Silvia Federici convida a ir além de Marx

Menosprezo do filósofo pelos direitos das mulheres e pelo papel da reprodução foi mais que um acidente de percurso, diz ela. E acrescenta: marxismo tem muito a aprender com a crítica feminista à alienação e ao “progresso”

Por Silvia Federici

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O texto abaixo é um dos ensaios do livro
O patriarcado do salário
De Silvia Federici, publicado pela editora Boitempo, parceira editorial de Outras Palavras.
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Uma das causas da força duradoura da teoria política de Marx foi, sem dúvida, sua capacidade de ler o futuro e antecipar formas de desenvolvimento capitalista que hoje estão se desvelando diante de nossos olhos a ponto de fazer de sua obra, mais de 150 anos depois, um guia para o presente. Com grande poder intuitivo, Marx previu o processo de globalização, que constitui o impulso incansável do capital para conquistar todos os cantos do mundo e submeter todas as formas de produção à lógica do lucro e do mercado. E, o mais importante, previu que a internacionalização do capital conduziria não apenas à formação de um mercado global, mas também de um ciclo de acumulação global, de tal modo que “a divisão do mundo em Estados-nação perderia sua importância econômica” [1]. De modo semelhante, os Grundrisse, especialmente em “Fragmento sobre as máquinas” [2], foram reconhecidos por prever o crescente predomínio do conhecimento e da ciência na organização capitalista do trabalho, o que levou algumas pessoas a assumir como postulado o início de uma nova fase de acumulação denominada “capitalismo cognitivo”[3].

Em certo aspecto, no entanto, Marx não estava à frente de seu tempo. É surpreendente, mas ele não previu um desdobramento que, em um intervalo de poucas décadas, mudaria a composição da classe trabalhadora e o panorama da luta de classes na Europa e nos Estados Unidos. Esse aspecto foi a formação de uma nova família proletária, um processo que ocorreu (grosso modo) entre 1860 e a Primeira Guerra Mundial, com a exclusão gradual de mulheres e crianças do trabalho fabril, a introdução do “salário familiar” [4] e a criação da dona de casa proletária e do trabalho doméstico em si como um ramo específico da produção capitalista, encarregado da reprodução da mão de obra [5].

Com esses desdobramentos, que inauguraram um regime patriarcal novo, erguido sobre o poder do salário masculino, houve uma transformação das relações de classe que escapou à análise de Marx, ainda que encontremos no Livro I de O capital muitas referências aos relatórios de fiscais de fábrica designados pelo governo que prepararam o terreno para essa mudança na Inglaterra. O fato de que a classe capitalista estava em vias de revolucionar a família proletária e as relações de gênero, de criar novas hierarquias entre homens e mulheres e novas divisões no interior do proletariado não pode ser deduzido a partir da leitura do Livro I. Como Engels, Marx permaneceu aferrado à crença de que o capitalismo destrói a família proletária e cria as condições materiais para relações de gênero mais igualitárias. Como ele apontou no Manifesto Comunista:

Quanto menos habilidade e força o trabalho manual exige, isto é, quanto mais a indústria moderna progride, tanto mais o trabalho dos homens é suplantado pelo de mulheres e crianças. As diferenças de idade e de sexo não têm mais importância social para a classe operária. Não há senão instrumentos de trabalho [6].

Por que Marx – normalmente tão visionário em sua análise do desenvolvimento capitalista – deixaria de reconhecer que estava em curso uma reorganização das relações sociais que reestruturaria de modo mais hierárquico os vínculos entre homens e mulheres nas comunidades da classe trabalhadora na Inglaterra e, em pouco tempo, em outros países da Europa e regiões dos Estados Unidos?

Uma das teses que configura este ensaio é a de que Marx não previu nem explicou a reestruturação da família proletária e a constituição de novas relações patriarcais no seio do proletariado porque, de acordo com sua teoria política, a esfera das relações familiares e de gênero não tem nenhuma função específica na acumulação do capital, na constituição da subjetividade de trabalhadores e trabalhadoras e na formação de classe [7]. Uma das consequências desse erro estratégico foi a cisão, com a qual (como veremos) Marx contribuiu na condição de dirigente da Primeira Internacional, entre os movimentos socialista e feminista que estavam emergindo no fim do século XIX; uma cisão que persistiu quase até os dias atuais. Assim, revisitar a perspectiva de Marx sobre a família, o trabalho das mulheres e as atividades pelas quais nossa vida se reproduz é um caminho para dialogar com o presente e repensar o patriarcalismo do capital e da esquerda, bem como as condições de uma cooperação entre marxismo e feminismo.

Minha argumentação está dividida em quatro partes. Na parte 1, analiso os indícios e os motivos do desenvolvimento teórico insatisfatório da “reprodução” em Marx, concentrando-me em seu conceito reducionista de trabalho e produção e no pressuposto implícito de que apenas a mão de obra industrial assalariada tem poder e conhecimento para subverter o capitalismo e criar as condições materiais para a construção de uma sociedade comunista. Na parte 2, discorro sobre a reação de Marx, na condição de dirigente da Primeira Internacional, às exigências, por parte dos trabalhadores, de uma mudança da estratégia política em relação ao trabalho das mulheres e à vida familiar, confirmando o silêncio dele quanto ao patriarcalismo manifesto de setores da classe trabalhadora masculina inglesa. Na parte 3, comparo a posição aparentemente neutra de Marx em relação à reorganização da vida familiar naquele momento histórico com as consequências de tal rearranjo na vida social e nas relações de classe, argumentando que esse processo representou um instrumento significativo de cooptação dos setores menos importantes da mão de obra industrial. Por fim, na seção 4, faço uma reflexão sobre as consequências políticas de longo prazo da marginalização das mulheres e do trabalho reprodutivo no programa tanto do movimento socialista como da tradição marxista, argumentando que é hora de nos perguntarmos em que medida esse “engano” teórico e político afetou essas duas correntes em sua capacidade de organização e em sua visão da sociedade a ser construída a partir das ruínas do capitalismo.

O que Marx diz sobre reprodução social e reprodução da força de trabalho

Uma chave para compreender o insucesso de Marx em reconhecer as importantes mudanças relativas à vida familiar e às relações entre homens e mulheres que estavam sendo gestadas na Inglaterra do século XIX é o tratamento que ele dá, tanto em O capital como nos Grundrisse, à reprodução da força de trabalho. Essa deveria ter sido uma questão central na teoria política de Marx, considerando-se a função estratégica que o trabalho e a força de trabalho desempenham em sua análise da sociedade capitalista e da organização capitalista do trabalho. Para Marx, a força de trabalho é o motor da acumulação capitalista, a substância da criação de valor, e sua exploração é o terreno sobre o qual se desenrola a luta pela libertação humana. Portanto, as atividades envolvidas na (re)produção dessa preciosa capacidade deveriam ter um lugar central no quadro teórico e político de Marx. Mas, como vimos em outros ensaios deste volume, elas raramente são discutidas por Marx e, quando o são, em geral deixam de reconhecer a contribuição específica do trabalho doméstico das mulheres nesse contexto.

