Uma das melhores maternidades do país em apuros

In Reportagens

A prefeitura de Belo Horizonte quer assumir gestão do Hospital Sofia Feldman, mas profissionais afirmam que medida ameaça parto humanizado

Por Larissa Costa, no Brasil de Fato

01 de março de 2018

O Hospital Sofia Feldman, maior maternidade do Brasil, localizado em Belo Horizonte – e referência mundial em atendimento humanizado – vive uma crise financeira desde 2015. No início deste mês, leitos foram fechados e trabalhadores iniciaram uma greve por pagamento de salários, atrasados desde dezembro.

Os funcionários de nível superior receberam apenas 70% do pagamento de dezembro e o de janeiro ainda não foi pago. Os profissionais de nível médio receberam somente 60% do salário de janeiro. Nenhum trabalhador, até o momento, recebeu o 13°. O principal problema alegado pela gestão do hospital é que os recursos recebidos pelo Sofia são insuficientes para cobrir as despesas.

Atualmente, existe um déficit mensal de R$ 1,5 milhão no hospital. Por mês, o Sofia recebe cerca de R$ 5 milhões, mas gasta R$ 6,5 milhões, problema chamado subfinanciamento. “A situação está muito difícil, porque a receita está congelada e a despesa está certa, tem reajuste de salário e aumento dos insumos. Não tem um equilíbrio nas contas”, comenta Ramon de Almeida Duarte, diretor financeiro do Hospital. Dados do Conselho Estadual de Saúde apontam que a receita é totalmente proveniente de recursos públicos, dos governos estadual e federal.

Como forma de solucionar o problema, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) se ofereceu para assumir a gestão, o que tem sido criticado por profissionais da saúde pública. De acordo com a assessoria de comunicação da Secretaria Municipal de Saúde, a proposta é que seja indicado um diretor para analisar os gastos e reorganizar o orçamento.

No entanto, a PBH ainda não formalizou a proposta, nem para o hospital e nem para a população. Isso seria feito em reunião, nesta terça (27), junto ao Conselho Curador do Sofia, mas foi cancelada devido à ausência de representantes da PBH. “Seja qual for a proposta, ela vai ter que passar nos Conselhos Municipal e Estadual de Saúde. A gestão do SUS prevê a participação popular e os conselhos são os espaços para isso”, afirma o presidente do Conselho Municipal de Saúde (CMS) de Belo Horizonte, Bruno Pedralva.

Para a médica do Sistema Único de Saúde (SUS) Sônia Lansky, essa intenção de intervenção da PBH é “autoritária, sem debate e sem a participação da sociedade”. Além disso, a médica afirma que não existe um problema de gestão, mas de falta de recurso. “A gestão do Sofia é única, porque está fazendo milagre com esse recurso. São mil partos por mês, 60 leitos de unidades neonatal e tudo com uma assistência humanizada aos trabalhadores, às mulheres e às crianças. Além disso, a maternidade faz prestação de serviços inovadores, com iniciativas que foram incorporadas a políticas públicas”, afirma.

Em nota redigida após uma plenária de mulheres, que aconteceu na terça (20), o CMS aponta que o Sofia “faz três vezes mais com três vezes menos recursos”, quando comparado com a segunda maior maternidade da capital, onde cada parto sai a quase R$ 19 mil. No Sofia, o parto custa R$ 5 mil, conforme informações do Conselho.

Ameaça ao método

André Lanza, residente de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Sofia Feldman, discute que a intervenção da PBH na gestão do hospital pode ser uma ameaça ao método de humanização do parto.

“O grande receio do corpo clínico do hospital, da comunidade que é assistida e dos grupos de mulheres é que isso seja um pretexto para mudar a filosofia do hospital, com perdas de direitos tanto para as mulheres quanto direitos trabalhistas”, afirma o profissional, que também faz parte da Rede de Médicos e Médicas Populares.

O atendimento no Sofia é diferenciado porque garante a dignidade das mulheres gestantes e possui enfermeiras obstétricas com autonomia na condução de trabalhos de partos de baixo risco. Para André, o modelo humanizado do parto resiste ao Conselho Regional de Medicina (CRM), às corporações médicas e à indústria farmacêutica. “O Secretário de Saúde é médico e sempre foi ligado ao CRM. Ele possui muitas críticas ao modelo do Sofia”, afirma.

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