Num ponto ideal, a vacina garantiria proteção também nos casos assintomáticos, as pessoas que não têm sintoma nenhum. Isso seria um papel importante com relação à diminuição de transmissão do coronavírus. Mas o que interessa de fato é que as vacinas previnam morte por coronavírus, então essas nuances de quanto a vacina vai funcionar são o que os estudos de eficácia vão começar a nos mostrar nos próximos meses”.

A propósito: três farmacêuticas (Pfizer, MSD e Moderna) anunciaram ontem que, se suas vacinas forem aprovadas, não serão vendidas por preço de custo. Nem mesmo durante a emergência. A Johnson & Johnson e a AstraZeneca concordaram em vender sem lucro, num primeiro momento.

Ensaios no Brasil

Como prometido, a Anvisa deu aval ontem a mais um ensaio clínico com vacinas no Brasil. A aprovação vale para a BNT162b1 e a BNT162b2, ambas desenvolvidas pela gigante Pfizer e pela empresa alemã de biotecnologia BioNTech. Haverá mil voluntários no Brasil, entre São Paulo e Salvador. Eles serão divididos em três grupos (um para cada vacina e um para receber um placebo) e acompanhados por dois anos, mas, segundo a Pfizer, uma aprovação poderia vir entre outubro e novembro. “Aqui nós não estamos falando necessariamente do Brasil, estamos falando mundialmente”, disse a diretora da empresa no Brasil, Márjori Dulcine, citando as agências responsáveis nos EUA e Europa.

Na segunda-feira, a BioNTech e a Pfizer haviam divulgado dados mostrando que a BNT162b1 foi segura e induziu resposta imunológica em um pequeno ensaio, com 60 participantes, em fases 1 e 2. Mas o estudo não passou por revisão de pares. 

A primeira dose da CoronaVac – vacina da farmacêutica chinesa Sinovac – foi aplicada ontem no Hospital das Clínicas de São Paulo. “Trata-se de um orgulho para São Paulo e para o Brasil”, comemorou o governador João Doria (PSDB). Mais ou menos, considerando que os lugares procurados para os ensaios clínicos com vacinas são aqueles onde o vírus ainda domina…

E o ministro da Saúde interino, Eduardo Pazuello, afirmou ontem que o Brasil está negociando com a Moderna uma possível compra com prioridade, mas não deu detalhes. 

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