Mesmo quando discute como a mão de obra é reproduzida de geração em geração [8], Marx se cala quanto à contribuição das mulheres no processo e não imagina a possibilidade de um conflito de interesses entre as mulheres e os homens ou entre as mulheres e o Estado relativo à procriação – ainda que em muitos casos, para elas, uma gravidez significasse uma sentença de morte, sobretudo fora do casamento. Não surpreende que, em meados do século XIX, muitas delas tenham sido receptivas à campanha pela difusão da contracepção no interior do movimento operário [9]. Aparentemente alheio ao alto custo da gravidez e da procriação para as mulheres, à angústia que muitas sentiam a cada gravidez indesejada e aos esforços muitas vezes fatais que elas faziam para abortar, Marx fala sobre o “crescimento natural da população”. Ele também defende que “o capitalista pode abandonar confiadamente o preenchimento dessa condição ao impulso de autoconservação e procriação dos trabalhadores” [10] e, na sua crítica em geral mordaz à teoria populacional de Malthus, sugere que o capitalismo não depende da capacidade procriadora das mulheres para a expansão da mão de obra, já que pode, em princípio, satisfazer a necessidade de trabalho por meio de revoluções tecnológicas contínuas, criando periodicamente uma “superpopulação” [11]. Na verdade, enquanto sistema que torna a força de trabalho a essência do valor, o capitalismo tem estado muito interessado nos movimentos demográficos e regulado de maneira estrita a capacidade reprodutiva das mulheres, impondo pesadas penalidades à tentativa de interferir na procriação [12], penalidades essas que estavam em pleno vigor na Europa da épocade Marx [13]. Aliás, a classe capitalista nunca confiou exclusivamente nas mudanças organizacionais na produção para criar superpopulação e definir a mão de obra de dimensões ideais. O próprio Marx reconheceu que a velocidade com que o capital industrial consumia a vida de trabalhadoras e trabalhadores era tal que sempre havia a necessidade de recrutar mais pessoas, a serem buscadas, na maioria das vezes, nas zonas rurais e na contratação de mulheres e crianças. E ele certamente tinha consciência da preocupação que as altas taxas de mortalidade infantil nos distritos industriais causavam à elite. Mesmo no século XX, apesar das contínuas revoluções tecnológicas, o capitalismo contou com a regulação do corpo das mulheres e também com os movimentos migratórios para satisfazer sua necessidade de força de trabalho na quantidade e com a qualidade exigidas para desenvolver as forças produtivas e desmantelar a resistência da classe trabalhadora à exploração [14].

Tal como acontece com o trabalho doméstico, o trabalho envolvido nas atividades produtoras de uma nova geração de trabalhadores e trabalhadoras não faz parte da discussão de Marx sobre a organização capitalista do trabalho e da exploração. Assim, ausente de sua análise do capitalismo está a discussão sobre um campo de atividades e forças – relações afetivas, desejos sexuais, práticas relativas ao trabalho doméstico e à procriação – que intelectuais socialistas anteriores haviam reconhecido como dotadas de potencial político. Em Marx, a paixão sexual e a procriação estão fora ou às margens do universo das relações econômicas capitalistas e dos processos de luta e tomada de decisões de trabalhadores e trabalhadoras. Os cuidados maternos só são mencionados quando se fala da negligência das mulheres da classe trabalhadora em relação às crianças. A prostituta também é invisível como trabalhadora e como sujeito político. Nas palavras de Sheila Rowbotham: “Ela aparece como um indicador da condição da sociedade, não como [membro de] um grupo social em movimento, que está desenvolvendo a consciência histórica” [15]. Retratada como vítima da pobreza e da degradação moral, ela é descrita como parte daquele lumpemproletariado que, em O 18 de brumário de Luís Bonaparte, Marx menospreza como o “refugo de todas as classes” [16]. A visão que Marx tem das trabalhadoras fabris também é reducionista. Vemos seus corpos em sofrimento, as desigualdades às quais são submetidas, mas não nos é revelado como a entrada das mulheres nas fábricas transformou a subjetividade delas, alterou a relação que tinham com os homens, ou se isso ampliou ou reduziu sua capacidade de luta, e de que forma as demandas das mulheres diferiam das dos homens. Exceto por comentários ocasionais sobre o impacto degradante do trabalho agrícola e industrial no “caráter moral” das mulheres e meninas – devido ao excesso de trabalho e à exposição a condições de trabalho promíscuas –, Marx não discute o desempenho das mulheres trabalhadoras. Em O capital, elas permanecem como espectros, representadas apenas como vítimas de abuso, uma imagem em forte contraste com aquela projetada por reformistas da política da época, que as retratavam – principalmente se fossem solteiras e não estivessem encarregadas de crianças – como pessoas que desfrutavam de uma nova noção de liberdade graças ao fato de receberem um salário, saindo de casa muito jovens para “serem donas de si” [17] e se comportarem como homens [18].

Da diversidade do trabalho ao trabalho assalariado e à “produção”

Ao explicar esses silêncios e questionar por que Marx não estendeu sua crítica da economia política a uma “análise detalhada da reprodução social na vida doméstica”, John Bellamy Foster argumentou que, em O capital, Marx estava preocupado em oferecer uma crítica do capitalismo articulada “a partir da perspectiva de sua própria concepção ideal”, isto é, “nos termos de sua lógica intrínseca”; desse ponto de vista, o trabalho reprodutivo ficava fora dos limites da criação de valor” [19]. Marx, escreve Bellamy Foster, “caminhou gradualmente rumo à adoção das contradições do estabelecimento interno e externo do capital como um sistema”. Ou seja, ele adotou a obliteração capitalista do trabalho reprodutivo não remunerado, e é aqui – ao que me parece – que reside o problema. Porque, ao fazer isso, Marx deixou de desvelar as próprias pressuposições da economia política clássica. Em vez de revelar o trabalho reprodutivo não remunerado como a fonte (aliás, o “segredo”) da reprodução da força de trabalho, ele codificou a separação (característica da lógica e da história do desenvolvimento capitalista) entre produção e reprodução, bem como a naturalização desta última como “trabalho de mulheres”. Vale ressaltar que, nos três volumes de O capital, ele relegou as únicas referências feitas ao trabalho doméstico às notas de rodapé [20]. Argumentar – em defesa de Marx – que existe uma diferença entre exploração da força de trabalho e expropriação das condições para sua produção, tais como o trabalho das mulheres e a natureza [21], não será suficiente, dada a alegação de Marx de que toda atividade que produz força de trabalho é um componente essencial da produção capitalista [22].

