Naufrágio, perversão e a política como saída

A recessão será forte; os bancos projetam queda de 7,7%. Um colapso social é iminente. Mas, de olho em 2022, Bolsonaro se esquiva — e culpa prefeitos e governadores. Mais que planos econômicos, resgate do país exigirá restaurar democracia

As previsões para o desempenho da economia brasileira ao longo de 2020 é uma grande incógnita até o presente momento. Existe um conjunto de variáveis sobre as quais não se têm o menor conhecimento e muito menos controle. O clima generalizado de incerteza não permite que se confira nenhuma credibilidade às estimativas que se pretendem “técnicas” a respeito de qual será a taxa de “crescimento negativo” do Produto Interno Bruto (PIB) para o ano da pandemia. Aliás, os relatórios oficiais adoram esse eufemismo para fugir ao nome adequado e incômodo para caracterizar o fenômeno: recessão.

Apesar desse quadro geral de dificuldades de prospecção, os economistas não temos como fugir à pergunta que mais nos é dirigida, em especial em momentos de crise como atual. De quanto será a queda do resultado a ser apurado pelo IBGE para o desempenho geral da economia brasileira? Se em épocas marcadas por menor incerteza essa tarefa já é complicada, esse exercício torna-se ainda mais aleatório em períodos como os que vivemos atualmente.

O quadro é grave e complexo. Somam-se fatores tão diversos como: i) os efeitos da política de austeridade levada a ferro e fogo por Paulo Guedes desde o início do mandato; ii) os efeitos da crise política que se aprofunda a cada dia, com as dificuldades de articulação do governo Bolsonaro no interior do Congresso Nacional; iii) os efeitos da crise econômica internacional provocada pela crise do coronavírus, com redução do nível de atividades em boa parte do planeta; iv) os efeitos da pandemia internamente e as necessárias medidas de confinamento, com consequente redução da atividade econômica interna; e, v) os efeitos da incapacidade do governo Bolsonaro em apresentar um programa mínimo de combate a covid-19, com o objetivo de reduzir as vítimas e atenuar as consequências econômicas e sociais da doença.

O financismo e seu mundinho

As estimativas oficiais são sempre baseadas em uma pesquisa semanal realizada pelo Banco Central (BC) junto à nata do financismo tupiniquim. Todas as segundas-feiras o chamado “mercado” aguarda ansioso pela divulgação matinal do famoso “Relatório Focus”. O documento sintetiza os humores e as projeções dos principais dirigentes e tomadores de decisões atuantes no mercado financeiro. Trata-se de um seleto grupo de 130 indivíduos que mantêm uma profunda relação de dependência mútua e para com o próprio órgão de regulação e fiscalização do sistema. Assim, é amplamente conhecida a parcialidade de tais “sentimentos” investigados, mais do que estimativas isentas.

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A verificação do comportamento tendencioso das respostas quando perguntados sobre a estimativa de crescimento do PIB para 2020 é evidente. A evolução das respostas ao longo das semanas fala mais de como se esfarela o suposto otimismo no início do ano do que da incapacidade de avaliar os efeitos inescapáveis de uma grave epidemia, que já se anunciava inevitável quando começou a se espalhar para além das fronteiras chinesas.

Pois os nossos respondentes da pesquisa pareciam não se preocupar com isso. Até o início de março, eles seguiam leves e soltos, surfando na onda de otimismo permanente propagandeado pelo superministro da economia. Afinal, não havia nenhuma dúvida de que o Brasil cresceria um mínimo de 2% ao longo do segundo ano de Bolsonaro. Era mesmo necessário que algum resultado positivo fosse apresentado depois do fracasso do Pibinho de 2019 (1,1%), que conseguiu ser menor ainda que os números obtidos durante os anos da gestão de Temer e Meirelles.

No entanto, à medida que as semanas iam passando, os próprios integrantes do sistema financeiro foram sendo “obrigados” a se render às evidências gritantes e dramáticas da realidade e à gravidade da crise. E assim, as previsões apresentadas a partir de março foram uma verdadeira ladeira abaixo. O crescimento apontado ainda em março se converte uma recessão de -2% em abril. E logo se transforma em queda de -4,1% no mês seguinte. A pesquisa mais recente no início de junho aponta uma recessão de -6,5%.

