Uma brecha para a esquerda em São Paulo

Na maior cidade brasileira, eleições municipais podem testar resistência popular ao conservadorismo. Embora forte, direita está rachada, entre o bolsonarismo e os ultraliberais. Guilherme Boulos tem potencial para virar o jogo

As eleições municipais de 2020 chegaram e prometem reproduzir em cada cidade, principalmente nas capitais, as grandes disputas políticas nacionais do Brasil na atualidade. Em muitos municípios, o que se deve ver é a disputa entre as várias facetas da agenda liberal-conservadora, muitas representadas por bolsonaristas, e os grupos de esquerda que se opõem ao Presidente.

Nestas batalhas eleitorais, uma, especificamente, tem chamado a atenção do país. Em São Paulo, coração financeiro e maior cidade brasileira, a disputa entre dois espectros da direita liberal e uma esquerda em ascensão ganham contornos verdadeiramente nacionais.

Um destes personagens é Russomanno, ligado à Igreja Universal e à Record e legítimo representante do bolsonarismo em terras paulistanas. Acostumado a largar na frente nas pesquisas pela alta exposição diária que tem na TV que o apadrinha, Russomanno deve apostar na aliança entre as propostas liberais na economia e o ultraconservadorismo neopentecostal que agrada um enorme contingente do eleitorado evangélico. Uma verdadeira “crivellização” de São Paulo que enfim daria a Bolsonaro maior poder sobre a cidade.

Não tão distante do espectro político, Bruno Covas é outro que larga bem. Com uma Prefeitura que lhe caiu no colo sem muito esforço, após Doria virar Governador, Covas tem seguido à risca o programa liberalizante de privataria e austeridade pensado pelo ex-Prefeito. Aliás, pode-se dizer que Covas é uma versão um pouco menos marqueteira de Doria.

Em resumo, o que se tem aqui é o famigerado “BolsoDoria” em uma disputa interna de poder. Extremamente próximos ideologicamente, com discursos ultraliberais e alinhados à bancada da bala durante as eleições de 2018, na qual se aliaram, apenas o ego e o projeto pessoal de poder colocaram Doria e Bolsonaro em conflito. Conflito este que se reproduzirá por meio de seus representantes nestas eleições municipais: Covas e Russomanno.

Mas não é só a direita que desponta em São Paulo. Nesta disputa eleitoral, uma força inédita em terras paulistanas parece enfim dar as caras. Guilherme Boulos, candidato a Presidente pelo PSOL em 2018, agora mostra-se a opção mais viável para uma vitória da esquerda na Prefeitura. Inédita porque, pela primeira vez, a liderança da esquerda na cidade de São Paulo passa para as mãos do PSOL, a exemplo do que já se viu no Rio de Janeiro nos últimos anos.

Sempre se colocando entre a 2ª e a 3ª colocação desde que as pesquisas de intenção de voto se iniciaram, Boulos mostra reais chances de alcançar o 2º turno. E isso tudo com um programa que marcadamente se opõe ao projeto liberalizante e conservador da dupla “BolsoDoria”, sem qualquer timidez em se colocar à esquerda do espectro político.

De fato, não se pode reduzir a importância de que, em meio à onda de direita que atingiu o Brasil, boa parte da população da maior cidade do país mostra-se aberta a um projeto de esquerda que amplie o Estado Social, combata as desigualdades e garanta o respeito à cidadania e aos Direitos Humanos. Não à toa, a campanha de Boulos tem apostado no mote de “virar o jogo” e transformar São Paulo na capital da resistência do país.

Uma vitória da esquerda, sem conchavos e sem conciliações com a agenda bolsonarista, em pleno centro financeiro brasileiro, realmente terá um poder transformador para o resto do país. Aliada a outras vitórias de uma nova esquerda em capitais importantes, como Porto Alegre e Belém, a eleição paulistana teria tudo para representar um novo momento político para o Brasil. Sem dúvidas, se São Paulo de fato virar a capital da resistência, o povo brasileiro poderia começar a sonhar com novos tempos muito diferentes do que os que vivemos hoje. Tempos melhores em que enfim poderemos superar toda a destruição causada pelo bolsonarismo.

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Um comentario para "Uma brecha para a esquerda em São Paulo"

  1. José Mário Ferraz disse:

    Embora seja a melhor opção, a propensão gastronômica do peru que é a mesma do brasileiro dificilmente deixará os paulistas elegerem o Boulos.

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