É preciso mais para explicar por que Marx, escrevendo durante a vigência de um programa governamental que tinha como objetivo reorganizar a vida fabril e familiar, acompanhado por um coro de denúncias contra o colapso da família proletária e o trabalho reprodutivo das mulheres, ignorou tudo isso em sua análise da exploração capitalista.

Talvez ajude saber que ele não estava sozinho em sua interpretação reducionista do trabalho e da luta de classes. Como Federico Tomasello mostrou em L’inizio del lavoro [O início do trabalho], desde os anos 1830, especialmente na França, houve um complexo processo social pelo qual o Estado e o incipiente movimento operário redefiniram o trabalho e a figura do trabalhador de uma maneira que excluía as pessoas não assalariadas e privilegiava quem estava empregado no trabalho industrial [23]. A insurreição histórica do proletariado parisiense de 1830, que Victor Hugo imortalizou em Os miseráveis, seguida um ano depois pela tomada da cidade de Lyon por tecelãs e tecelões revoltados, desencadeou um processo de “integração” de setores selecionados entre a mão de obra rebelde cujo resultado, observa Tomasello, foi o surgimento do trabalhador assalariado, honesto e diligente enquanto figura jurídica, reconhecida pelo Estado como portador de direitos sociais, bem como do direito ao trabalho, que logo se tornou a base do Estado moderno e de todas as Constituições modernas. A escolha do trabalho assalariado como condição privilegiada no que se refere aos direitos sociais e, com ela, o início de uma representação única do mundo do trabalho e da separação das classes laborieuses [pessoas assalariadas] e classes dangereuses [classes perigosas] também marcaram, de acordo com Tomasello, naqueles mesmos anos, o princípio dos movimentos sindical e socialista [24]. Isso indicaria que a concepção excludente de Marx da classe trabalhadora não era produto de uma posição teórica. Em vez disso, também expressava uma operação política em que os interesses de um setor específico da classe trabalhadora foram priorizados, tanto na política institucional como na política radical, e que foi construída uma imagem genérica de trabalhador que canonizou o “ouvrier”, “l’operaio” – o trabalhador industrial geralmente do sexo masculino, branco e assalariado –, em detrimento de um universo mais amplo de sujeitos não assalariados que o capitalismo tem explorado, como trabalhadoras e trabalhadores domésticos, [email protected], pessoas de origem africana escravizadas e outros sujeitos coloniais – uma operação que precedeu o engajamento político de Marx, juridicamente codificada na França no início da década de 1840, cuja análise, entretanto, contribuiu para consolidar, quanto mais se apresentava como resultado de um estudo científico da realidade social.

Nesse processo, muitas lutas que, também na Europa, até meados do século XIX, expressavam a oposição proletária à crescente hegemonia do mercado – motins por comida, contra fixação de preços, ataques a padarias, mercearias e carroças que levavam grãos aos portos para serem exportados [25] – foram apagadas da política radical. Foram lutas que uniram uma ampla população de proletários cujas bases de subsistência estavam sendo destruídas, no início do século XIX, pela crescente comercialização da terra e da produção, como a sujeição dos preços dos grãos às leis de mercado [26]. Como escreve Ahlrich Meyer:

Esta classe trabalhadora pobre consistia em pedintes e errantes em busca de trabalho, campesinato que atuava por dia ou em regime de arrendamento, tecelãos e tecelãs da indústria fabril artesanal protoindustrial, serventes, quebra-galhos das cidades, mão de obra migratória sazonal e das ferrovias, da construção, artesãos e artesãs proletarizados, o proletariado manufatureiro e fabril e, por último, mas não menos importante, a classe que Marx denominou lumpemproletariado, as classes perigosas, homens, mulheres e crianças em sua totalidade, uma classe amplamente mobilizada […] que, pela primeira vez, devido aos processos de migração, também assumiu uma dimensão europeia. [27].

Como Meyer aponta, “em um ciclo de revoltas que durou quase cem anos”, essas massas empobrecidas tiveram de aprender que “sua sobrevivência não era mais segura”, pois as condições para tanto estavam sendo transformadas em condições de capital [28]. Assim, com as mulheres na liderança, “fizeram da questão da subsistência um assunto público”, respondendo com uma “práxis de apropriação social” à “violenta expropriação e separação” dos meios de sua reprodução [29]. Meyer conclui que, se em 1848 o espectro do comunismo rondava a Europa, foi porque um amplo proletariado se recusou a ser condenado à pobreza e à fome e insistiu em revoltas de massa para que seu direito à existência fosse garantido [30].

Para Meyer, foi a partir da derrota dessas lutas e da “sujeição das classes pobres e trabalhadoras a uma nova forma de subsistência” que se pôde construir uma concepção reducionista do trabalho e do trabalhador e “uma teoria do trabalho assalariado” [31].

Seja como for, a redução da classe trabalhadora ao trabalho assalariado tem consequências importantes na obra de Marx que comprometem o poder de sua análise do capitalismo. Ainda que, ao longo de O capital, toda articulação da sociedade capitalista – dinheiro, crédito, renda, maquinaria – esteja sujeita a uma análise mais minuciosa, reelaborada ao longo de centenas de páginas, não encontramos no texto nenhuma análise aprofundada nem da função nem das consequências políticas das diferenças e desigualdades no interior do proletariado e da existência simultânea, no capitalismo, de diferentes regimes de trabalho e formas de exploração. Nem gênero nem etnia aparecem, por exemplo, na discussão proposta por Marx sobre a divisão social do trabalho. Da mesma forma, Marx lamenta que, com o surgimento do trabalho industrial, o homem adulto trabalhador, o pai, se torna um “mercador de pessoas escravizadas” [32], vendendo o trabalho da esposa e das crianças a seus empregadores. Mas ele não questiona como isso foi possível, não nos diz que as mulheres casadas não estavam legalmente autorizadas a receber os salários pelos quais trabalhavam, já que não eram consideradas sujeitos de direito, capazes de estabelecer relações contratuais.