Pesquisa Focus – Previsão PIB de 2020

Data pesquisa PIB 2020
10/jan 2,3
07/fev 2,3
06/mar 2
10/abr -2
08/mai -4,1
05/jun -6,5

Fonte: BCB

Mais do que retratar a incapacidade de os assim chamados de “especialistas” do financismo em realizar previsões minimamente isentas e confiáveis, o quadro reflete a profundidade da recessão que atravessamos. E aqui não se trata de disputar a medalha do pessimismo ou torcer pela linha do “quanto pior, melhor”. Há estimativas de outras empresas e instituições igualmente vinculadas ao establishment e que não se permitem dourar a pílula no quesito crescimento do PIB. Bancos privados já falam em queda de 7,7% e o próprio Banco Mundial aponta para uma recessão de 8%.

Recessão grave e ameaça de golpe

Outras instituições de pesquisa não consideram de todo improvável que a continuidade da crise e a incapacidade do governo Bolsonaro em apresentar saídas amenizadoras terminem por levar o quadro recessivo para índices próximos a uma queda de 10%. O único setor que ainda consegue apresentar alguma colaboração positiva para a atividade econômica nacional é o complexo exportador – tanto o agronegócio quanto os exploradores de minérios. A rápida recuperação da economia chinesa reacendeu a demanda por esse tipo de importação de “commodities” e a queda na capacidade de nosso consumo interno não influenciou tanto esse tipo de atividade produtiva.

Bolsonaro parece já ter realizado a leitura política da conjuntura difícil para seu governo e sua popularidade. Ao identificar a incapacidade de reverter esse quadro recessivo e os impactos dele derivados, o capitão optou por jogar a responsabilidade das trágicas consequências sociais econômicas de sua incompetência para o colo dos governadores e prefeitos. Seu discurso tem sido marcado pela insistência em retomar as atividades e terminar com o confinamento. Para ele, pouco importa se haverá ainda mais mortes a partir do exemplo irresponsável de suas saídas cotidianas em contato físico direto com a população, sempre sem máscara e em direção oposta às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e dos ministros que ele demitiu recentemente.

Para o presidente, só interessa a sua própria reeleição em 2022. Com isso, pretende se esvair do quadro ainda mais dramático que o Brasil ainda vai encontrar logo ali na esquina, em futuro próximo. A recessão terá sido forte em 2020? Isso não tem a nada a ver com ele ou Paulo Guedes. Foi tudo culpa dos membros do Congresso Nacional, da imprensa, dos governadores e dos prefeitos que não o deixaram governar como ele desejava.

Infelizmente, 2020 será mesmo um ano perdido em termos da economia e dos indicadores sociais. No entanto, cabe às forças democráticas impedirem que ele se transforme também em uma aventura totalitária. Os intentos de autogolpe do capitão, estão mais do que evidentes. A formação de uma Frente Ampla para tirar Bolsonaro do governo é tarefa essencial para os tempos de hoje. Esse é o caminho para curar as feridas da crise e da irresponsabilidade. Com a restauração da democracia consolida-se a possibilidade de retomar o projeto de desenvolvimento sustentável e inclusivo, com a urgente redução das desigualdades econômicas, sociais e regionais.

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2 comentários para "Naufrágio, perversão e a política como saída"

  1. josé mário ferraz disse:

    Falta uma visão mais ampla sobre os problemas que infernizam a vida da humanidade. Falar em crescimento do PIB como solução fica incompreensível se a riqueza produzida no sistema capitalista que governa o mundo vai para as mãos de apenas um por cento dos seres humanos, realidade que autores de “Best-Sellers” fingem desconhecer. Em determinada rádio, com pose de sabichão, um papagaio de microfone afirmava que o problema de não ser sólida a economia de um lugar é que o possuidor de um trilhão de dólares iria investir sua riqueza em outro lugar. Ora, o problema é ser permitido que alguém seja dono de tamanha riqueza.

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