Entre o sucesso e o descaso

Os casos de malária só crescem: instabilidade da política de saúde e de preservação ambiental são a razão. Leia também: Ebola volta a assombrar a África; fraude no Revalida; Mandetta, o ministro de mil palavras; e muito mais

ENTRE O SUCESSO E O DESCASO

“Há lugares de difícil acesso, mas o SUS é para essas pessoas também, então vamos lá atendê-las”. A frase é da bióloga Muana Araújo, que coordena a vigilância epidemiológica no município de Cruzeiro do Sul (AC), que até 2017 era o campeão em casos de malária no país. Uma parte fundamental do esforço de controle da doença na região amazônica consiste em agir rápido: diagnosticar e medicar para, assim, quebrar a cadeia de transmissão da doença.

Um perfil da Piauí sobre a pesquisadora Márcia Castro, que se debruça sobre os padrões de transmissão da doença desde a década de 1990, acaba por revelar a grandeza e a fragilidade das políticas públicas. O país vinha registrando uma queda significativa no número de casos – em 2005, foram 606 mil; em 2016, o número havia caído para 129 mil, um recorde desde a década de 1970. Em 2015, o Brasil recebeu até um prêmio da Opas e o Ministério da Saúde lançou um plano de erradicação da forma mais grave da doença, causada pelo Plasmodium falciparum. Dentre os acertos, estavam a vigilância constante na ponta, feita por profissionais que tentam dar conta de uma população dispersa e empobrecida, mas também a articulação do programa em Brasília. E, não menos importante, a redução do desmatamento na Amazônia, que caiu 83% entre 2004 e 2014.

Mas em 2016, o programa de controle da malária foi fundido com o que cuida da dengue, chikungunya e zika. E diante da crise provocada por estas duas últimas, a malária perdeu lugar na lista de prioridades. Em 2017, o número de casos voltou a crescer – 194 mil – tendência que deve se confirmar em 2018, pois entre janeiro e novembro foram registrados 179 mil, um aumento 1,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. O desmatamento também voltou a crescer, com aumento de 48% entre agosto de 2017 e julho de 2018. Por fim, contam os pesquisadores, o país precisa enfrentar outro desafio: a resistência aos medicamentos usados contra o falciparum, problema que vem sendo registrado em outros países da América Latina.

DECLARAÇÕES MIL

A nota técnica sobre as mudanças na Política Nacional de Saúde Mental e na Política Nacional sobre Drogas poderá ser revista. A informação aparece em resposta à repercussão negativa de práticas legitimadas pelo documento, como a eletroconvulsoterapia e a internação de crianças.

Há uma aura de confusão nas declarações de Luiz Henrique Mandetta. À Folha, ele afirmou sobre a eletroconvulsoterapia que não se pode “ideologizar essas discussões”. Dois pesquisadores ouvidos pela reportagem apontam para o histórico negativo do uso dessa terapia no Brasil e, consequentemente, a necessidade de forte regulação e fiscalização. “Se existe essa técnica e ela tem indicações, não posso proibir. Há procedimentos que talvez choquem muito mais se eu começar a ideologizar a história”, disse, sem dar detalhes (mas nosso palpite é que ele se refere à redução de danos).  Já ao Estadão, o ministro teria dito que o processo de desospitalização no país foi importante, mas também teria sinalizado no sentido da internação no caso do tratamento de “dependentes químicos”. Haveria, segundo o ministro, um problema típico da “época pré-SUS”: após passar por um período de desintoxicação em hospital geral, o paciente com dinheiro seguiria para clínicas privadas e o sem recursos financeiros precisara contar ‘só’ com os Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS. 

Mas eis que a trama se complica. Mandetta parece não concordar 100% com as comunidades terapêuticas, que tem sido “a” estratégia dos dois últimos governos para lidar com o assunto. “Precisamos debater. O governo não é dono da verdade. Não é ditadura da saúde. Vamos ter de conversar com pesquisadores, com sociedades de especialistas para saber as alternativas”.

VAI, NÃO VAI; VAI

O porta-voz do governo, Otávio do Rêgo Barros, anunciou ontem que Mandetta participaria, nos Estados Unidos, de um evento promovido por Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente da Venezuela em janeiro. A assessoria de imprensa da pasta negou. Mas disse que o secretário de vigilância em saúde, Wanderson Kleber, vai à 1ª Conferência Humanitária do Governo Interino da Venezuela. O evento, segundo Guaidó, tem o objetivo de “aliviar o sofrimento dos venezuelanos que padecem com a falta de alimentos e remédios causada pelo regime de Maduro”. 

REVALIDA

Ontem, o Inep (autarquia do MEC) informou que há suspeitas de fraude no Revalida. O órgão acionou a Polícia Federal e determinou que 46 médicos refaçam a prova em 10 de março. O problema aconteceu no exame de habilidades clínicas, aplicado nos dias 17 e 18 de novembro, pelo Cebraspe, entidade contratada para realizar essa etapa do Revalida. Segundo o Inep, os custos da reaplicação ficarão a cargo do Cebraspe. As notas dos demais participantes (96% do total) serão divulgadas hoje.

