Frente Ampla ou Frente Antifascista?

De Ciro, Boulos, Manuela e Haddad; a FHC e Sarney – todos (exceto Lula) prometem estar, esta noite, no ato virtual Direitos Já, contra Bolsonaro. Por que ele é importante. Quais são seus limites

Soldados soviéticos e norte-americanos, combatentes do nazismo, encontram-se em 1945, em ponte sobre o rio Elba, na Alemanha. Seus países defendiam projetos opostos; mas a luta contra Hitler os uniu em batalhas sem as quais o mundo seria bem pior

I.

Deixar de combater o fascismo do século XXI, em nome de atitudes do passado ou diferenças no presente, é um erro grosseiro. Onde o ultra-capitalismo (tradicionalmente liberal) uniu-se à ultradireita, este bloco incomum chegou rapidamente ao poder, produz imensa devastação e faz a luta política retroceder muitos passos. É o caso do Brasil, Estados Unidos, Argentina, Inglaterra, Chile, Colômbia, para ficar nos exemplos mais conhecidos e analisáveis. As razões desta força começam a ficar claras. O sistema político estava previamente corrompido e desacreditado, pelo esvaziamento da democracia (já que as decisões centrais foram transferidas aos “mercados”) e pela percepção de que as instituições produzem cada vez mais desigualdade e privilégios. As velhas formas de luta e organização dos trabalhadores (sindicatos, partidos), esvaziaram-se, sem que tenham ainda amadurecido outras, que as substituam. A coalizão (neo)fascista cria um amálgama perigosíssimo, porque combina o ressentimento de massas empobrecidas com imensa força econômica. Esta é capaz de influir nos Parlamentos, no Judiciário, na mídia, mas consegue em muitos casos fazê-lo de modo encoberto, porque usa, como biombo, o ódio das multidões à “velha política”.

Uma vez instalado, este bloco torna-se difícil de remover, porque conta com a divisão dos adversários e aprendeu a explorá-la com habilidade. A degradação do ambiente político e o retrocesso das agendas nacionais, após sua vitória, é abrupta. Basta comparar a situação brasileira, ou norte-americana, como a de Portugal, Espanha, Alemanha, França ou Itália, por exemplo, onde a coalizão (neo)fascista não se conformou. Basta lembrar que, no mesmo momento em que a Espanha cria uma Renda Básica permanente, de até 1.015 euros mensais, no Brasil debate-se para desmontar células ultradireitistas que pregam a eliminação física dos adversários. Vencer o bloco exige criar soluções surpreendentes e abandonar o egocentrismo tão típico da política institucional. Foi o que fez Cristina Kirchner na Argentina em 2019.

II.

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Nas últimas semanas, o amálgama (neo)fascista que levou Bolsonaro ao poder e o sustenta começou a trincar. Esta rachadura é ainda inicial: a oligarquia financeira segue, em peso, com Paulo Guedes e seu capitão. Mas duas dissidências, em especial, enfraquecem a avalanche bolsonarista: a da Rede Globo, que carrega consigo a maior parte da velha mídia; e a de vastos setores do Judiciário, em especial após a queda de Sérgio Moro. Foram perdas graves, para o governo. O fato de a Globo voltar a fazer jornalismo (ainda que limitado a certos assuntos…), e deixar de acobertar os crimes do presidente e sua família, corrói lenta, mas persistentemente, o apoio popular a Bolsonaro. Inquéritos no STF, TSE e na Justiça do Rio estão expondo as entranhas das milícias digitais e os grupos extremistas armados. Surgiu a hipótese clara – embora não imediata – de que se apurem, em qualquer destes inquéritos, fatos que amarrem ainda mais as mãos do governo ou, ainda melhor, o tornem insustentável.

O desgaste do governo abriu frestas para ações variadas. Nas ruas, mesmo em meio à pandemia, entraram em ação as torcidas antifascistas do futebol. Seus protestos, bem maiores que o das legiões ultradireitistas, tiraram um trunfo importantíssimo do governo, ao inviabilizar a narrativa do presidente, que dizia ser o único político com coragem de se encontrar com as multidões. Já entre setores da intelectualidade, dos artistas, dos influenciadores digitais, da classe média e de partidos políticos antes ligados ao bolsonarismo, surgiram primeiro manifestos, e agora atos públicos virtuais em defesa da democracia, dos direitos humanos – e, portanto, contra o governo.

O fato de Lula ter se voltado contra estas iniciativas não revela apenas incoerência – justamente de quem, em oito anos de governo, firmou alianças com todo o espectro político (inclusive os aliados da ditadura de 1964). O gesto expõe, mais do que isso, um ex-presidente que nada compreendeu sobre os riscos do novo cenário político; que se recusa a atuar nas circunstâncias do presente, porque sonha com a volta de um passado em que era o centro inconteste dos debates e articulações; e que, mais do que isso, age para inviabilizar ações capazes de despertar novos protagonismos. Estes desejos mórbidos precisam ser atropelados, até para que o personagem tenha chances de voltar à antiga forma política e psíquica – que muito contribuiu para o país..

