Barragens: a tragédia invisível de Aurizona

Ruptura de barreira em mina de ouro devastou rio Tromaí e deixou centenas de famílias sem água. Ninguém ficou sabendo. O que isso revela sobre a comunicação contemporânea e sobre o mito de que não há alternativas à mineração predatória

Por Talita Gantus

Uma das barragens da comunidade de Aurizona, em Godofredo Viana, no extremo oeste do Maranhão, a 338 quilômetros de São Luís, rompeu no último 25 de março. Segundo informações, os rejeitos teriam contaminado o rio Tromaí. Incrivelmente, esse acontecimento não circulou nas grandes mídias na mesma proporção em que ela se ocupou de narrar o diário do navio encalhado no canal de Suez. Claro, em uma sociedade globalizada como as que construímos, um navio cargueiro encalhado em uma das principais rotas de tráfego marítimo de mercadorias transnacionais pode trazer impactos mundiais.

Mas, por que razão Godofredo Viana, logo ali no Maranhão, parece ser um território muito longínquo e irrelevante à grande mídia brasileira? Sobre a grande mídia me refiro, aqui, à mídia hegemônica, financiadora da indústria cultural — grandes grupos como a Folha, o Globo, ou o Valor Econômico. Mídias essas que orbitam ao redor do eixo Rio-São Paulo. Fora as mídias independentes, esse acontecimento foi pouco noticiado. Faça você o experimento, busque no seu navegador de internet.

Provavelmente, em breve esse fato cairá no esquecimento. Infelizmente, não sairá da memória daqueles diretamente afetados. A grande mídia virá (como veio e sempre vem) vomitando, em nossas cabeças citadinas, infinitas notícias que acontecem ao redor do mundo, sem dar tempo de respiro pra que reflitamos sobre elas. Noticiam sobre a guerra na Síria sem sequer mencionar a influência dos EUA ou de órgãos multilaterais que empreendem missões de guerra em nome da paz. Ou sem que nos perguntemos: quais são os processos históricos que produziram as condições materiais em que aquela guerra é empreendida?

Ou ainda, quais são os processos históricos que produziram as condições materiais dos conflitos nos territórios atingidos pelos impactos da cadeia de exploração mineral? Afinal, seriam os territórios de exploração e avanço da fronteira mineral [e agrícola] novas formas de empreendimento colonial? Seriam eles territórios de guerra?

Talvez, ocuparmo-nos dos cenários que se desenrolam do outro lado do mundo seja uma forma de não nos atentarmos ao que realmente importa. Em tempo: não que não sejam importantes, longe de mim, que leciona geopolítica nas aulas de geografia, dizer isso.

Talvez a gente pense que o ocorrido no Maranhão não tenha relevância por se tratar de uma contaminação local, que trará impactos, no máximo, regionais; e que isso não alcançaria uma dimensão maior justamente por envolver apenas — você se lembra o nome?! — a comunidade de Aurizona, em Godofredo Viana, no Maranhão. Mas uma barragem é apenas a ponta da cadeia. O lixo da mineração. Aquilo que não vira mercadoria; logo, é descartado. Certa vez, em uma aula do mestrado, ouvi de um professor de geotecnia que barragens de rejeito apresentam “falhas técnicas” mais frequentemente do que barragens hidrelétricas pelo fato de que apenas a segunda é lucrativa. Barragens de rejeito passaram a ser interessantes pras mineradoras quando elas produziram uma tecnologia que recupera o rejeito para que ele retorne ao processo de circulação de mercadorias. A primazia do valor de troca que sustenta as sociedades capitalistas. Mas esse processo ainda é oneroso; fator que diminui as taxas de lucro. Então, pra maximizar os dividendos em ciclos de queda do preço das commodities, ainda é mais rentável avançar em territórios não explorados. Uma prática antiga de acumulação por despossessão.

Além da contaminação com rejeito de corpos hídricos terrestres (rios de água doce) que podem acarretar uma série de impactos sociais e ambientais na vida da população atingida — como a ocorrência de diversas doenças e efeitos da bioacumulação ao longo da cadeia trófica –, Godofredo Viana se encontra próxima ao mar e ao mangue, ecossistema que resguarda grande biodiversidade endêmica. Somado a isso, as famílias contam que, por causa da contaminação de minérios no rio, ficaram sem acesso à água potável e tiveram a entrada da comunidade interditada. Vocês se lembram de que estamos em uma pandemia, certo?!

Lembremos, ainda, que em 2018 a mesma mineradora ali instalada, em uma operação de deslocamento de pilhas de estéril em que são usadas dinamites, foi responsável pela explosão que atingiu cerca de quatro mil pessoas, deixando todas isoladas.