BARIÁTRICA

A Terceira Turma do STJ decidiu que os planos de saúde devem cobrir o custo de operações plásticas reparadoras para retirada do excesso de pele decorrente da cirurgia bariátrica. A decisão confirma outra, dada na segunda instância, e passa a valer para todo o país. O caso que gerou a decisão foi um processo contra a seguradora Sul América.

ALTA

O presidente Jair Bolsonaro recebeu aval da equipe médica para sair do hospital amanhã.

EBOLA

Um total de 97 crianças já morreram vítimas do surto de ebola na República Democrática do Congo, que começou em agosto do ano passado. E o cenário está piorando: em janeiro, o número de casos da doença dobrou em relação ao mês anterior, chegando a 40 novos por semana. O surto já é considerado o segundo mais mortal e também o segundo mais longo jamais registrado. Foram registrados 806 casos, segundo boletim do Ministério da Saúde divulgado no sábado. Destes, 745 foram confirmados. E 505 tiveram a morte como desfecho.

REVOLTA PELA VACINA

As crianças cresceram. E elas querem ser vacinadas. Reportagem do Quartzconta histórias de jovens cujos pais não imunizaram os filhos contra sarampo, rubéola, catapora e até pólio… E, à medida em que vão chegando à adolescência e entrando em contato com a batalha em curso entre evidências e pseudociência, optam pela primeira. Eles estão em fóruns de discussão na internet, buscam informações em artigos científicos e abriram um debate legal sobre se podem ou não tomar a decisão por si mesmos. É que nos EUA não há uma lei nacional regulando se jovens podem tomar a decisão de se vacinar por si mesmos, e isso varia de estado para estado. Em alguns, certas vacinas estão liberadas, outras não. Uma grande confusão. 

CRISE NAS FILIPINAS

Nas Filipinas, o surto de sarampo já causou 70 mortes; 79% das vítimas não eram vacinadas contra a doença. Segundo o governo, foram registrados em janeiro 4.302 casos, um aumento de 122% em relação ao ano passado. De acordo com um relatório da OMS, o país reportou mais de 20 mil casos em 2018, aumento de 500% em relação a 2017. Segundo o Guardian, um fator importante da crise foi a repercussão do escândalo da vacina contra a dengue. As Filipinas compraram a imunização Dengvaxia, da Sanofi, que se provou perigosa, ao expor que se imunizou a quadros mais graves da doença. Isso teria dado força à onda antivacinação.

DENGUE CONTRA ZIKA

Durante o surto de zika que ocorreu no período entre 2015 e 2016, pessoas que possuíam os anticorpos contra a dengue tiveram menor probabilidade de ser infectadas pela nova doença. Os vírus compartilham semelhanças genéticas e, até agora, não havia certeza se o efeito poderia ser o contrário: uma imunidade menor para zika entre quem tivesse tido dengue. A descoberta de pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia foi publicadana prestigiosa revista Science. O estudo também conclui que a pandemia de zika criou altos índices gerais de imunidade a esse vírus nas Américas, o que deve servir de barreira contra novos surtos nos próximos anos. 

MORTE PRECOCE

Para cada aumento de 10% na quantidade de comida ultraprocessada consumida, o risco de morte precoce sobe 14%. A conclusão é de um estudo publicado ontem no JAMA que acompanhou 44.551 adultos franceses acima dos 45 por um período de dois anos. Os participantes informaram registros de suas dietas e responderam a questionários com informações sobre sua saúde, atividades físicas, etc. A partir daí os pesquisadores calcularam o consumo de ultraprocessados, concluindo que, em média, eles representaram 14% do total de alimentos consumidos e forneceram 29% das calorias. E traçaram o perfil de quem está mais propenso a consumir essas comidas: pessoas mais jovens, com menor renda e escolaridade, que moram sozinhas, têm índice alto de massa corporal e que quase não pratiquem atividades físicas.

VIBRADOR

Você sabia que um decreto de 2009 prevê multa de até R$ 1 mil para quem tentar entrar no Brasil com um vibrador? O aparelho está completando 150 anos, mais ainda é tabu. Suas origens são controversas, mas a história mais conhecida é de que foi criado pelo médico George Taylor que, assim como seus colegas, tratava pacientes com sintomas de ansiedade, dores de cabeça e irritabilidade (que recebiam, naquela época, o já abolido diagnóstico de “histeria”). A elas, era recomendado que praticassem o “paroxismo histérico”. Em suma, que gozassem. Antes, os próprios médicos ficavam encarregados das massagens íntimas. O aparelho veio para facilitar essa ‘intervenção’.

AGENDA

O 4º Fórum Brasileiro de Direitos Humanos e Saúde Mental acontece de 20 a 22 de junho em Salvador. O evento é realizado pela Associação Brasileira de Saúde Mental, a Abrasme. Há desconto para quem se inscrever até 28 de fevereiro.

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