Apenas com a aprovação da Marriage Property Act [Lei do Regime de Bens no Casamento], em 1870, o sistema medieval de amparo, que apagava a existência das mulheres casadas perante a lei, chegou ao fim [33]. A subordinação das mulheres aos homens era tão arraigada na Inglaterra que o costume, popular entre o operariado, de terminar um casamento vendendo a esposa no mercado local se prolongou até o fim do século XIX, com casos relatados até mesmo em 1901 e 1913 [34]. Isso explica por que as relações patriarcais que prevaleciam no chamado “sistema de produção domiciliar” não desapareceram quando a indústria artesanal foi substituída pela industrialização, mas foram reconstituídas nas fábricas – de modo que, pelo menos em uma fase inicial, a produção foi novamente estruturada de acordo com uma hierarquia de gênero, com o pai subcontratando o trabalho da esposa e das crianças ou vendendo o trabalho deles junto com o seu e reclamando o direito ao salário de todos.

Se Marx tivesse analisado as raízes e implicações sociais dessa norma patriarcal, ele teria reconhecido a existência de uma anomalia fundamental nas relações capitalistas. Teria percebido que a condição que ele estipulou para o desenvolvimento do trabalho assalariado – isto é, a “liberdade” concebida como a “posse do próprio corpo” e a capacidade de trabalhar – nunca foi estendida às mulheres. Além disso, ele teria percebido que os direitos das mulheres pelos quais as feministas de seu tempo estavam lutando, principalmente em relação ao lugar das mulheres no casamento e na família, também eram direitos trabalhistas, já que “ser amparadas” pelos maridos afetava a capacidade que elas tinham de manter um emprego, controlar seus salários e participar do movimento operário, pois o poder que os homens tinham de limitar as ações das esposas certamente restringia a capacidade de luta das mulheres.

A questão das relações patriarcais no interior da classe trabalhadora foi de especial importância na época de Marx, uma vez que, exatamente nos anos em que ele estava começando a trabalhar em O capital, a oposição dos trabalhadores do sexo masculino à presença de mulheres nas fábricas se intensificou depois da introdução de um sistema de salários individuais que deu às mulheres o controle sobre sua renda. Como Judy Lown revela em Women and Industrialization [Mulheres e industrialização], essa medida foi enfrentada com hostilidade pelos trabalhadores homens, resultando em tentativas de definir o trabalho das mulheres como não qualificado e de confiná-las às piores tarefas [35]. Os sindicatos também defenderam os “princípios do patriarcado”, se mobilizando a fim de aprovar uma “legislação protetiva” e apoiando a demanda dos trabalhadores do sexo masculino por um “salário familiar” que lhes permitisse sustentar uma esposa que supostamente não trabalhasse [36]. Em meados do século XIX, o “modelo do homem provedor” foi um argumento agregador das organizações da classe trabalhadora [37]. Repetindo, O capital não faz nenhuma menção a essa luta marcada pela questão de gênero, embora ela enfraqueça de forma convincente a unidade da classe trabalhadora e coloque em risco os meios de subsistência das mulheres. Novamente, tudo o que encontramos nos três volumes da obra é uma nota de rodapé afirmando o fato de “a limitação do trabalho feminino e infantil nas fábricas inglesas ter sido conquistada ao capital pelos trabalhadores masculinos adultos” [38].

Gênero, trabalho e salário familiar na Primeira Internacional dos Trabalhadores

Será que os silêncios de Marx em questões tão cruciais foram produto da conveniência política? Essa é uma questão legítima, já que sabemos, por meio de sua correspondência com Engels, que Marx sempre viu seu trabalho em O capital como diretamente ligado à política e aos debates no interior da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), da qual ele foi dirigente e fundador [39]. Também sabemos que os direitos das mulheres foram assunto muito debatido na organização, que estava tão dividida quanto ao tema que levou sete meses após sua fundação para aprovar a qualificação das mulheres como membros e dois anos até que fosse atribuído a uma mulher bastante conhecida, Harriet Law, um posto de liderança como integrante do Conselho Geral. Ainda assim, Marx não fez nenhuma menção à situação especial das mulheres em seu discurso inaugural. De acordo com os registros, ele “não abriu nenhum espaço específico para as mulheres trabalhadoras, cuja opressão era, ao que parece, considerada apenas uma parte daquela sofrida pelos trabalhadores”[40]. Marx também participou da campanha, no início dos anos 1870, para banir a Seção 12, a ala mais feminista [41] da AIT, que apoiava o sufrágio feminino, o “amor livre” e o que sua líder, Victoria Woodhull, chamava de “liberdade social”, ou seja, a independência das mulheres em relação ao salário masculino e à escravização doméstica inscrita no casamento [42]. Vale enfatizar que o salário foi usado no processo de expulsão de integrantes, já que o Conselho Geral da AIT (em grande parte sob influência de Marx) “introduziu uma regra de ‘dois terços’, sustentando que dois terços dos membros de qualquer seção da AIT tinham que ser da classe trabalhadora assalariada, uma decisão que favorecia a participação de trabalhadores nas negociações e ofícios, mas que excluía quase todas as mulheres interessadas nas reformas” [43]. Essa expulsão teve um profundo impacto no desenvolvimento do movimento revolucionário da classe trabalhadora, talvez tão importante quanto a cisão entre anarquistas e comunistas que contrapôs Marx a Bakunin, pois colocou as questões sobre relações de gênero, sexualidade e o poder das mulheres na esfera do futuro ou, pior, na zona proibida dos direitos burgueses.

Como um dos principais porta-vozes da Internacional, Marx sem dúvida sabia que a maioria dos homens que dela participavam apoiava uma estrita limitação da contratação de mulheres nas fábricas e a instituição do salário familiar, e ele provavelmente foi ambíguo quanto ao tema, assim como foi em relação à destruição da família na época da manufatura, o que ele lamentou, mas considerou útil à libertação de mulheres e crianças da dominação patriarcal [44]. Sobre sua postura indefinida em relação ao “salário familiar”, temos o testemunho de Harriet Law, única mulher a integrar o Conselho Geral da Internacional. Segundo objeção de Law à intervenção de Marx em um debate sobre a questão – conforme registrado nas atas do Conselho Geral da Primeira Internacional –, Marx era a favor da integração das mulheres ao trabalho industrial, mas afirmou que as condições sob as quais mulheres e crianças trabalhavam eram abomináveis [45], fortalecendo, assim, a posição dos defensores do salário familiar [46]. Law acreditava que Marx havia traído o interesse das mulheres da classe trabalhadora e registrou sua objeção. É possível, entretanto, que Marx considerasse a instauração do “salário familiar” e a redução do trabalho das mulheres nas fábricas um fenômeno temporário, já que o avanço da industrialização exigiria a participação das mulheres e (como ele escreveu no Livro I) criaria “o novo fundamento econômico para uma forma superior da família e da relação entre os sexos” [47].

