O sucesso da Psiquiatria livre de remédios

Na Noruega, hospitais constataram: recuperação de esquizofrenia é melhor sem medicação. Apostaram em convívio social, dieta balanceada, contato com a natureza, exercícios físicos e contato próximo entre médicos e pacientes

Por Raquel Torres

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LIVRE DE MEDICAMENTOS

O texto do jornalista Robert Whitaker no site Mad in Brasil é longo, mas vale a leitura. Fala da experiência norueguesa de hospitais psiquiátricos que estão se propondo a cortar ou reduzir drasticamente o uso de medicamentos pelos pacientes. Embora o ministro da Saúde norueguês viesse pedindo essa solução às instituições públicas – o que de fato começou a acontecer três anos atrás –, ela foi levada a cabo primeiro no Centro de Recuperação Hurdalsjøen, um hospital particular perto de Oslo inaugurado em 2015. A ideia nasceu a partir de evidências de que, no longo prazo, a taxa de recuperação para pacientes com esquizofrenia é melhor sem medicação do que com remédios. Alojamentos aconchegantes, convívio social, uma boa dieta em refeições comunitárias, contato com a natureza, exercícios físicos e relações estreitas entre pacientes e profissionais são algumas das características do lugar.

A primeira pessoa que apareceu por lá foi Tonje Finsås, uma mulher com 31 anos e um histórico mais do que complicado: distúrbio alimentar aos oito anos, uso de antidepressivos desde os 11, mais de 200 internações ao longo da vida e uma lista de prescrições de 31 remédios no momento em que chegou ao Centro. Três deles eram antipsicóticos. Com se não bastasse, ela havia passado os três anos anteriores internada em isolamento, vigiada por dois auxiliares e frequentemente contida por camisa de força. Após quatro anos em Hurdalsjøen, ela só toma dois medicamentos, vive sozinha em uma cidadezinha próxima e começou a trabalhar em meio período na instituição, dirigindo a sala de atividades.

Dentre as unidades públicas, a primeiro a criar uma enfermaria sem medicamentos foi o Hospital Asgård, em 2017. Já foram tratados cerca de 50 pacientes – mais de 90% tiveram um diagnóstico psicótico e metade deles não tomou nenhum neuroléptico durante a hospitalização. A maioria não apresentou sintomas psicóticos; outros apresentaram às vezes, mas começaram a encontrar “novas maneiras de lidar com os sintomas” segundo o diretor Magnus Hald. Doses mais baixas também mostraram muitos benefícios: “Essas pessoas têm um sentimento muito forte de ter de volta as suas emoções, e isso também é vivenciado por suas famílias.  Uma mulher nos disse: ‘Pensei ter perdido meu marido há quatro anos e agora ele voltou’”.

Hoje, há no país 56 leitos em 14 hospitais para tratamento sem medicamentos (ou para sua drástica diminuição). E a demanda dos pacientes por esse tipo de cuidado está crescendo.

OUTRO OLHAR

A entrevista com a ex-juíza Maria Lucia Karam é desconfortável para muita gente, inclusive para a repórter Bruna de Lara, do Intercep, que conversou com ela: “Pesquisando violência contra a mulher há quase cinco anos, já ouvi centenas de sobreviventes, como eu, narrarem os horrores a que foram submetidas por agressores”, escreve Bruna – mas Karam, que defende a abolição do punitivismo, dizia que a parte mais frágil dos processos não é a vítima, mas o réu; que a Lei Maria da Penha e a lei do feminicídio são retrocessos; que a punição não ajuda agressores a entender seus erros nem a impedir que os repitam. “Tirada de minha zona de conforto, eu tentava manter em mente que suas palavras, embora difíceis de engolir, abriam caminho para uma discussão necessária”, prossegue a jornalista.

E a ex-juíza explica como e por quê o sistema penal é ineficaz tanto como instrumento de promoção da harmonia social quanto como instrumento de enfrentamento à violência contra a mulher. “Por pior que sejam as condutas cometidas, as pessoas mantêm sua dignidade, pelo simples fato de serem pessoas. Nesse sentido, todas as pessoas são iguais. E o sistema penal é profundamente desigual. É um sistema de poder que recai preferencialmente sobre as pessoas mais vulneráveis e que não serve para promover direitos. (…) A reação punitiva, especialmente por sua visibilidade, força e rigor, tem sempre uma tendência monopolizadora. Ela projeta a falsa ideia de que, com a punição, o problema estaria resolvido, o que joga para um plano secundário outras formas mais eficazes, mas menos imediatistas e visíveis de enfrentar esse problema”, diz.

