Bernardet: “Tirei o corpo fora”

“Precisam que eu me considere doente. Mas não me tratam com pessoa além do câncer, nem discutem o tema básico: devo me submeter à agressividade do tratamento? Estou me libertando desta máquina infernal. Sinto-me leve”

A Varian é a empresa que equipa o setor de radioterapia do hospital onde iniciei o tratamento. Para continuar “a salvar vida pelo mundo” – como anuncia o seu site – ela precisa do meu corpo nas suas máquinas. Assim como todo o sistema médico. Se eu me retiro, ficam a ver navios. E para que isso não aconteça, eles precisam que eu me considere doente e, logo, me trate. Nem tentam me convencer disso, porque isso é “natural”. Pareceria absurda a pergunta “Você quer se tratar?”, já que a resposta é tão óbvia. Quando emiti dúvidas sobre a hormonoterapia, recebi um lacônico “O Sr. é que sabe”. Reconhecem que a decisão final é minha, mas ao tomar a decisão de interromper o tratamento estarei me prejudicando.

Tenho dois médicos – digo “tenho” porque até o momento em que escrevo esse texto, uma semana depois da minha decisão, não consegui interromper o tratamento, ele está suspenso até eu “pensar melhor”. O hospital resiste em me soltar. Um médico para a rádio, outro para a hormono. Eles são eficientes e atenciosos, sempre respondem a mensagens de Whatsapp. Mas eles não são propriamente médicos de pacientes, eles são médicos de protocolo: a caso X, aplica-se tratamento Y. Para médicos com essa formação, o paciente se torna o portador do câncer e o que interessa é o câncer, não o portador. O câncer não é contextualizado no corpo e na vida do sujeito. Não há um médico que trate da minha pessoa como um todo e queira discutir o tema para mim básico: uma pessoa com mais de 80 anos e quase cega tem interesse em se submeter à agressividade do tratamento? Que vantagem Maria leva? O argumento da cura não vale: anos atrás já me tratei e o câncer retornou. Não um outro — o mesmo, conforme os médicos.

Conversei com o meu geriatra, que conheço de longa data. Ele entendeu meus objetivos. Os sintomas mais prováveis são grande cansaço e dores. Existe amplo leque de analgésicos, inclusive radioterapia para dor óssea. Quando vão aparecer esses sintomas? Resposta do geriatra: daqui a um ano, dois ou cinco anos, ou talvez nunca! (sic). É que o câncer da próstata pode ser manso em pessoas idosas e poderei morrer de outra coisa.

Portanto o texto Insubmissão não é, contrariamente ao que me foi dito, uma “carta de despedida”. Nem anuncia que estou entrando numa zona sombria. Anuncia que estou me libertando da máquina medical e da Varian. E me sinto leve e bem disposto.

Pessoas fizeram essa interpretação negativa do texto porque está introjetada em nós a ideia de que o doente deve se tratar, em se tratando ele sara. Introjetada a ideia de que a doença deve ser considerada em si, sem outras considerações (no meu caso a idade e a degradação da vista). Introjetada a ideia de que a prorrogação da vida em si é boa. Essa ideologia deve ser opressora porque dezenas de pessoas me apoiaram, comentaram a atitude corajosa e “lógica”. Não estou cometendo suicídio, cometi um ato de libertação. Agora, que eu vou morrer um dia, eu vou.

Carta sobre a não prorrogação artificial da vida:
DIRETIVAS ANTECIPADAS DE VONTADE

Eu, Jean-Claude Georges René Bernardet, portador do RG 5108423-5, em pleno gozo de minhas faculdades mentais declaro que caso seja vítima de doença incurável, progressiva em estado avançado como câncer, demência, Parkinson, insuficiência cardíaca, insuficiência pulmonar ou renal; sequela de doença e/ou acidente grave sem chance de recuperação, tais como sequela grave de Acidente Vascular Encefálico e Trauma Crânio Encefálico, ou qualquer forma de invalidez importante que limite minha independência desejo que minha vida não seja mantida através de meios artificiais tais como: sondas de alimentação, ventilação mecânica, traqueostomia, entubação, orotraqueal, diálise e reanimação cardiopulmonar.