III.

Mas é possível – pergunta-se – lutar contra o (neo)fascismo ao lado de quem há pouco promovia a Operação Lava Jato; ou de quem, ainda ontem, aprovou a lei que facilita a privatização das águas brasileiras?

Sim, é possível! Porque não se trata, ao contrário do que pensam alguns, de formar uma Frente Ampla como as que existem no Uruguai ou no Chile; de tentar costurar um programa único entre quem tem visões opostas sobre os rumos do Brasil. Trata-se de afastar a ameaça comum do neofascismo. Em torno deste objetivo, é possível unir uma vasta maioria da população – e setores políticos com propostas de longo prazo opostas.

É um casamento provisório e de conveniências – mas pode ser construído com algum amor sincero. Aos milhões de brasileiros que vislumbram um futuro pós-capitalista, pós-patriarcal e pós-colonial, é essencial frear a ameaça bolsonarista. É a chance que temos de evitar a ditadura, a criminalização da dissidência e seus horrores. Mas os políticos de centro, e mesmo de direita não-fascista, também precisam livrar-se do capitão. Que espaço haverá para um Dória, um Rodrigo Maia – ou mesmo um Sérgio Moro, um Alexandre Frota e uma Joyce Hasselman, enquanto a máquina de massacrar divergência do atual regime perdurar?

IV.

Ninguém sai de um acordo político (ou de um casamento) como entrou. Será instrutivo assistir às falas de hoje. Que papel poderão fazer figuras como Boulos, Manuela, Ciro, Flávio Dino ou Haddad – na companhia de políticos como Sarney e FHC? Não estarão em pauta as divergências programáticas: o debate sobre o futuro dos mananciais hídricos ou as reservas do Pré-sal, por exemplo. Todos os presentes saberão o que os separa. Frisar estas diferenças, neste ato, seria um gesto pueril.

Mas em torno da luta pela democracia e pelos direitos, estará criado um campo comum – como na hora em que começam as danças, numa festa de bodas. Quem irá adiante, nesse território? Quem será capaz de propor, antes de mais nada, a deposição do presidente? E, muito além disso, uma espécie de faxina democrática – que livre o país das indústrias de fake news, da promiscuidade entre grandes corporações e mandatos, da submissão da vida política à ditadura dos mercados?

Começa, esta noite, mais um jogo, num cenário político complexo e perigoso. O Brasil fica bem mais respirável pelo fato de ele estar em curso.

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5 comentários para "Frente Ampla ou Frente Antifascista?"

  1. Sebastião Rocha disse:

    Frente ampla contra o que? Segundo o PSDB não é contra o Bolsonaro e contra as suas necro-políticas.
    Portanto, frente ampla contra o que?

  2. Genovan de Morais disse:

    Não é fácil, nem simples separar, nem mesmo momentaneamente esquecer em nome de uma frente ampla, melhor diria saco de gato, que boa parte dos personagens que supostamente querem frear o farcismo galopante, foram os articuladores do golpe, os fiadores do Sérgio Moro e do Temer e ao fim e ao cabo, colaboradores, para dizer o mínimo, do bolsonarismo e tudo de ruim que ele representa. Falar de união, frente, aliança e o que o valha, num lapso de tempo tão curto, a mim soa quase que como piada, uma extravagância. Demolir o fascismo bolsonarista sem sufocar as forças ou neutralizar as ações de dúzias que ora posam de antifascistas, mas lhe permitiram a ascensão, a mim me parece, além de pouco eficaz, inócuo.

  3. Germano disse:

    Concordo consigo. Já vimos esse filme e sabemos bem como é o final. Anistia nunca mais. Não é a pessoa do capetão o grande problema, é tudo aquilo que possibilitou a sua eleição. Ninguém pode garantir que sua queda resultará em algo melhor do que aí está.

  4. josé mário ferraz disse:

    O problema é mais complicado; é ser o elemento indescritível povo, cuja análise seria um bom tema para a redação do ENEN, a responsabilidade pela escolha dos governantes. Dá nisso aí: vai às ruas com foguetórios, gritos, apitos e tambores em louvação a alguém e, logo depois volta às ruas para exigir sua saída. Além disso, a quem escolher? Algum desses aí?

  5. robledo disse:

    O pensamento deve ser em duas fases. Alia-se a esquerda à direita arrependida e esforça-se por neutralizar o fascismo, cortar suas asas. Com os filhos do presidente presos, a máquina de fake News desmontada e o financiamento das mobilizações antidemocráticas cortado o bolsonarismo perde força, moral e espaço. É a partir daí que vem a segunda fase, com eles como os antagonistas, a esquerda pode usar o sentimento antibolsonarista para acusar a direita de ter ajudado a alimentá-lo em primeiro lugar.
    Não é um caminho possível?

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