Se foi esse o pressuposto de Marx ao apoiar o “salário familiar”, tratou-se de um grande erro de cálculo. Nos anos 1870, estava em curso um histórico programa de reformas que, na virada do século, transformou as relações de classe e disseminou o conflito de classes, enviando muitas das operárias fabris de volta para casa e inaugurando um novo tipo de regime patriarcal que pode ser intitulado “patriarcado do salário” [48]. Com essas mudanças, o medo de uma revolução da classe trabalhadora, que assombrava a classe capitalista desde 1848, foi amplamente dissipado. Em 1880,

tanto na Inglaterra quanto do outro lado do Atlântico, surgiu uma nova mão de obra predominantemente masculina que talvez não tenha olhado para as leis da organização capitalista do trabalho “como leis naturais” – como Marx havia previsto que aconteceria no curso do desenvolvimento capitalista –, mas que foi social e politicamente domesticada, tendo, assim, novos motivos para “se sentir confortável quando não estava trabalhando” [49].

Conclusão

Neste texto, argumentei que a atenção limitada dada por Marx, em suas principais obras, a questões como família, atividades reprodutivas e hierarquias de gênero – aquelas que existiam na primeira fase da industrialização e aquelas que estavam sendo produzidas em resposta à crise reprodutiva de meados do século XIX – não pode ser atribuída apenas às condições de vida das famílias da classe trabalhadora durante a primeira fase da Revolução Industrial ou a um equívoco machista. Ao contrário, assim como o movimento socialista contemporâneo, Marx adotou um conceito limitado de trabalho e de trabalhador no capitalismo, em grande medida porque superestimou o papel do desenvolvimento capitalista na constituição de uma sociedade comunista. Ele também superestimou o poder da industrialização em criar a base material para uma sociedade mais igualitária e estava tão convencido de que a classe trabalhadora industrial assalariada era o sujeito revolucionário que se dispôs a sacrificar, em nome da causa desse grupo, questões e interesses que, em sua visão, não estavam diretamente relacionados ao confronto entre capital e trabalho, como o desejo que as mulheres tinham de se libertar da dependência social e econômica dos homens. Assim, embora ele possa ter reconhecido que a demanda por um “salário familiar” e por restrições ao trabalho das mulheres implicava, de forma inelutável, a consolidação de relações patriarcais no interior da classe trabalhadora, ele aceitou tal arranjo, talvez confiante que o processo revolucionário inevitavelmente desencadeado pelo desenvolvimento capitalista corrigiria a situação.

Tecer essa crítica a Marx não diminui o reconhecimento da poderosa contribuição que ele deu à nossa compreensão da sociedade capitalista e (indiretamente) à teoria feminista. Como a recente comemoração do aniversário de publicação de O capital demonstrou, 150 anos depois, até quem o critica precisa tomar a análise de Marx como ponto de referência para decifrar os movimentos do capital e as perspectivas de seu desenvolvimento futuro. Se a teoria do valor-trabalho ainda descreve o processo de acumulação do capital ou não e se podemos explicar a política econômica atual por meio da queda na taxa de lucro continuam sendo questões tão importantes quanto o foram no fim da vida de Marx, e, atualmente, é difícil imaginar discutir relações sociais e políticas que não se apoiem em conceitos como mercantilização, alienação e exploração. A teoria feminista também tem se fortalecido pela metodologia de Marx, que enfatiza o caráter historicamente construído da realidade social e, assim, rejeita conceitos identitários naturalizados/perpetuadores.

Mais importante, Marx nos deu ferramentas para detectar como o capital se infiltra nas esferas mais íntimas da vida doméstica e afetiva. Mas as mesmas ferramentas também demonstram os limites de sua teoria. Demonstram, em especial, que o silêncio dele sobre o papel das atividades reprodutivas no capitalismo não é uma omissão irrelevante, já que o levou a subestimar o poder das divisões que o capitalismo implantou no corpo do proletariado e a confiar no desenvolvimento capitalista como desenvolvimento de uma classe trabalhadora revolucionária.

Destacar esses limites na obra de Marx é particularmente importante nos dias de hoje, quando, diante das forças do desenvolvimento capitalista, que parecem destrutivas e ilimitadas, devemos nos perguntar por que a revolução inevitável que Marx previu não aconteceu. Na verdade, quando buscamos uma resposta para essa questão, é útil refletirmos sobre como, até recentemente, a descrição marxista da exploração capitalista ignorou o maior setor de trabalho e de mão de obra da Terra e também excluiu da luta de classes uma série de fatores cruciais na vida de trabalhadoras e trabalhadores e na relação que essas pessoas mantêm com o capital e o Estado. Não há como negar o fato de que as mulheres, o trabalho doméstico, o trabalho do sexo e a criação das crianças estão ausentes da teoria e da militância marxista/comunista e que, com raras exceções, para a tradição marxista a mão de obra é branca e masculina. É exemplar o modo como os movimentos socialista/comunista ignoraram, quando não baniram, preocupações que eram de extrema importância para mulheres e homens do proletariado, como o controle de natalidade. Como Seccombe relata, mesmo nos anos 1910 e 1920, os partidos socialistas se opuseram ao uso de contraceptivos e à limitação da família, apontando-os como uma trama malthusiana para “colocar a culpa da pobreza nos pobres”. Clara Zetkin, por exemplo, denunciou o controle de natalidade, chamando-o de “indulgência individualista” e argumentando que “o proletariado deve considerar a necessidade de ter o máximo de combatentes possível” [50]. Deve-se observar, nesse contexto, que apenas em 1891 o SPD [Partido Social-Democrata da Alemanha] “aceitou oficialmente os direitos iguais para as mulheres, e apenas em um sentido legal bastante limitado” [51]. Gerações de marxistas também enxergaram a trabalhadora doméstica em tempo integral como um sujeito atrasado, incapaz de se organizar. De forma característica, quando, nos anos 1940, Mary Inman, trabalhadora fabril de Los Angeles, salientou a produtividade do trabalho doméstico em sua obra In Woman’s Defense [Em defesa da mulher] (1945), o Partido Comunista dos Estados Unidos a proibiu de continuar ensinando em sua escola de educação operária [52]. Em moldes similares, veja-se também a inabilidade de marxistas, nos anos 1960 e 1970, em reconhecer a importância do movimento feminista e até mesmo da luta feminista mais específica contra o trabalho doméstico não remunerado como um fator determinante da definição do valor da força de trabalho.

