Aloysio Biondi e seu direito sagrado de analisar

Jornalista ousado, conhecido por afiadas previsões econômicas, faria 84 anos. O homem-máquina de escrever, como era chamado, denunciou o desmatamento e as privatizações da era FHC. Livro, lançado hoje, narra sua importante história

8 de Julho, quarta-feira, é o aniversário de nosso amado Aloysio Biondi, o Aloys, meu pai, Alubas, o Biondão. Não tivesse feito sua passagem precocemente, 20 anos atrás, completaria amanhã 84 anos. Mas — como sempre foi e será –, celebraremos. Sua história, seu trabalho, seu amor, sua presença. Com uma conversa sobre ética e jornalismo, com os queridos André Singer, Aloisio Milani, Sérgio Alli e Pedro Biondi. Falaremos também do lançamento do livro “Aloysio Biondi: resistência ética e grandeza no jornalismo” perfil biográfico de autoria de Thais Sauaya, jornalista falecida em 2009 e grande amiga.
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A sala abre às 18h30 para quem quiser bater um papo, fazer um brinde, saber do livro… E 19h30 fazemos o debate propriamente dito.

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Por Pedro Biondi e Antonio Biondi

O que seu pai diria sobre tal coisa? Vira e mexe alguém nos pergunta numa mesa de debate, ou de boteco. O Alóys estaria furibundo com tal medida, hem?, às vezes uma amiga sublinha numa roda de conversa. O Biondi reduziria esse ministro a pó com os arquivos implacáveis dele!, um ex-colega assevera.

Procuramos ser comedidos nos palpites e endossos, seja pelo reconhecimento do domínio que o Aloysio mostrava nos seus temas mais caros, seja porque, como qualquer pessoa, nosso pai mudou de opinião ao longo da vida, e cravar o que ele diria a respeito de algo, duas décadas depois de sua partida, seria um tanto frágil e arbitrário.

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Talvez mais que qualquer outra, a frase “O meu direito de analisar é sagrado” sintetiza a postura de Biondi em relação à informação, à comunicação e à política. Significativo que a declaração abra esta imersão, na epígrafe escolhida pela autora Thais Sauaya entre tanto material.

Ela traduz um exercício de independência que muitas vezes causou indisposição com as chefias e polêmicas públicas com os privatistas – e eventualmente com a própria esquerda.

De todo modo, as apostas ganham outra base com este caprichado perfil biográfico, um consistente panorama da trajetória do leitor de Monteiro Lobato e Euclides da Cunha que se tornaria uma espécie de tradutor ou bússola da economia para leitores e leitoras de variados perfis. O mergulho mostra várias constantes nos embates que o jornalista travou ao longo da vida profissional.

Muito mais que um TCC, o trabalho de Thais Sauaya foi bastante elogiado pela banca por seu levantamento rigoroso e seu texto claro. Os avaliadores recomendaram à autora posterior publicação, projeto que o companheiro de Thais, Sergio Alli, leva adiante com este livro, num momento em que os livros, o jornalismo, o pensamento crítico e a memória ganham importância redobrada. Aqui tem argamassa e oxigênio para a luta.

Trata-se de uma pesquisa centrada na trajetória jornalística sem desconsiderar como a origem e a experiência de vida moldaram o homem-máquina de escrever, ou como a travessia político-profissional impactava a familiar (basta lembrar da blague atribuída ao sempre espirituoso, mas não tão fair-play na prática, Delfim Netto: “Aloysio Biondi me persegue há vários jornais” – redações para as quais, reza a lenda, o ministro da ditadura telefonava pedindo a cabeça do seu persistente crítico).

Nela está registrada a participação em alguns dos projetos de maior ousadia ou centralidade da imprensa brasileira, como as revistas Fator e Visão, a criação do anuário Quem É Quem na Economia Brasileira e do Diretor Econômico (caderno do Correio da Manhã), e ainda a reformulação da Gazeta Mercantil. Muitas deles, em constante colaboração com o compadre Washington Novaes, figura de estatura equivalente nas nossas fileiras comunicacionais.

Estão igualmente presentes no livro a formatação do personalíssimo e influente DCI e as duas tentativas fora do eixo Rio-São Paulo, em busca de liberdade editorial, no Diário da Manhã, de Goiânia.

Figuram nestas páginas, ainda, os dois prêmios Esso, por reportagens especiais sobre o avanço do desmatamento e da monocultura extensiva no Vale do Paraíba e suas consequências (“O Brasil a caminho do deserto”, na Visão, em 1967); e sobre as mudanças no imposto de renda, bem como a complexa estrutura da Receita Federal para seu processamento (esta, com Emílio Matsumoto, publicada em 1970 na Veja, sob o título “O cerco sem violência”). E, claro, o livro O Brasil Privatizado, que destrincha o programa de desestatizações do governo Fernando Henrique Cardoso.

