Que comam brioches

Arroz é só um dos muitos alimentos básicos que tiveram alta. Cesta básica mais barata no país está em quase R$ 400. Gestão Bolsonaro desmantelou estratégia que poderia baixar preços

Foto: Dionatan Cerqueira

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Nenhuma pauta mobilizou tanto a população esta semana como a alta no preço de alimentos. Depois do flagra de pacotes de cinco quilos de arroz custando R$ 40, o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Sanzovo Neto, ofereceu uma solução simples: “Vamos promover o consumo de massa, macarrão, que é o substituto do arroz”, disse, logo após se reunir com Jair Bolsonaro para discutir a questão. O arroz já acumula alta de 19% este ano; segundo o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), faz um mês que o cereal acumula recordes diários no preço, e a indústria diz que não deve haver quedas

O presidente Bolsonaro tem tentado enviar mensagens aos eleitores e ao mercado. Depois de pedir ‘patriotismo’ dos supermercados para que reduzam seus lucros, ontem ele confirmou que autorizou a notificação feita pelo Ministério da Justiça pedindo a produtores e supermercados explicações sobre os aumento – o que contrariou o baleado ministro Paulo Guedes. Mas ele nega que vá tabelar preços ou intervir neles. “O que tem que valer é lei da oferta e da procura“, cravou ontem.

Não é como se não houvesse arroz disponível no Brasil, mas, com o dólar alto, o agronegócio prefere exportá-lo. Este ano, entre janeiro e agosto, o país mandou para fora1,15 toneladas desse grão, rendendo US$ 407,2 milhões. Desde o começo da pandemia, foi um aumento de 300% nas vendas ao exterior. Mesmo assim, o país poderia produzir mais, é verdade. E produzia: os repórteres d‘O Joio e o Trigo contam que as áreas plantadas de arroz e feijão diminuem a cada ano, ao mesmo tempo em que cai o seu consumo pelas famílias. No caso do arroz, a área cultivada caiu 41% em dez anos.

Embora o arroz tenha se tornado um símbolo, a disparada nos preços vai muito além dele. A inflação oficial do país avançou 2,44% no ano até agora, mas, no grupo da alimentação em domicílio, foram 11,4%. O preço do óleo de soja subiu 18,6%; do leite, 15,3%; do feijão mulatinho, 32,6%. No início do mês, o Dieese verificou aumento da cesta básica em 13 das 17 capitais pesquisadas. A mais cara, em São Paulo, custava R$ 539,95. A  mais barata, a de Aracaju, ficou em R$ 398,47. Desnecessário dizer que a inflação nos alimentos pesa mais para quem ganha menos. Com a redução do auxílio-emergencial para R$ 300, mesmo a cesta básica mais em conta vai consumir todo o benefício e mais um pouco. 

Voltando à matéria d’O Joio e o Trigo, o texto lembra que o governo tem uma forma simples e barata de forçar os preços para baixo, mesmo sem macular a “oferta e a procura”: mantendo estoques de alimentos, que podem ser liberados estrategicamente (aumentando a oferta… e baixando os preços) em momentos como esse. Acontece que o governo Bolsonaro desestruturou os estoques públicos.

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