Os esqueletos do armário da ditadura

Ex-delegado descreve partes de sua rotina de trabalho: matar e sumir com corpos de presos políticos. Documentário Pastor Cláudio, o “terror do ano”, também adverte: isso é apenas uma gaveta da memória

Por Marie Declercq, na Vice Brasil

Cláudio Guerra tem uma fala calma, monótona e às vezes confunde algumas palavras. À primeira vista, parece um daqueles senhores de bairro que dão bom dia para todo mundo. Porém, Cláudio tem histórias horríveis para contar ao espectador. Munido de uma bíblia, Guerra conta como incinerou corpos em uma usina do Rio de Janeiro e da participação em execuções de membros do Partido Comunista do Brasil (PCB) à sangue frio por serem considerados inimigos do regime militar do Brasil. Assim o documentário Pastor Cláudio da cineasta Beth Formaggini se apresenta.

O documentário é simples, direto e se desenrola sem grandes firulas estéticas. Trata-se de uma entrevista tête-à-tête entre o protagonista cujo vulgo batiza o filme, Cláudio Guerra, e o psicólogo e ativista de Direitos Humanos Eduardo Passos. Em um pouco mais de uma hora, Guerra fala com naturalidade e desprendimento sobre cada execução e incineração de corpos que praticou durante a Ditadura Militar. O seu relato tem tom quase banal.

Guerra, hoje pastor, atuou como delegado do DOPS do Espírito Santo e também foi agente do Serviço Nacional de Inteligência (SNI). Em 1973, Cláudio foi recrutado pelo Coronel Perdigão (Freddie Perdigão Vieira) e pelo Comandante Vieira para formar a Operação Radar, cuja deflagração vitimou 19 militantes do PCB. Na época, não havia qualquer dúvida para Guerra sobre a crueldade da operação. Os agentes à mando da ditadura, segundo ele, “faziam o que precisava ser feito”. Inicialmente, o ex-delegado executou pessoas supostamente ligadas ao PCB e depois foi designado que sua tarefa seria dar cabo dos corpos numa usina localizada em Campos de Goytacazes, Rio de Janeiro. Segundo Cláudio, os corpos chegavam já com sinais de tortura decorrentes de dias internáveis de interrogatórios e violência na Casa da Morte ou na sede do DOI-Codi na Rua Tutóia em São Paulo.

Os caminhos de Formaggini e Cláudio se cruzaram quando a cineasta ficou sabendo através da imprensa que o pastor escrevera um livro de memórias sobre seus feitos durante o regime militar. A documentarista já havia dirigido um filme em 2007 chamado Memória Para Uso Diário que registra a busca interminável de pessoas que tiveram familiares, amigos e cônjuges desaparecidos pela ditadura e viu em Cláudio uma chance de descobrir o paradeiro de Itair José Veloso — assassinado na Operação Radar, cujo corpo é até hoje procurado por sua esposa Ivanilda Veloso, um dos personagens do seu documentário de 2007. 

Assim, após meses de pesquisa, Formaggini decidiu entrevistar Cláudio e trazer as perguntas de Ivanilda para confrontá-lo. “Ela [Ivanilda] nunca parou de procurar seu marido desde seu desaparecimento. Quando vi que Cláudio tinha participado da Operação Radar, percebi que seria uma chance dele poder informar à viúva sobre o paradeiro do marido”, disse a cineasta à VICE.

Não há qualquer interesse na vida pessoal de Cláudio e muito menos sua trajetória até virar pastor. A cineasta quis apenas focar na história que o entrevistado carrega consigo e não hesitou em recontá-la perante às câmeras numa entrevista de quatro horas. Curiosamente, não há qualquer tentativa de desumanizar um executor e torturador do estado militar. Sua história faz isso por conta própria.

Fora a busca incansável de Ivanilda ao corpo do seu marido, outros desaparecimentos são elucidados na fala de pastor. Só na usina em Campos, Cláudio foi responsável por incinerar os corpos de Joaquim Pires Cerveira, Ana Rosa Kucinski, Davi Capistrano, João Massena, Fernando Augusto Santa Cruz, Eduardo Collier Filho, José Roman, Luiz Ignácio Maranhão, Armando Teixeira Frutuoso e Thomaz Antônio Meirelles.

Já pro fim do depoimento de Guerra, o mesmo diz que as mesmas forças autoritárias que promoveram mortes, torturas, perseguições e desaparecimentos durante o regime militar ainda continuam no poder e sequer foram julgadas pelos crimes. Segundo Beth e o próprio pastor, há ainda muito mais detalhes e informações para revelar. O que foi exibido na entrevista é apenas uma pequena gaveta de sua memória.

A banalidade e naturalidade carregadas pelo pastor assusta não só o espectador, como também foi sofrível para a cineasta e a equipe colherem esse depoimento. No entanto, para a documentarista, é algo que não pode deixar de ser. Especialmente nos dias atuais.

“A Comissão da Verdade teve um papel muito importante em todos os países. No entanto, o Brasil não enfrentou essa história. Tanto que vemos essa continuidade das mesmas práticas de torturas em delegacias e prisões. (…) A gente tem que enfrentar nosso passado ou teremos um futuro muito tenebroso pela frente,” finaliza Formaggini.

O documentário Pastor Cláudio foi lançado nos cinemas brasileiros no dia 14 de março. 

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