O dia D e a hora H de Pazuello – primeiro round

General mente para blindar Bolsonaro e diz que deixou Ministério após “missão cumprida” – na época, tinha quase 300 mil mortes nas costas

Foto: Sergio Lima / AFP

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Eduardo Pazuello foi exaustivamente preparado pelo Planalto durante as últimas semanas para blindar Jair Bolsonaro na CPI da Pandemia. Não decepcionou seus treinadores, demonstrando lealdade incondicional ao ex-chefe no depoimento de ontem. Segundo o ex-ministro da Saúde, nada na tragédia brasileira é responsabilidade do presidente. E, tendo deixado o cargo com quase 300 mil mortes de mortes nas costas, ele disse que o motivo de sua exoneração foi o seguinte: estava com a “missão cumprida”

O depoimento mais aguardado da CPI acabou sendo mais morno e arrastado do que se imaginava – e ainda não chegou ao fim. O dia foi quase inteiramente tomado por longas respostas às perguntas do relator Renan Calheiros (MDB-AL), que se absteve de rebater as contradições e mentiras ditas pelo ex-ministro da Saúde. Aliás, há que se pensar no significado de não haver nenhum tipo de sanção às mentiras em série de certas testemunhas.

Pazuello negou várias vezes que Bolsonaro tenha interferido nas decisões do Ministério sobre a pandemia, dizendo inclusive que não havia nenhuma orientação do presidente quanto à necessidade de ampliar o uso de hidroxicloroquina – apesar de dois ministros terem caído antes dele por se recusarem a bendizer o remédio. Negou também que haja qualquer sinal de um “gabinete paralelo” de aconselhamento do presidente, ao contrário do que mostram outras testemunhas até aqui. Até o presidente da Pfizer na América Latina disse que Carlos Bolsonaro participou de uma reunião sobre a compra da vacina, mas o ex-ministro afirmou quase nunca ver nenhum dos filhos do presidente: “Eu esperava que eu pudesse conversar mais com o Flávio, com o Eduardo, com o Carlos. Foi muito pouco encontro, muito pouco encontro. Podia ter havido mais”, chegou a lamentar.

O humilhante episódio em que Jair Bolsonaro desautorizou o Ministério da Saúde na decisão de comprar a CoronaVac foi redesenhado para parecer algo totalmente normal. Segundo Pazuello, Bolsonaro “nunca” mandou que ele desfizesse qualquer acordo com o Instituto Butantan, mesmo que haja vídeos e posts do presidente dizendo textualmente que “minha decisão é a de não adquirir a referida vacina”. A explicação do ex-ministro para isso tudo é que, quando Bolsonaro se manifesta nas redes sociais, o faz apenas como “agente político”, e isso não interfere nas negociações. “Uma postagem na internet não é uma ordem. Uma ordem é uma ordem direta verbal ou por escrito. Nunca foi dada. Nunca!”, declarou.  Como se sabe, porém, na época a relação entre eles chegou a estremecer. Os panos quentes vieram quando Pazuello apareceu abraçado a Bolsonaro (apesar de estar com covid-19) e justificou o ocorrido com uma de suas mais marcantes frases: “Senhores, é simples assim. Um manda e outro obedece”.

Durante o depoimento, Pazuello também disse que sempre, “em todas as situações”, “em todas as entrevistas” e em “todas as nossas ações de comunicação” se posicionou favoravelmente à adoção de medidas preventivas, como uso de máscaras e distanciamento social. Ele, que outro dia foi flagrado em máscara no shopping. E, sem nenhuma sombra de constrangimento, disse que o presidente Bolsonaro provocou aglomerações sem proteção porque “tem outros pensamentos quando está agindo dessa forma”. Para o ex-ministro, ele estaria “tratando também a parte do psicossocial, a parte da posição do povo em acreditar que isso aí vai passar”.

O general disse ainda que o número desproporcional de mortes por covid-19 no país – temos 2,7% da população mundial e 13,7% dos óbitos – se deve a uma capacidade limitada de respostas na atenção hospitalar, que seria impossível de se construir em um ano. De acordo com ele, poderíamos ter uma curva altíssima de infecções com poucas mortes se houvesse, desde antes da pandemia, uma “estrutura de saúde” melhor.