Muita coisa mudou na atualidade em comparação aos anos 1970, quando as feministas eram rotineiramente acusadas de dividir a classe trabalhadora. O avanço dos movimentos estudantil, feminista e ambiental, bem como a crise do trabalho assalariado, forçaram os grupos marxistas a olhar além da fábrica, para a escola, o meio ambiente e, mais recentemente, a “reprodução social” como terrenos cruciais para a reprodução da mão de obra e para a luta da classe trabalhadora. Mas, com algumas exceções, persiste a inabilidade da esquerda marxista em enxergar a reprodução da vida humana e da força de trabalho, bem como as hierarquias de gênero erguidas sobre ela, como elementos-chave do processo de acumulação. Consideremos a teorização, por marxistas autonomistas, do domínio do “trabalho imaterial” na atual fase do desenvolvimento capitalista e o argumento associado (que expande a visão de Marx em “Fragmento sobre as máquinas”, nos Grundrisse) [53] de que o capitalismo está operando no sentido de eliminar o trabalho vivo do “processo de produção”; essa teorização ignora que o trabalho reprodutivo, sobretudo na forma do cuidado das crianças, não pode ser reduzido à industrialização e é um exemplo paradigmático da interpenetração de elementos emocionais e materiais na maioria das formas de trabalho. Consideremos também a contínua relutância de um grande número de marxistas em criticar a teoria de Marx de que o processo revolucionário é baseado na globalização da produção capitalista, ainda que hoje esteja perfeitamente claro que isso só pode ocorrer ao custo da destruição dos meios de reprodução de muitas populações por todo o planeta. Na verdade, se aceitássemos a tese de Marx sobre o caráter progressivo do capitalismo, teríamos de rejeitar algumas das lutas mais poderosas em curso no mundo por serem ineficazes, se não completamente reacionárias. São, pois, evidentemente lutas contra o desenvolvimento capitalista, desenvolvimento esse que, aos olhos das comunidades de povos indígenas que lutam, por exemplo, contra a destruição de suas terras e culturas por mineradoras, empresas de extração de petróleo, construtoras de usinas hidrelétricas ou outros “megaprojetos”, não pode ter outro nome senão “violência” [54].

Em resumo, se o “cerne revolucionário” da teoria de Marx deve ser resgatado do amontoado de interpretações desenvolvimentistas e de usos sob os quais foi soterrada, sem dúvida inspirados por Marx, teremos de repensar o marxismo e o capitalismo do ponto de vista do processo de reprodução, como parte de nós já tem feito há décadas, reconhecendo que esse é o terreno mais estratégico tanto na luta contra o capitalismo quanto na construção de uma sociedade não exploradora.


[1] Luciano Ferrari Bravo, “Vecchie e nuove questioni nella teoria dell’imperialismo”, em Imperialismo e classe operaia multinazionale (Milão, Feltrinelli, 1975), p. 20-1.

[2] Karl Marx, Grundrisse: Foundations of the Critique of Political Economy (Londres, ­ elican, 1973), p. 690-710 [ed. bras.: Grundrisse – manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política, trad. Mario Duayer e Nélio Schneider, São Paulo, Boitempo, 2011, p. 578-89].

[3] Para defensores dessa noção, ver Michael Hardt e Antonio Negri, Multitude: War and Democracy in the Age of Empire (Minneapolis, University of Minnesota Press, 2004) [ed. bras.: Multidão: guerra e democracia na era do império, trad. Clóvis Marques, Rio de Janeiro, Record, 2005]; Carlo Vercellone, “From Formal Subsumption to General Intellect: Elements for a Marxist Reading of the Thesis of Cognitive Capitalism”, Historical Materialism, v. 15, 2007, p. 13-36. Para uma crítica do conceito de “capitalismo cognitivo”, ver George Caffentzis, “A Critique of ‘Cognitive Capitalism’, em Letters of Blood and Fire: Work, Machines, and the Crisis of Capitalism (Oakland, PM and Common Notions, 2013).

[4] O “salário familiar” é definido como o salário necessário para o sustento do trabahador, sua esposa e as crianças do casal. Os cálculos levam em consideração a família nuclear de tamanho médio, o que pode variar em cada país e contexto histórico. Em alguns países, inclui-se um valor adicional para cada criança. Difere do salário mínimo, que se baseia no valor necessário para a subsistência de um indivíduo adulto. (N. T.)

[5] Wally Seccombe, Weathering the Storm. Working-Class Families from the Industrial Revolution to the Fertility Decline (Londres, Verso, 1993). Luciano Ferrari Bravo, “Vecchie e nuove questioni nella teoria dell’imperialismo”, em Imperialismo e classe operaia multinazionale (Milão, Feltrinelli, 1975), p. 20-1. Karl Marx, Grundrisse: Foundations of the Critique of Political Economy (Londres, Pelican, 1973), p. 690-710 [ed. bras.: Grundrisse – manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política, trad. Mario Duayer e Nélio Schneider, São Paulo, Boitempo, 2011, p. 578-89].

Para defensores dessa noção, ver Michael Hardt e Antonio Negri, Multitude: War and Democracy in the Age of Empire (Minneapolis, University of Minnesota Press, 2004) [ed. bras.: Multidão: guerra e democracia na era do império, trad. Clóvis Marques, Rio de Janeiro, Record, 2005]; Carlo Vercellone, “From Formal Subsumption to General Intellect: Elements for a Marxist Reading of the Thesis of Cognitive Capitalism”, Historical Mate- rialism, v. 15, 2007, p. 13-36. Para uma crítica do conceito de “capitalismo cognitivo”, ver George Caffentzis, “A Critique of ‘Cognitive Capitalism’, em Letters of Blood and Fire: Work, Machines, and the Crisis of Capitalism (Oakland, PM and Common Notions, 2013).

[6] Karl Marx e Friedrich Engels, The Communist Manifesto (Harmondsworth, Penguin, 1967), p. 88 [ed. bras.: Manifesto Comunista, trad. Álvaro Pina e Ivana Jinkings, São Paulo, Boitempo, 1998, p. 46].

[7] Ahlrich Meyer, “A Theory of Defeat. Marx and the Evidence of the Nineteenth Century”, em Marcel van der Linden e Karl Heinz Roth (orgs.), Beyond Marx: Theorising the Global Labour Relations of the Twenty-First Century (Boston, Brill, 2014), p. 274-6.

[8] Karl Marx, Capital, v. I (Londres, Penguin, 1990), p. 711-24 [ed. bras.: O capital: crítica da economia política, Livro I: O
processo de produção do capital, trad. Rubens Enderle, São Paulo,
Boitempo, 2011, p. 415].

[9] Importante registrar aqui o trabalho organizacional de Francis Place, que já em 1822 defendia o uso de métodos contraceptivos para que trabalhadoras e trabalha- dores escapassem ao destino malthusiano e começassem a controlar a própria taxa de natalidade. Trabalhador, pai de quinze crianças, Place lançou uma campanha para divulgar suas ideias sobre o assunto, distribuindo panfletos dirigidos a casais e dando continuidade a seus esforços depois de se tornar um dos fundadores do movimento cartista. Muito popular entre a classe trabalhadora, especialmente nos distritos do norte, Place é considerado um dos pais do movimento de controle de natalidade. Sobre esse tema, ver Norman Edwin Himes, Medical History of Contraception (Nova York, Schocken, 1970 [1936]).