Desejo também não ser submetido a exames, procedimentos e/ou cirurgias que não tragam benefício claro a minha qualidade de vida.

Diante de tais circunstâncias desejo todo e completo suporte para alívio de sofrimento físico, psicológico e espiritual.

Caso haja dúvida a respeito da melhor decisão a ser tomada designo minha filha Ligia Ribeiro Bernardet como minha representante.

São Paulo, 09 de abril de 2019
Jean-Claude Bernardet

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24 comentários para "Bernardet: “Tirei o corpo fora”"

  1. Valter Bahia Filho disse:

    Um ato de coragem, discernimento e libertação.

  2. Elizabeth Correa disse:

    Texto maravilhoso, cheio de lucidez

  3. Maria Lucia Refinetti Martins disse:

    Brilhante. Me identifico plenamente. E endosso a corrente dos que advogam pela dignidade e pelo direito de escolha dos doentes e dos velhos.

  4. Áurea Regina Guimarães Tomasi disse:

    Corretíssimo!! Muita lucidez!!
    Também quero fazer uma carta assim.
    Minha mãe teve câncer aos 84 anos e ela disse: vou morrer do tratamento!
    A medicina tem esse lado perverso de matar e de prolongar o sofrimento com a tentativa de cura.

  5. Bráulio Vasconcelos disse:

    Para morrer basta um motivo. E se possível com pouco sofrimento. A escolha desse cidadão é admirável, e creio que
    será uma onda a ser replicada. A ideia é sensacional.

  6. Elizabeth Medeiros Pacheco disse:

    será sempre um trabalho ético reinventar modos de viver e modos de morrer . Mais uma vez me sinto próxima de J-C Bernadet.

  7. Jose Amorim de Andrade disse:

    Jean-Claude, sou médico e comungo plenamente com suas reflexões. Amenizar o sofrimento é nossa principal função.

  8. Ângelo Xavier disse:

    Obrigado Jean! Que sua lucidez possa chegar aos nossos afetos nos reposicionando frente a tais engrenagens.

  9. Marinalva Palmeira disse:

    Todos decidem sobre a nossa vida, menos nós!
    Parabéns Jean, por tomar as rédeas de sua vida e, obrigada por nos fazer enxergar que nós somos os donos de nosso destino. Nós quem devemos decidir como viver e como morrer.

  10. Nielsen disse:

    Vejo agora ao vivo. Surpreso, porém agradecido. Palavras sinceras, lucidas no programa Diálogos Globo News. Siga sua VIDA em Paz irmão.

  11. João Seraine disse:

    Acabei de assistir a entrevista na Globo News. Fiquei positivamente impressionando, quero que mais pessoas conheçam e reflitam sobre sua história e que você possa continuar vivendo bem e feliz. É isso que a vida quer da gente, coragem.

  12. Demicelly Alvarenga de Carvalho disse:

    Espetáculo! Espírito evoluído! Decisão louvável! Admirada!

  13. Denise disse:

    Excelente reflexão! O consentimento informado ou esclarecido do paciente que integra um estudo clínico deve contemplar o apoio e orientação para a escolha Intima e tranquila por submeter-se ou não ao tratamento proposto ao
    longo de toda a sua duração. É um dever ético e legal. Os sentimentos do escritor bem revelam que algo não está bem!

  14. Mário disse:

    Pelo direito de dispor do próprio corpo! Pelo direito de dispor da própria vida! Pelo direito de dispor da própria morte! Abaixo a indústria da doença e da morte! Abaixo a violência hospitalar!

  15. Priscila Preard disse:

    Obrigada por compartilhar algo tão precioso! Os questionamentos são necessários, porém quando estamos adoecidos, os pensamentos ficam nebulosos, e aí eles se aproveitam… não é uma fala genérica, mas sinto como você, como se fôssemos um protocolo.