Ela também rechaça a ideia do poder simbólico da criminalização, que confirmaria que aquela violência não é aceitável, e diz por que considera que as leis do feminicídio e Maria da Penha fracassaram: “Primeiro, [a justificativa era] de que a pena iria dissuadir outras pessoas de praticarem crimes, o que a história do sistema penal, aplicado há mais de 200 anos, mostra que não funcionou. As pessoas não deixaram de cometer crimes. Pelo contrário, a criminalidade se tornou mais ampla. Então essa função de prevenção geral demonstradamente não funcionou. A outra justificativa era a de transformar o autor do crime. Também foi demonstrado que não funciona. A prisão, em geral, torna as pessoas mais desadaptadas ao convívio social. Até porque é uma ideia absurda você ensinar alguém a viver em sociedade tirando essa pessoa da sociedade. Não vai funcionar. O que a pessoa vai aprender é [como] viver na prisão. A prisão não serve para reeducar ninguém”.

LONGO PRAZO

Saíram os resultados do primeiro estudo de longo prazo sobre cigarros eletrônicos, que observou 32 mil adultos que não tinham doenças de pulmão em 2013 e voltou a eles em 2016. Publicada no American Journal of Preventive Medicine, a pesquisa descobriu que os consumidores desses produtos podem ter 30% mais chances de desenvolver uma doença pulmonar crônica como asma ou enfisema. Mas fumantes de cigarro convencional continuam em situação pior: têm 2,5 vezes mais risco do que não-fumantes de desenvolver doença pulmonar.

Aliás… um estudo da Universidade de Michingan com mais de 40 mil alunos do ensino médio indicou que, a cada cinco estudantes, um usou maconha em cigarros eletrônicos ao longo deste ano É praticamente o dobro do número encontrado em 2018.

E pela primeira vez em duas décadas, a OMS estima uma diminuição do uso de cigarro convencional por homens em 2020. Mas o relatório desconsidera justamente o consumo dos eletrônicos, que pode (e parece) estar crescendo.

MÉDICOS PELO BRASIL

A lei que cria o programa foi sancionada ontem por Jair Bolsonaro. Só houve uma mudança em relação ao texto aprovado no Congresso: o presidente vetou a possibilidade de aplicação de exames do Revalida por instituições particulares. Esse era um ponto contestado tanto pelas entidades médicas como por ativistas da Reforma Sanitária, mas defendido pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub. O MEC não quis comentar a decisão de Bolsonaro. “O presidente, escutando a categoria médica e entendendo que isso deve ser dever do estado, decidiu pelo veto no capítulo que diz respeito à validação do diploma por faculdades particulares. A ideia é que as faculdades públicas o façam”, declarou o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta,

O primeiro edital deve sair no primeiro trimestre de 2020. Ainda não está definido quantos médicos irão para cada cidade, mas Mandeta afirma que 13,8 mil devem ir para o Norte e Nordeste. O primeiro nível salarial pode chegar até R$ 31 mil, dependendo do local de trabalho. Mas antes os médicos vão receber uma bolsa líquida de R$ 12 mil. E o Mais Médicos deve se estender ainda por um ou dois anos, inclusive com os cubanos que permaneceram no Brasil, até que o novo programa tenha profissionais suficientes.

A controversa Agência para o Desenvolvimento da Atenção Primária à Saúde (Adaps) ficou mesmo do jeito que saiu do Congresso, e vai definir critérios de seleção, distribuição e formação dos médicos.

SAIU A CARTEIRA

O Ministério da Saúde lançou ontem, enfim, a Carteira de Serviços da Atenção à Saúde, com a lista de serviços que devem ser oferecidos por equipes e unidades da atenção básica. São ao todo 212 tipos de cuidados, como  pré-natal da gestante e de pessoas com diabetes e hipertensão, consulta ginecológica, vacinação e tratamento para parar de fumar. Como já comentamos por aqui, há dúvidas entre especialistas sobre se ela pode restringir a integralidade do SUS, em vez de organizar a atenção.

CHEGA DE CURA

O processo tem sido longo, e ontem o governo alemão concluiu um projeto de lei que proíbe as terapias de cura da homossexualidade, já que isso não é doença e, portanto, não requer cura. Mas a proibição só vai ser total para terapias com menores de idade. Quem tiver mais de 18 anos só vai haver punição caso haja provas de pressões, ameaças ou mentiras. As penas vão de uma multa até um ano de prisão para quem violar a regra. O parlamento deve começar a avaliar o projeto no próximo ano.

ANTES TARDE…

O Papa Francisco promulgou ontem duas novas leis que eliminam o segredo pontifício em casos de violência sexual e abusos de menores e vulneráveis por membros da Igreja. Isso deve agilizar a tramitação das denúncias e seu possível encaminhamento às autoridades civis. As dioceses de cada país vão precisar fornecer toda a documentação sobre os processos e denúncias quando solicitados pela autoridade judicial.

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