Hebe: contra o poder, a irreverência rebelde

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Depois de driblar prisão, líder das Madres teoriza: “O sistema não nos assimila: é preciso atirar-lhe um pouquinho de soda cáustica. A soda é o povo na rua”

Por Hebe de Bonafini, entrevistada por Nora Vieras, em Pagina12 | Tradução: Inês Castilho

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Depois de Hebe Bonafini entregar ao juiz Martinez de Giorgi um documento explicando por que não prestaria depoimento no processo em que fora indiciada (conheça o caso), as Madres o espalharam na mídia, no governo, nas embaixadas. “Recebi oferta de asilo de dois países”, comentava Hebe de Bonafini, ao descartar qualquer alternativa que a tirasse de sua vida normal: “Amanhã (hoje) vou a Mar del Plata em um congresso de comunicação, um tema sobre o qual as Madres sabemos muito”.

TEXTO-MEIO

Fez uma pausa nas saudações e conversou com Página/12.

Imaginou que iria viver o que se viveu?
Pensei que seria um dia para mudar coisas. Quando à noite escrevi o que escrevi pensei que ao menos algumas pessoas iriam pensar diferente, que é possível agir de outra maneira.

Quando você diz “mudar coisas”, está falando de rebelião. Diante da citação do juiz, o normal é comparecer e você diz “não necessariamente”. Acha que o sistema pode assimilar isso?

O sistema não assimila, é preciso atirar-lhe um pouquinho de soda cáustica, para dissolvê-lo. A soda cáustica vem a ser o povo na rua.

Hoje, o povo diluiu muitas ideias e abriu muitas cabeças. Dão-se conta de que é possível pensar. Um juiz não é Deus, deixaram esses juizes acreditar que podem fazer qualquer coisa. Passam quinze anos de um crime e não condenam ninguém. Ao presidente Macri, ninguém pergunta o que fez com o dinheiro, o que roubou – enquanto perseguem Cristina Kirchner.

Foi presa muitas vezes?
Nem bem haviam levado meu filho quando me detiveram pela primeira vez em La Plata, porque eu exigia que recebessem um habeas corpus. Em 77, o juiz Ruso me deteve porque gritei com ele e o insultei. Levaram-me num ônibus grande, esses azuis, me detiveram por um tempo e me soltaram. Depois, fui presa na Delegacia 5, onde estava meu filho. Mais tarde, muitas vezes na praça [de Mayo]. Nos colocavam em celas diferentes e não nos deixavam falar com ninguém. Eu levava uma câmera fotográfica na barriga, tirava fotos no banheiro das delegacias. Pedia para ir ao banheiro e era o único lugar onde podia tirar fotos, na cela não podia porque os milicos me tirariam a câmera. Elas estão num álbum e todos me perguntam, o que são estes vasos sanitários?

Após a ditadura, alguma vez te detiveram?
Na democracia, na época do [presidente] Raul Alfonsín foi muito duro quando picharam nossas casas, “Mães terroristas”. Me quebraram toda a frente de casa. Uma noite, eu vivia só em City Bell e senti pancadas no teto. Haviam atirado um sapo com latas amarradas nas patas para me assustar. Tentaram nos matar duas vezes, atiraram o carro em cima de nós, torturaram minha filha. Invadiram minha casa várias vezes. Nunca denunciei, porque o capitalismo iguala tudo. Nos jornais diriam: tiraram-lhe isso, aquilo e também dois filhos.

Você disse que pelo processo contra a organização Sueños Compartidos já invadiram duas vezes a sede das Madres.
O ex-juiz Norberto Oyarbide invadiu e nunca fizeram nada. Encontrei-me com o juiz Martínez de Giorgi, na companhia de outra pessoa, e disse-lhe que ele não nos escutava porque só se submetia ao dinheiro que Schoklender colocava-lhe sobre a mesa. Ele interpelou: “A senhora está me denunciando?” Respondi: “Tome como quiser.” Fui dizer-lhe um montão de coisas, ele tem toda a documentação, com sessenta caixas, ninguém se importa. Nem olham pra elas. Em vez de interrogar quem deve ser investigado, intima as velhas.

Quem ele deveria interrogar?
Ele devolveu a Schocklender o que este havia pago como fiança, para livrar-se da prisão. E a nós, bloqueia o fideicomosio, o que não poderia fazer.

Como anda este caso?
Gostaria muito de ser xamã, porque os xamãs verdadeiros sabem coisas – mas não sou. Acho que depende muito de como [o presidente] Macri entrou na história, como o mundo reagiu. Se nos prenderem, é porque os americanos pediram. Ele [o juiz Martinez de Giorgi] não tem ideias próprias. Quis mostrar-lhe que é possível fazer outras coisas. Não é assim, eles te intimam e você tem de ir, depor todas as vezes, não importa para quê. Fiz diferente. Disse tudo o que me ocorreu e ocorre. Podemos fazer isso sozinhas, não precisamos do texto de um advogado. Isso também os perturba, o texto de uma mulher que quase não foi à escola. Parece que nós, os pobres, não podemos ter ideias, lucidez para romper com os esquemas deles. Isso é romper com o esquema do capitalismo. Quando eu disse na Corte Suprema que eram uns turros [torpes], incomodaram-se todos. Adorei chamá-los de turros.

TEXTO-FIM
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Inês Castilho

Jornalista, cineasta e pesquisadora, integra o corpo editorial de Outras Palavras, foi editora do jornal Mulherio, realizadora dos filmes de curta-metragem "Mulheres da Boca" e "Histerias" e cofundadora do Nós Mulheres, primeiro jornal feminista de São Paulo.