[10] Karl Marx, Capital, v. I, cit., p. 718 [ed. bras.: O capital, Livro I, cit., p. 647].

[11] Ibidem, p. 784-5 [p. 710-1]. Para uma crítica da teoria da “superpopulação” em Marx, ver Max Henninger, “Poverty, Labor, Development: Towards a Critique of Marx’s Con- ceptualizations”, em Marcel van der Linden e Karl Heinz Roth (orgs.), Beyond Marx, cit., p. 301-2. Ele diz: “De forma semelhante aos esquemas de reprodução em O capital, Livro II, a teoria da superpopulação relativa de Marx elimina a possibilidade de um compor- tamento autônomo da classe destituída e não reconhece nenhuma outra lógica exceto aquela da valorização do capital”.

[12] Sobre as relações entre a concepção capitalista de trabalho como essência da criação de valor e a regulação da capacidade reprodutiva das mulheres, ver Silvia Federici, Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation (Nova York, Autonomedia, 2004) [ed. bras.: Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva, trad. Coletivo Sycorax, São Paulo, Elefante, 2017], capítulo 3, em especial a discussão sobre a caça às bruxas na Europa.

[13] Na Inglaterra, uma lei de 1803 tornou o aborto crime a ser punido com açoitamento, degredo e até a morte, caso houvesse provas de gravidez em estágio avançado. O estatuto foi promulgado novamente em 1828. Depois, o Offences Against Persons Act [Lei de Delitos contra Pessoas], de 1861, estabeleceu que qualquer pessoa que tentasse abortar, se sentenciada, receberia a pena vitalícia de trabalhos forçados. Em todos os países da Europa, na época de Marx, a interferência na procriação foi considerada crime doloso, a ser punido com muitos anos de prisão.

[14] Para uma análise veemente do controle do Estado sobre as taxas de natalidade e fertilidade, bem como das políticas migratórias em relação à expansão e à contração do mercado de trabalho, ver Mariarosa Dalla Costa, “Reproduction and Emigration (1974)”, em Camille Barbagallo (org.), Women and the Subversion of the Community: A Mariarosa Dalla Costa Reader (Oakland, PM, 2019), p. 70-108. Ampliando a tese de Mariarosa Dalla Costa, podemos certamente dizer que é à recusa das mulheres em arcar com o ônus de gerar tantas crianças que devemos atribuir a formação de um mercado de trabalho global, bem como o surgimento de movimentos “pró-vida”, cujas atividades intimidatórias nos Estados Unidos têm sido defendidas pela principal instituição do país, a Suprema Corte.

[15] Sheila Rowbotham, Women, Resistance, and Revolution (Nova York, Vintage, 1974), p. 63.

[16] Karl Marx, The 18th of Brumaire of Louis Bonaparte (Nova York, International Publishers,

1963), p. 75 [ed. bras.: O 18 de brumário de Luís Bonaparte, trad. Nélio Schneider, São Paulo, Boitempo, 2011, p. 91].

[17] Ivy Pinchbeck, Women Workers and the Industrial Revolution: 1750-1850 (Nova York, F. S. Crofts & Co., 1930), p. 311-3.

[18] Ver, por exemplo, a intervenção de lorde Ashley durante os debates parlamentares em torno da Ten Hours Bill [Lei das Dez Horas], de 1847. Ele lamenta que “as mulheres não executam apenas o trabalho, mas ocupam os lugares dos homens; elas estão formando vários clubes e associações e estão adquirindo aos poucos aqueles privilé- gios reservados ao sexo masculino”, Judy Lown, Women and Industrialization. Gender at Work in 19th Century England (Minneapolis, University of Minnesota Press, 1990), p. 181 e 44-5.

[19] John Bellamy Foster, “Women, Nature and Capital in the Industrial Revolution”, Monthly Review, v. 69, n. 8, jan. 2018, p. 11.

[20] Karl Marx, Capital, v. I, cit., p. 517-8, notas 38 e 39 [ed. bras.: O capital, Livro I, cit., p. 469-70, notas 121 e 122].

[21]John Bellamy Foster, “Women, Nature and Capital in the Industrial Revolution”, cit., p. 12-3. Para provar o argumento, Bellamy Foster cita um texto de Eleanor Marx no qual ela fala da “expropriação” dos direitos das mulheres e dos trabalhadores.

[22] “Portanto, o trabalho produtivo seria aquele que produz mercadoria ou que produz, treina, desenvolve, mantém e reproduz diretamente a própria força de trabalho”, Karl Marx, Theories of Surplus Value, Part 1 (Moscou, Progresso, 1969), p. 172.

[23] Federico Tomasello, L’inizio del lavoro. Teoria politica e questione sociale nella Francia di prima metà Ottocento (Roma, Carrocci Editore, 2018), esp. p. 96-8 e 105-6.

[24] Tomasello enfatiza o importante papel dos grupos sansimonianos na centralização da figura do trabalhador industrial e no desaparecimento do programa do movimento socialista/da classe trabalhadora de uma série de questões que tinham sido cruciais para as lutas anticapitalistas anteriores, como a “crítica do trabalho e da tecnologia, da família e do sistema criminal”. Ibidem, p. 132, nota 38.

[25] Sobre o papel das mulheres nos protestos sociais e na ação coletiva na Inglaterra do início do século XIX, ver Sheila Rowbotham, Women, Resistance, and Revolution, cit, p 102-104

[26] Sobre esse assunto, ver Ahlrich Meyer, “A Theory of Defeat”, cit., p. 259-62.

[27] Ibidem, p. 260-1.

[28] Ibidem, p. 260.

[29] Idem.

[30] Ibidem, p. 261-2.

[31] Ibidem, p. 264.

[32] Como ele diz no Livro I de O capital: “Antes, o trabalhador vendia sua própria força de trabalho, da qual dispunha como pessoa formalmente livre. Agora, ele vende mulher e filho. Torna-se mercador de escravos. A demanda por trabalho infantil assemelha-se com frequência, também em sua forma, à demanda por escravos negros, como se costumava ler em anúncios de jornais americanos”. Karl Marx, Capital, v. I, cit., p. 519 [ed. bras.: O capital, Livro I, cit., p. 469-70].

