Mas… não era uma ditadura?

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Multidão participa de comício chavista, semanas antes das eleições. Entusiasmo não basta: apesar de manter conquistas históricas, “governo não mostrou resultados contra corrupção, violência, negócio da importação de alimentos, controle das fraudes cambiais, empregos para as classes médias e inflação”

Vitória da oposição nas eleições parlamentares da Venezuela desmente discurso das elites latino-americanas. É hora de o chavismo examinar seus erros e de conservadores decidirem se aceitam democracia

Por Juan Carlos Monedero | Tradução: Inês Castilho

Primeira reflexão evidente: se a Venezuela é uma ditadura, como é possível que a oposição tenha ganho? Todos os que
têm questionado a democracia venezuelana deveriam hoje desculpar-se (É retórica: nunca o farão. Os que creem que o poder lhes pertence por família e dinheiro acreditam ter direito permanente de enganar).

O presidente Maduro reconheceu imediatamente o resultado. Como deve ser. A oposição, invariavelmente, desconheceu todos os resultados eleitorais em que perdeu, desde 1998, a primeira vitória de Hugo Chávez. Algumas vezes em bloco, outras dividida. Os menos leais à Constituição sempre foram Leopoldo López e María Corina Machado, atitude essa que não foi seguida por Henrique Capriles, o qual sempre optou pela via eleitoral. A Venezuela esteve à altura: eleições limpas e reconhecimento dos resultados sem nenhuma dúvida. Oxalá fosse assim no México ou nos Estados Unidos.

É igualmente evidente que a economia cobrou um preço ao governo de Maduro. É injusto que uma crise que não foi gerada pelo continente sul-americano – recordemos que nasceu da quebra do Lehmann Brothers, nos Estados Unidos – esteja sendo paga como se fosse de responsabilidade da região. A queda dos preços do petróleo é um golpe difícil de assimilar, ainda mais quando a crise é usada pela oposição para golpear o governo com formas sofisticadas de “guerra econômica” (pressões para romper com a OPEP e manter baixos os preços do petróleo, acumulação de bens, aumento intencional dos preços, fraude no cambio do dólar, contrabando, guerra psicológica alimentada pelos meios de comunicação, sabotagens).

Há cenários, na luta política venezuelana, que recordam muito o cenário anterior a setembro de 1973, que preparava o golpe contra Salvador Allende. Esperemos que a comunidade internacional esteja atenta diante de qualquer tentativa espúria de ganhar fora das urnas o que se deve ganhar nas urnas.

Finalmente, é evidente que o governo de Maduro tem, igualmente, sua responsabilidade. O golpe representado pela perda de Chávez não foi menor. Os equilíbrios que o ex-presidente havia construído não foram herdados por Maduro. Exigem mais tempo. E a oposição, consciente dessa debilidade, não deixou de fustigar, nestes três últimos anos. O presidente Maduro, por sua vez, não teve êxito na hora de recuperar, entre a população venezuelana, as conquistas dos últimos 17 anos.

Aconteceu na Europa quando a classe trabalhadora, convertida em classe média, terminou votando em Margaret Thatcher. É verdade que inclusive a oposição venezuelana reivindicou a herança de Chávez, como se fosse um valor próprio, mas era mera propaganda. Não é muito crível, vindo de quem sempre lhe fez oposição (vejamos o que vai começar a acontecer na Argentina). Se o povo não entendeu, a responsabilidade é do governo e das pessoas que têm consciência. Se a propaganda da oposição é boa, é obrigação do governo desmascará-la. Não souberam fazê-lo. Da mesma forma, o governo não mostrou bons resultados – em que pesem os grandes avanços dos últimos meses – na luta contra a corrupção, a violência, o negócio da importação de alimentos, o controle das fraudes cambiais, os empregos para as classes médias e a inflação. Ainda que tudo isso faça parte da guerra econômica, se você não triunfa, está derrotado. E isso é o que as urnas expressaram.

TEXTO-MEIO

Agora é o momento de discutir conjuntamente, governo e oposição, as necessidades da Venezuela. Das maiorias. Das pessoas. Assim como o presidente Maduro aceitou o resultado da eleições parlamentares, a oposição deve assumir que o presidente constitucional da Venezuela é Maduro, e deve respeitar as eleições presidenciais que lhe outorgam o mandato. A partir desse duplo reconhecimento, devem começar as negociações sobre as soluções reclamadas pelo país. Seria um erro da oposição repetir o que se fez depois do golpe contra Chávez em 2002: começar a desmantelar a institucionalidade vigente. Algumas análises de líderes da oposição apontam nessa direção – mudar, no caso da maioria parlamentar permitir, todos os cargos possíveis, construindo um “dique” opositor ao governo de Maduro. Algumas pessoas parece que nunca aprendem.

Com urgência, essas soluções compartilhadas passam pelo aumento do preço da gasolina, repensar o gasto público, luta contra a corrupção, perseguir o açambarcamento e a subida artificial de preços (sobre isso, a oposição pode dialogar com os empresários importadores, principais responsáveis por esse problema), regulação radical do controle do cambio (a oposição deve pressionar onde o governo, sozinho, não foi capaz) e a implementação de uma base produtiva que se emancipe da renda do petróleo. Sobre esses assuntos, governo e oposição deveriam encontrar acordos firmes. E isso será possível se a oposição escutar as necessidades da Venezuela, não as demandas dos Estados Unidos nem das empresas estrangeiras que procuram voltar a fazer do país caribenho um porto para as novas práticas piratas. É um bom momento para ver se, finalmente, a direita venezuelana está disposta a apostar em seu país.

 

TEXTO-FIM
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Juan Carlos Monedero

Juan Carlos Monedero é escritor espanhol, professor de Ciência Política na "Universidad Complutense de Madrid".

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