Passou adiante

Quanto à hidroxicloroquina, Pazuello disse “nunca” ter recomendado seu uso, o que é obviamente falso – pouco após a saída do ex-ministro Nelson Teich, e com o general ainda como interino, a pasta publicou orientações para o tratamento precoce que incluem o medicamento. Ele também disse que o Brasil publicou protocolos para uso de cloroquina durante a pandemia de zika –”cloroquina em altas doses – isso para grávidas” –, mas, segundo especialistas ouvidos pelo G1, trata-se de uma mentira. 

Ele também foi obviamente questionado sobre o aplicativo TrateCov, que indicava drogas do kit-covid para pacientes com uma ampla gama de sintomas. Pazuello insistiu que se tratava de um “protótipo”, apesar de ter participado de seu lançamento em Manaus. E responsabilizou sua ex-subordinada, Mayra Pinheiro, por sugerir e alavancar o desenvolvimento da plataforma. A secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde ainda vai ser interrogada pela CPI.

Oxigênio e vacinas

Pazuello confirmou que foi do Ministério da Saúde a decisão de acordar poucas doses de vacinas com a Covax Facility. Disse que “o risco era muito grande”, pois não havia um cronograma garantido e a avaliação era a de que haveria atrasos na entrega. Além disso, ele considerou o preço das doses muito elevado…

Quanto à Pfizer, ele afirmou não ter se reunido com representantes do laboratório porque “ministro não pode receber as empresas”. Mas negou ter ignorado as cartas da Pfizer: de acordo com ele, há “dezenas de documentações” que provam seu ponto. Ainda segundo o general, o TCU (Tribunal de Contas da União), a CGU (Controladoria-Geral da União), a AGU (Advocacia-Geral da União) e “todos os órgãos de controle” recomendaram a não-assinatura do acordo com a Pfizer. O TCU negou a informação. 

Pazuello também foi cobrado por sua (falta de) atuação em uma das maiores catástrofes do país: a crise do oxigênio em Manaus. Suas respostas foram contraditórias. À CPI, ele disse só ter sido informado sobre a insuficiência do insumo no dia 10 de janeiro à noite. Só que ele mesmo já tinha reconhecido, ainda em janeiro, que sabia pelo menos desde o dia 8, e seu secretário-executivo, Élcio Franco, diz que a pasta tomou conhecimento do problema anda na véspera, dia 7. Além disso, um relatório do Ministério assinado por Pazuello no dia 6 apontava risco de iminente colapso do sistema de saúde em Manaus. 

Continua…

No fim da tarde, a sessão foi suspensa por causa da abertura da ordem do dia no Senado. Nesse intervalo Pazuello passou mal. Uma “síndrome vasovagal” por ter ficado muito tempo sentado e nervoso, como diagnosticou o senador Otto Alencar (PSD/BA), que lhe prestou atendimento. Ele avaliou que o general melhorou rapidamente e poderia voltar à sessão. O presidente Omar Azis, no entanto, decidiu suspendê-la até hoje – ainda havia 23 senadores inscritos, cada um com 15 minutos para falar. No fim, Pazuello saiu dizendo a repórteres que não tinha passado mal: “Não aconteceu nada”. Otto Alencar retrucou: “Até em problema de doença ele nega. Ele negou tanto na CPI que agora decidiu mentir até sobre o seu estado de saúde“. 

A base governista, que estava apreensiva com o depoimento, comemorou a postura de Pazuello, firme na defesa de Bolsonaro. Mas a saga continua hoje. Agora é ver se os senadores restantes vão se animar a colocar mais pressão sobre o ex-ministro. 

Em tempo: mais tarde, às 18h, as duas editoras do Outra Saúde vão comentar a CPI em uma transmissão ao vivo com o médico Aristóteles Cardona, que apresenta o podcast Medicina em Debate.Vai ser no nosso perfil no instagram

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