Os EUA flertam com a economia do cuidado

Com a crise pós-Trump e risco de perda de hegemonia para a China, Joe Biden tenta reviravolta: recuperar a confiança no Estado; lutar contra a desigualdade e reconstruir a infraestrutura combatendo a crise climática. Terá fôlego?

Por Ricardo Abramovay*

Não é só pelo bom senso, pelo equilíbrio e pela figura de ponderação que Joe Biden se contrapõe ao fanatismo fundamentalista que tanto machucou a sociedade norte-americana com Donald Trump. A inspiração da atual administração norte-americana pode ser resumida a uma expressão que dá sentido às medidas que vêm sendo tomadas desde o primeiro dia de governo, quando os Estados Unidos voltaram ao Acordo de Paris: a economia do cuidado.

Economia do cuidado parece um oximoro, uma contradição nos termos. O que norteia, em princípio, uma economia de mercado pode ser resumido no jargão “amigos, amigos, negócios à parte”. A ideia é que se os mercados funcionarem bem, os agentes econômicos terão interesse em investir e estes investimentos acabarão, por uma espécie de gotejamento (o termo trickle down é usado amplamente em economia) beneficiando a todos. Cortar os impostos dos mais ricos, abolir leis que protegem os trabalhadores e estimular sua atuação individual, tratando-os como se fossem empresários deles mesmos, postular como o fez Ronald Reagan que o governo é o problema e não a solução, decretar que a era do “big government” acabou (Bill Clinton) e denunciar o Estado profundo (o deep State de Trump) — tudo isso deveria desembocar em mais riqueza e prosperidade.

O resultado foi o oposto. A renda e a riqueza concentraram-se de forma inédita, a confiança da população no governo e nas instituições caiu de forma ameaçadora à própria democracia, a infraestrutura norte-americana deteriorou-se e os Estados Unidos tiveram sua posição de vanguarda nos mais importantes avanços científicos e tecnológicos contemporâneos ameaçados pela ascensão da China como potência global.

A resposta de Joe Biden a este contexto específico consiste em rever o padrão, o modelo, o paradigma que, nos últimos anos, norteou a formulação da política econômica nos EUA. A economia do cuidado pode ser apresentada em três dimensões fundamentais.

A primeira é o cuidado com a democracia. É fundamental recuperar a confiança dos cidadãos no Estado e nas instituições democráticas. 77% dos norte-americanos confiavam no governo em 1964. Esta proporção caiu para 20% na era Trump. Como mostra o recente livro de Ethan Zuckerman, esta perda de confiança não atinge apenas o governo federal, mas também a polícia, os grupos religiosos, o sistema médico, a Corte Suprema, as escolas públicas, os bancos, os jornais, os noticiários de TV, a justiça criminal e o “big business”. E este declínio da confiança nas instituições atinge igualmente os países da União Europeia.

Nos últimos quarenta anos, a resposta a este declínio consistiu em fazer a apologia do mérito individual como o caminho por excelência da ascensão social. Até o governo Obama flertou com esta retórica, segundo o excelente e recém-publicado livro do consagrado filósofo político Michael Sandel. Esta resposta converteu-se num dos mais importantes fatores de corrosão das virtudes da valorização do bem comum, dos recursos públicos e da solidariedade social.

A pandemia escancarou não só a natureza eticamente inaceitável deste individualismo extremado, mas igualmente sua total incapacidade de proteger os indivíduos. Não se trata então de voltar às orientações anteriores à pandemia. A economia não pode ser agnóstica no que se refere aos cuidados com as pessoas e com o ambiente em que vivem.

Por isso, a segunda dimensão da economia do cuidado está na luta contra as desigualdades, que passa, antes de tudo, pela urgente transferência direta de renda para famílias e, sobretudo, para as que têm crianças abaixo de seis anos. Além disso, Biden valoriza, de forma inédita com relação a seus antecessores, a organização sindical dos trabalhadores. Sua recente declaração é emblemática: não foi Wall Street que construiu este país. Foi a classe média e foram os sindicatos.

Mas é fundamental também a constatação de que o cuidado com os que não têm como cuidar de si próprios (os doentes, os portadores de necessidades especiais, os idosos e as próprias crianças) fica quase sempre sob a responsabilidade das mulheres. Valorizar o trabalho destas cuidadoras, reconhecer a importância social de suas atividades (que não se exprimem nas contas nacionais) é um dos aspectos mais inovadores e ousados do atual plano, como bem o mostrou Brian Deese, o jovem economista que dirige agora o National Economic Council — centro da formulação da política econômica norte-americana — nesta entrevista a Ezra Klein.

A terceira dimensão da economia do cuidado tem um extraordinário impacto nacional e global. Os relatórios da Sociedade Americana de Engenheiros Civis vêm mostrando a deterioração da infraestrutura do país em diferentes áreas. Só que, em vez de simplesmente procurar preencher as atuais carências, o governo Biden decidiu imprimir sentido à infraestrutura. E este sentido está em fazer da luta contra a crise climática o epicentro da reconstrução da infraestrutura.

O país tem que revolucionar, nos próximos dez anos, sua matriz energética, sua frota de veículos, implantar três milhões de estações de recarga elétrica, alterar os sistemas de calefação e refrigeração dos domicílios e dos imóveis comerciais e investir em pesquisas que melhorem o desempenho das baterias que vão contrabalançar a intermitência das fontes de renováveis modernas (solar e eólica). É em torno destas inovações que o Governo Biden aposta na criação de empregos de boa qualidade para o conjunto do país, contrabalançando a tendência de supressão de empregos associadas à robotização de muitas atividades (como os fast foods, por exemplo).

Este esforço tem uma dimensão geopolítica decisiva, pois hoje é a China que ocupa a vanguarda científica e tecnológica das renováveis modernas. Investir em pesquisa e desenvolvimento é parte fundamental do que alguns já estão chamando de bidenomics.

Ninguém pode garantir que este plano vá funcionar e receber o apoio político para ser levado adiante. Mas ele certamente modifica os próprios termos da discussão sobre o que é política econômica, sobre os caminhos para enfrentar as desigualdades e sobre o próprio sentido da infraestrutura no mundo contemporâneo. É o mais importante exemplo da urgência de se colocar a ética, a preocupação direta e explícita com o bem comum no coração das decisões econômicas.


*Originalmente publicado no TAB Uol

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