A operação da mina pertence ao grupo privado canadense Equinox Gold. Aurizona tem a maior reserva mineral de ouro do Brasil e uma das principais do mundo. Talvez você não saiba, mas, de todo o ouro explorado, minerado mundialmente, 50% vai para o mercado de jóias, 30% alimenta o mercado financeiro especulativo, e apenas 20% é destinado ao que realmente parece ser necessário (por exemplo, como componente de circuitos eletrônicos — e essa é só uma das finalidades).

Ora, observamos o paradoxo da essencialidade. Aquilo que a mídia hegemônica veicula como essencial (a versão mínero-dependente do agro: “mining é tech, mining é pop, mining é tudo”) não parece tão fundamental assim. “A mineração está na veia do povo mineiro”, ou, como o Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos afirmou, “o Brasil vive um casamento indissolúvel com sua indústria de mineração”, como se a mineração fosse fruto de um determinismo natural, um pacto do qual não há saída, e não uma escolha sociopolítica de um processo produtivo primário-dependente. Talvez a relação venosa esteja naquilo que Eduardo Galeano buscou, poeticamente, alertar-nos: “as veias abertas da América Latina”.

Já estariam, elas, escancaradas?

Bento Rodrigues após o rompimento da barragem de Fundão, sob responsabilidade da Samarco / Vale / BHP. Foto: Júlia Pontés
Após o rompimento da barragem de Fundão, sob responsabilidade da Samarco / Vale / BHP. Foto: Júlia Pontés
Cava da mina da Samarco / Vale / BHP, na região de Mariana, MG. Foto: Júlia Pontés

Um alerta para nós, povos latinos, colonizados, que o FMI e o Banco Mundial chamam de subdesenvolvidos (parece que agora fomos promovidos à “em desenvolvimento”). Esses são os mesmos órgãos que definiram a mineração como trampolim pro progresso, pro famigerado desenvolvimento econômico sustentável que, a partir de diretrizes da ONU – arquitetadas com toques de verde (em referência ao eco), de roxo (porque esses empreendimentos se dizem feministas) e com as cores do arco-íris (afinal, são também pró causas LGBTQIA+) -, afirmam promover a mineração responsável, em busca de atingir os objetivos por eles elencados (os chamados ODS). Resta-nos perguntar: progresso pra quem? Em nota, a mineradora canadense se posicionou minimizando o problema e afirmando que não houve rompimento de barragem, mas sim comprometimento de drenagem em operação da MASA S/A (Mineração Aurizona). Responsabilidade de quem?

Não cabe aqui questionar a necessidade da mineração para a manutenção das condições materiais em que reproduzimos, atualmente, nossas sociedades. Até o sal de cozinha vem da mineração. Cabe questionarmos, sim, as sociedades que estamos construindo e os modos em que produzimos as condições materiais dessas sociedades. Questionarmos as próprias necessidades que são constantemente produzidas pelo capital, única e exclusivamente com a finalidade de gerar valor. A mercantilização da vida e da Natureza chega ao ponto de insustentabilidade. O colapso ambiental gerado pela ruptura sócio-metabólica humano-Natureza é premente.

Estratégias primário-exportadoras provocam desincentivos à diversificação e à industrialização; geram problemas estruturais que se traduzem em determinismo geográfico (o centro-oeste brasileiro existe para além do agronegócio, como o norte do país e o quadrilátero ferrífero em Minas Gerais existem para além da mineração). Longe de ser uma fatalidade, um destino da natureza, trata-se de grafias imperiais-coloniais inscritas no espaço.

A forma como se extraem os recursos e se distribuem os lucros evidencia como tanta “riqueza” extraída e explorada produz tanto empobrecimento sistêmico e estrutural. A metrópole é o espaço de acumulação, e a colônia o espaço de espoliação da Natureza e de exploração da mão de obra, principalmente a racializada. O discurso oficial da mineração se subscreve ao horizonte colonial do desenvolvimento. Empreendidos — incrivelmente para uns, não surpreendente para outros — também em governos de esquerda ao redor de toda a América Latina.

Segundo Galeano, apenas no período entre 1503 e 1660 entraram na Espanha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata. Antes os impérios europeus, hoje os acionistas pulverizados ao redor do mundo e os bilionários empreendedores desse sistema-moderno-colonial, os engenheiros da engrenagem do capital. Os que lucram pelo rentismo na bolsa, os bancos, as empreiteiras que constroem hidrelétricas na Amazônia, com apoio estatal, para fornecimento de energia elétrica aos empreendimentos minerários… Da gênese colonial até os dias de hoje, nós, trabalhadores latino-americanos, somos todos atingidos, explorados e espoliados pela mineração capitalista. Possibilitada pelo Estado burguês, por meio de uma democracia geograficamente customizada. Isso também é luta de classes.

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