[33] Da cordo com William Blackstone, cujo tratado Commentaries on the Laws of England [Comentários sobre as leis da Inglaterra] sistematizou as práticas legais e judiciais da burguesia inglesa: “Pelo casamento, a mulher em pessoa ou sua existência legal ficava em suspenso ou era ao menos incorporada ou consolidada no marido, sob cuja tutela, proteção e amparo ela realiza todas as coisas e por isso é chamada, em nossa lei, de ‘femme covert’”, em Lee Holcombe, Wives and Property. Reform of the Married Women’s Property Law In Ninenteenth Century England (Toronto/Buffalo, University of Toronto Press, 1983), p. 25-6.

[34] Sobre a venda de esposas, ver E.P. Thompson, Customs in Common. Studies in Traditional Popular Culture (Nova York, The New, 1991) [ed. bras.: Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional, trad. Rosaura Eichemberg, São Paulo, Companhia das Letras, 1998]. De acordo com Thompson, que reuniu documentos sobre essa prática, a venda ou troca de uma esposa para serviços sexuais ou domésticos acontecia ocasionalmente em muitos lugares e épocas, na maioria das regiões da Inglaterra, acima de tudo entre trabalhadores braçais, como mineiros, padeiros, limpadores de chaminé, ferreiros, pedreiros, oleiros, tecelões, cortadores de pedras e muitas outras ocupações das classes de renda mais baixa (p. 408-9 e 413-4). Tolerado pela lei, o costume era tão arraigado que as vendas de esposas são registradas até nos primeiros 25 anos do século XX. Em alguns casos, as instituições que abrigavam a população mais pobre forçavam os maridos a vender as esposas para não precisarem sustentá-las. Era a maneira mais rápida, entre as classes de menor renda, de pôr fim a um casamento. De acordo com o costume, depois de fazer a mulher desfilar com uma correia em volta do pescoço, do braço ou da cintura, o marido a leiloava publicamente e a entregava ao proponente da maior oferta.

[35] Judy Lown, Women and Industrialization, cit., p. 107.

[36] Ibidem, p. 213.

[37] Wally Seccombe, Weathering the Storm, cit., p. 111-24.

[38] Karl Marx, Capital, v. I, cit., p. 519, nota 40 [ed. bras.: O capital, Livro I, cit., p. 469, nota 122].

[39] Sobre isso, ver William A. Pelz, “Capital and the First International”, em Ingo Schmidt e Carlo Fanelli (orgs.), Reading Capital Today (Londres, Pluto, 2017), p. 36-7 e seg.

[40] Christine Fauré, Political and Historical Encyclopedia of Women (Nova York, Routledge, 2003), p. 345-6.

[41] Dado que a maioria das seções da AIT era identificada pelo setor de produção em que seus membros, em grande parte imigrantes de origem alemã, estavam empregados, a Seção 12 era dominada por radicais estadunidenses (com frequência chamados “internacionalistas ianques”). Quando as duas facções começaram a discutir, o próprio Marx recomendou a expulsão daquela que dava “primazia à questão das mulheres em detrimento da questão trabalhista” (Nancy Folbre, “Socialism, Feminist and Scientific”, em Marianne A. Ferber e Julie A. Nelson, orgs., Beyond Economic Man: Feminist Theory and Economics, Chicago, University of Chicago Press, 2009, p. 103, nota). Ecoando Marx, um membro da Seção 1 defendeu a expulsão: “Esses absurdos sobre os quais falam, sufrágio feminino e amor livre, podem servir a consideração futura, mas a questão que nos interessa, como homens da classe trabalhadora, é a do trabalho e dos salários”, Amanda Frisken, Victoria Woodhull’s Sexual Revolution: Political Theater and Popular Press in Nineteenth-Century America (Filadélfia, University of Pennsylvania Press, 2004), p. 44.

[42] Ela escreveu: “Ouvi mulheres responderem, quando essa dificuldade lhes foi apresentada: ‘Não podemos excluir os homens como somos forçadas a [excluir] as mulheres, já que dependemos deles para nosso sustento” (citada em Amanda Frisken, Victoria Woodhull’s Sexual Revolution, cit., p. 39).

[43] Ibidem, p. 44.

[44] Ver Karl Marx, Capital, v. I, cit., p. 620 [ed. bras.: O capital, Livro I, cit., p. 560].

[45] Christine Fauré, Political and Historical Encyclopedia of Women, cit., p. 346.

[46] Interessante, nesse contexto, que uma das poucas referências à luta das mulheres na obra de Marx é à mobilização das esposas em apoio à demanda de seus maridos pelo “salário familiar”. Como Heather A. Brown relata, Marx, em um artigo de 1853, descreveu os “esforços das mulheres para garantir que os homens recebessem um ‘salário familiar’”, citando um argumento dos organizadores de que todo homem deveria receber um salário justo para que “pudesse sustentar a si mesmo e à sua família confortavelmente”, Heather A. Brown, Marx on Gender and the Family (Boston, Brill, 2012), p. 103.

[47] Karl Marx, Capital, v. I, cit., p. 620-1 [ed. bras.: O capital, Livro I, cit., p. 560].

[48] Silvia Federici, Caliban and the Witch, cit. [ed. bras.: Calibã e a bruxa, cit.].

[49] A referência, aqui, é ao comentário de Marx na seção de Manuscritos econômico-filosóficos em que ele discute o “trabalho alienado”; uma vez que o trabalho no capitalismo é uma atividade alienante, “o trabalhador só se sente, por conseguinte e em primeiro lugar, junto a si [quando] fora do trabalho e fora de si [quando] no trabalho. Está em casa quando não trabalha e, quando trabalha, não está em casa. O seu trabalho não é, portanto, voluntário, mas forçado, trabalho obrigatório”, Karl Marx, Economic and Philosophical Manuscripts of 1844 (Moscou, Foreign Languages, 1961), p. 72 [ed. bras.: Manuscritos econômico-filosóficos, trad. Jesus Ranieri, São Paulo, Boitempo, 2004, p. 82]. Esse comentário foi muitas vezes criticado por feministas como um exemplo a mais da desvalorização, por Marx, das atividades reprodutivas.

[50] Wally Seccombe, Weathering the Storm, cit., p. 164-6, sobretudo p. 165.

[51] Sheila Rowbotham, Women, Resistance, and Revolution, cit., p. 80.

[52] Sobre esse tópico, ver Kate Weigand, Red Feminism. American Communism and the Making of Women’s Liberation (Baltimore, The Johns Hopkins University Press, 2001).

[53] Karl Marx, Grundrisse, cit., p. 690-710 [ed. bras.: Grundrisse, cit., p. 578-89].

[54] Naomi Klein, This Changes Everything: Capitalism vs. Climate (Nova York, Simon and Schuster, 2014).

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