No conjunto da obra, ressalta Thais, sobressaem a preocupação social e o nacionalismo, valores que em muito se deviam aos dois escritores preferidos de infância e adolescência do futuro jornalista. No encontro desses pilares, a noção de patrimônio público e o apreço aos direitos atravessariam toda sua atuação. Assim como o rigor e a habilidade com os números e as informações de fonte primária – não é exagero ver essa produção como precursora do jornalismo de dados, que vem ganhando excelentes representantes.

Foi da escavação de dados oficiais que o analista econômico extraiu seus principais achados e bancou antecipações que enfrentariam incredulidade até se confirmarem. Entre elas, a insustentabilidade da leveza das bolsas, que resultaria no crash de 1971; a “sacanagem do open” (open market) como rastilho para o estouro do Banco Econômico, em 1974; e a recuperação da atividade produtiva no começo da década de 80, percebida entre indicadores fortemente deteriorados, feito que motivou o perfil “Um jornalista que sabe fazer apostas”, na revista Veja.

Outra bola cantada foi a “máxi” (maxidesvalorização cambial) deflagrada por Fernando Henrique logo após garantir sua reeleição. Biondi antecipou o cavalo de pau na sua entrevista de capa à Caros Amigos, em outubro de 1998, quando sentenciou que “O Brasil já está quebrado desde maio”. Em janeiro seguinte, na inauguração de seu segundo mandato, FHC botaria na rua uma forte desvalorização do real e o câmbio flutuante.

A despeito da opção de, em geral, não sermos categóricos em torno de presumíveis opiniões do nosso pai, cabe um exercício de imaginação diante do cenário extremo de processos recém-desencadeados ou em andamento: Amazônia e Pantanal em chamas; uma reforma da Previdência que fala grosso com as famílias que têm pessoas com deficiência e fino com os oficiais estrelados; as sucessivas amputações na CLT; as concessões unilaterais para os Estados Unidos; o fetiche pela desregulamentação de tudo como promessa de competitividade; o congelamento da reforma agrária e os presentes para o agro e a grilagem; a censura pipocando em toda parte; e o uso das fake news como estratégia eleitoral e de governo em guerra permanente.

O que, afinal, Aloysio diria? Leia este livro e dê seu palpite.

“Maldito” ou “formador de redações”

No plano pessoal, a autora vê como fios condutores qualidades “cada vez mais raras”: a transparência, a ética e o senso de justiça.

Retidão de conduta e coerência de valores que somadas, conforme ela observa, muitas vezes custaram empregos e cargos, além de rótulos colados pelos debatedores: “maldito”, “fanático”, “metralhadora giratória”. Por outro lado, contribuíram para a fama de “formador de redações” e o respeito dos colegas de sua geração que ele também respeitava, como Janio de Freitas, outro mestre.

Dezenove anos depois de ter nos deixado precocemente aos 64, impressionam as incontáveis formas pelas quais o “Biondão” ainda ecoa e nos circunda – e que vão muito além do projeto colaborativo de memória O Brasil de Aloysio Biondi.

Por exemplo, nas entrevistas jornalísticas e conversas profissionais em que o sobrenome leva à associação com seu legado ou evoca a convivência num dos muitos veículos pelos quais passou; ou no eterno retorno de escândalos que ele denunciou, em questões que permanecem no centro do debate nacional como a das privatizações – negociatas, como cravava sua linguagem sempre direta.

A permanência de sua obra, incomum para um universo caracterizado pela crescente efemeridade, ganha dimensão física na Faculdade Cásper Líbero, onde o nome do ex-professor hoje identifica uma das principais salas de aula. Convencido a lecionar depois de muita insistência do então coordenador de curso Marco Antonio Araújo, ele adorava debater e prosear com alunos e alunas, muitos dos quais hoje fazem a diferença no jornalismo brasileiro.

É bem possível que Alóys, brincalhão, declarasse que metade do que consta neste perfil é exagero, mas ele certamente ficaria muito grato e honrado com a homenagem. Um registro que mostra traços importantes da própria Thais – como a seriedade, a lealdade, o compromisso, a paixão pela informação.

Facetas que pudemos conhecer um pouco ao trabalhar com ela e o Sergio, numa convivência que, como este livro, estreita laços afetivos e profissionais estabelecidos há mais de seis décadas, quando Aloysio e o pai de Thais, o também jornalista Aldo Pereira, trabalharam juntos na Folha da Manhã. É também nesse sentido que saudamos a criação da editora e celebramos esta nova parceria com o amigo e colega.

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