Peru: Crise aguda, eleições decepcionantes

Novo Congresso, eleito para 16 meses, tem forças pulverizadas e mira-se na disputa presidencial de 2021. Fujimorismo perde cadeiras, mas ultradireita e evangélicos crescem. Esquerda, cambaleante, tentar articular movimento social para Constituinte

Por Nicolás Lynch, no Nodal | Tradução: Rôney Rodrigues

As eleições de 26 de janeiro foram um fracasso para o Peru e, em especial, para a esquerda. Essas eleições foram convocadas pela dissolução do parlamento no dia 30 de setembro de 2019 [realizada pelo Presidente da Republica, Martín Vizcarra, para evitar a nomeação de mais juízes pelo fujimorismo] e se supunha que deveria ser o início de uma saída política para a questão. No entanto, dado os resultados eleitorais, teremos um Congresso formado majoritariamente por partidos sem proposta política e que só se movimentam de acordo com o que ordena os meios de comunicação, que expressam as vontades conservadoras das elites, ou, pior ainda, com as ambições pessoais de seus integrantes. Se as coisas transcorrerem dessa forma que apontamos, a crise se aprofundará com imprevisíveis consequências a curto prazo.

É bom recapitular e destacar que chegamos a este ponto devido a renúncia do hoje ex-presidente Kuczynsky [2016-2018, processado por propinas da Odebrecht], há dois anos atrás, um marco muito importante para o esgotamento do regime instaurado por Fujimori [1990-2000] e Montesinos [assessor presidencial de 1990-2000] em abril de 1992, quando o Congresso foi fechando em um “autogolpe” de Fujimori. Essa renúncia abriu uma oportunidade para que a ultradireita FujiAprista tentasse tomar o poder por meio de um golpe parlamentar, o que foi impedido pelo presidente Vizcarra com a dissolução do Congresso. Os neoliberais radicais, portanto, foram derrotados pelos neoliberais reformistas com o apoio da esquerda. Nessas idas e vindas, onde a pressão de mobilizações populares nunca chegou a ser decisiva, busca-se uma resolução, ainda que provisória. Este era o sentido da iniciativa de Vizcarra – dissolução, mas com eleições para Congresso – mas nenhuma resolução foi produzida. Estamos, novamente, com uma crise de regime em aberto, sem saída a vista.

Alguns apontam que a grande conquista dessas eleições extraordinárias é o quase desaparecimento da extrema-direita, expressada pelo fujimorismo, pelo APRA e pelo Solidariedade Nacional. É verdade que é um alívio não os vermos mais como protagonistas. No entanto, o mais importante deles, a Força Popular, nome atual do fujimorismo, está reduzido a 7% – combalido, mas ainda segue no Congresso. Os outros dois estão na UTI, em tratamento intensivo e com prognóstico incerto.

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A agenda central do Congresso eleito deveria ser promover uma reforma política, mas pelo que foi dito em campanha por aqueles que ganharam, essa pauta parece fora de cogitação. Ainda mais se a reforma política envolver um debate constitucional. E, para piorar, partidos como a Ação Popular e a Aliança para o Progresso [identificados como “centro democrático”, com grande êxito nessas eleições] já emitiram opiniões, no passado, muito variadas – às vezes a favor, às vezes contra essa reforma. Do Podemos [também de “centro democrático”], o partido de José Luna, se pode esperar qualquer coisa, a julgar pelo que demonstrou em mandatos anteriores. O FREPAP [considerado fundamentalista e ferrenha oposição às pautas sociais], por outro lado, conquistou vários assentos no Congresso, mas tampouco tem um programa claro que vá além da defesa dos privilégios de seu culto. Qual poderá ser, então, a dinâmica de um Congresso constituido por curtos mandatos de apenas 16 meses e agenda tão apertada?

Acredito que a resposta está nas eleições gerais de 2021. Se o Parlamento está assim, esperamos que a campanha para a Presidência possa aprofundar o debate sobre os problemas de fundo do Peru e as propostas necessárias para encará-los. Isso significa que as lideranças que concorrerão à Presidência apontarão uns aos outros para dar, assim, algum sentido ao parlamento recém-eleito e à própria campanha eleitoral. Dessa forma, as eleições gerais de 2021 podem nos levar a uma saída para a crise do regime.

Desta vez não haverá desculpas: as lideranças que não estiveram nessa campanha de 2020 “para não se desgastarem” deverão estar em 2021 — para se legitimarem ou desaparecerem de vez. As ausências de Julio Guzmán [do Partido Morado, que prega uma “terceira via”] ou Verónika Mendoza [da Frente Ampla, mais a esquerda] como cabeças de chapa de suas agrupações partidárias tem relação direita com o pobre desempenho apresentado por essas organizações. Salvador del Solar [do Peruano pela Mudança, de centro-direita] é quase desconhecido porque está sempre “ausente”, dá pena. Dessa forma, não houve bandeiras centrais para debater, no máximo houve “listas de tarefas” para uma agenda parlamentar ou simplesmente ausência de propostas, o que muito diz sobre a falta de seriedade com que essa eleição foi tratada.

O presidente Vizcarra, por sua vez, se o parlamento se comportar de forma amorfa, poderá seguir governando como se não houvesse Congresso, com a agenda neoliberal que tem propagado nas últimas semanas. O movimento social deveria organizar uma resposta contundente e apontar que uma reforma política não significa liquidar direitos sociais. A vantagem para os que reclamam será que rapidamente começará a campanha presidencial e a possibilidade de vincular suas reivindicações aos programas eleitorais que se apresentam, de acordo com sua sintonia com o povo.

Para a esquerda, o desafio permanece o mesmo: encampar a luta por um processo constituinte como uma saída para a crise do regime ou se afogar na masmorra. Muitos dizem que sua falta de unidade é responsável pelo pequeno número de congressistas eleitos, que ao somar os votos de três ou quatro organizações de esquerda se ganharia as eleições. Há alguma verdade nisso, o que exigirá que da próxima vez se resolva esses problemas internos com primárias bem feitas e candidato unitário. Frente ao dinheiro da direita, o recurso da esquerda é a unidade. Mas ouso dizer que isso não basta, uma unidade frágil, colada com saliva, seria de pouca utilidade. A unidade deve ser selada por uma liderança eleita democraticamente e com uma proposta de futuro para o Peru.

Por favor, não voltemos a chorar sobre o leite derramado que continua em jogo no país.

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Um comentario para "Peru: Crise aguda, eleições decepcionantes"

  1. Jorge Sotelo Salas disse:

    Interesante artículo de Nicolás Lynch. Me permito agregar que aparte de los temas ‘domésticos’ de aprendices de congresistas (ojo, ‘ayayeros’) y del poder económico que impondrá a través de los medios (‘Keiko’, ‘No modificar leyes’, ‘Antauro’, y repartija del presupuesto del 2021, etc.), las cúpulas de los partidos, incluidos los de la izquierda se van a pasar estos 12 meses en ‘analizar sus candidaturas presidenciales y congresistas del 2021’. Por lo tanto, el Perú seguirá de menos a menos menos. Solo el involucramiento de los jóvenes hará posible el cambio pero, lo siento, en el 2026, si es que hay el liderazgo y convicción suficiente para alcanzarlo en las urnas o en las calles, lo más probable.

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