O que aconteceu com a Suécia?

País chegou a ter a quinta maior taxa de mortes per capita da Europa, mas casos e óbitos despencaram a partir de julho. Testes sorológicos não indicam imunidade coletiva. O que explica a mudança?

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Um país que tem surpreendido nas últimas semanas é a Suécia. Depois de registrar cerca de seis mil mortes e a quinta maior taxa per capita da Europa, os números de novas infecções despencaram a partir de junho. Houve uma especulação de que a queda poderia se dever às férias escolares, com as crianças finalmente em casa (já que a maior parte das escolas não fechou no primeiro semestre), mas as aulas voltaram e, até agora, nada aconteceu. Na semana passada, pela primeira vez, o país atingiu sua meta de testes, fazendo cerca de 120 mil, mas só 1,3% voltaram positivos. No pico da pandemia, eram 19%. A taxa de mortes é agora uma das menores do continente. Por isso, as autoridades dizem que a estratégia de não fechar nada deu certo, fazendo com que a população se ‘imunizasse’ naturalmente.

Mas dizer que tudo seguiu normal no país seria uma simplificação mentirosa. “A vida tem sido muito diferente, porque temos seguido as recomendações das autoridades (…)  Bem, eles nos recomendaram ficar em casa, trabalhar em casa. Não encontramos amigos ou parentes, especialmente os parentes mais velhos. Ficamos meio isolados, eu diria”, afirma o jornalista sueco Emanuel Karlsten à rádio NPR. De acordo com ele, há no país uma “tradição de confiança nas autoridades” que faz com que a população siga regras mesmo que não haja imposição legal.

De todo modo, ele mesmo parece surpreso com os resultados, especialmente após o verão, quando as pessoas saíram mais de casa: “Não sei se há dados suficientes ainda [para dizer que os planos deram certo]. Acho que teremos que esperar até depois deste outono. Mas tenho acompanhado isso de perto e é estranho porque a doença está … indo embora. Não temos anticorpos suficientes para falar sobre qualquer imunidade de rebanho. Não mantivemos distância durante o verão. Provavelmente, estivemos mais próximos um do outro durante o verão do que em qualquer momento desde março. E ainda assim, a doença não se espalha. Quase parou”. O que já dá para dizer, em sua avaliação, é que o país falhou em proteger os idosos: 90% das pessoas que morreram tinham mais de 70 anos, e grande parte vivia em casas de repouso.

O cientista político Ian Bremmer observa que a estratégia sueca, se de fato tiver funcionado, não poderia ser um modelo facilmente aplicado a outras realidades. Lá, diz ele, há taxas significativamente mais baixas de obesidade, diabetes e hipertensão do que em países como os Estados Unidos, o que certamente influencia as hospitalizações e mortes. Há também muita gente morando sozinha, incluindo idosos, e ainda o maior percentual de pessoas trabalhando em home office na Europa (mesmo antes da pandemia). E, é claro, um sistema de saúde robusto. “Se você quiser o modelo sueco, precisa replicar esses fatores“, diz.

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