  16. PRISCILA PREARD ANDRADE MACIEL disse:

    Jean,
    Obrigada por compartilhar essas preciosidades .
    Nos momentos em que precisamos de mais ajuda, somos usurpados do pouco que nos resta.

  17. Alez disse:

    Acompanhei sua entrevista na GN. Os médicos geralmente seguem um protocolo de suas associações, financiadas pelos interesses econômicos da indústria farmacêutica.

    Parabéns pela lucidez e coragem pra enfrentar esse sistema médico mercenário e bilionário, que trata o paciente como um hospedeiro e não como um ser humano.

  18. Fatima Pereira Gomes disse:

    Parabéns e obrigada por colocar em palavras os meus sentimentos quanto ao tratamento do câncer.
    Tive câncer de mama e pior que a doença foi o tratamento dos médicos. Parecia que eu não existia. Nada importava apenas a medicação.
    Muito obrigada!!!!

  19. CIDNÉA PAPPONE disse:

    Jean-Claude, sou advogada e presidente da Comissão de Bioética, concordo plenamente com seu entendimento e decisão.
    A morte ainda é um tabu. Precisamos falar mais sobre ela!
    Precisamos aceitar o morrer, sendo respeitado também a nossa autonomia da vontade e termos os Cuidados Paliativos necessários, tais como: hidratação, nutrição, medicamentos para dor e mãos dadas com a família e amigos.
    Parabéns por ajudar, com seu testemunho, outros pacientes a refletir melhor no tratamento de suas doenças.
    Parabéns por deixar pronto o termo “diretiva antecipada de vontade”.

  20. Antonio Curiel disse:

    A pergunta que difícilmente tem resposta:
    Se fosse com o Dr , o que faria?
    Geralmente a resposta é:
    Não posso influencia-lo.

  21. Fernando disse:

    Faria o mesmo , lucidez sensatez
    Admirável ato
    Comungo com suas idéias sou soropositivo e idoso na idade , tenho saúde e discernimento para ter a mesma atitude
    Farei carta igual deixando minha esposa para decidir como fez você com sua filha
    Obrigado por ter me dado a chance de saber um pouco mais sobre você meu amigo

  22. Rodrigo Hanriot disse:

    Como medico vejo uma reflexão truncada. A maquina não existe para introduzir sofrimento mas antes, minimiza-lo ou evita-lo. A doença não tem culpado, faz parte da vida, bem como a morte. Mas postergar o inevitável esta no alcance humano, por isto estamos vivendo mais e melhor que algumas gerações passadas. Em 1960 a expectativa de vida era de míseros 48 anos! Sim, a ciência como um todo, medicina incluída, melhoraram tudo isto. Mas como diria meu antigo professor, não basta dar mais anos a vida; urge dar mais vida aos anos. Lamento pela desistência de lutar pela vida do autor do texto mas estas são escolhas individuais e devem ser respeitadas, pois não afetam a coletividade (coisa que o criminoso movimento anti-vacina faz). Sorte e saude ao autor.

  23. Lívia Gomes disse:

    Ele teve a lucidez de optar pela vida e cuidar da saúde, não da doença. Escolheu não alimentar a indústria da doença, será mais feliz e viverá muito mais com essa atitude! Parabéns! Lívia Gomes – Psicóloga

  24. Maria Inês Soares de Oliveira disse:

    Concordo plenamente com o posicionamento corajoso e lúcido de Bernardet. Inclusive eu, meus filhos e a companheira do meu ex-marido o acompanhamos até os momentos finais, sem recorrer a nenhum procedimento invasivo e doloroso. Respeitamos a decisão dele, de falecer em minha casa, cercado de cuidados e carinho, na companhia de pessoas que o amavam.
    Não direi que foi fácil para nós. Entretanto, foi o melhor a ser feito em respeito a ele.

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