Queermuseu e o avanço da direita na rede

Ela divide-se em três campos: MBL, militaristas e fundamentalistas. Todos estão articulados e têm boas equipes profissionais. Compreenderam muito rapidamente a nova fase

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Ela divide-se basicamente em três campos: MBL, militaristas e religiosos fundamentalistas. Todos estão articulados e têm boas equipes profissionais. Compreenderam muito rapidamente a nova fase

Por Marcelo D’Elia Branco

Nessa semana realizamos aqui em Porto Alegre um ato público contra a volta da censura no Brasil, patrocinada pelo banco Santander. Uma exposição de arte queer foi interrompida pela direção do banco depois de protestos e agressões nas redes e no espaço da exposição patrocinados por grupos nãoliberais (MBL), militaristas e fundamentalistas que vivem na Idade Média.

Meu objetivo com esse texto não é falar sobre o significado dessa censura e do precedente que abre para novas agressões, fechamentos de espaços, seminários públicos, bares que esses extremistas considerarem inapropriado pra família deles. Isso é a cara do fascismo e não tem outro nome. Também não quero detalhar a impotência que senti no final da noite quando vi que a Prefeitura de Porto Alegre e o Estado, com sua força militar,  ficaram ao lado dos milicianos provocadores que invadiram um ato protegidos pela Brigada Militar, como uma operação conjunta. Gostaria de falar da articulação e mobilização para este ato, para que possa servir de experiência positiva e reflexões para o campo de esquerda, humanista e democrática.

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O Corpo

O nosso ato começou a ser convocado por organizações LGBTs através do facebook [1] já no domingo, o dia da censura. De forma descentralizada e com um trabalho em rede entre pessoas que nunca tinham conversado ou se conhecido antes, mas que estavam indignados e unidos por esta “causa”, conseguimos mover milhares de pessoas nas redes e levar uma multidão de pessoas para a rua em frente do Santander Cultural. Mais uma vez, não foram as organizações formais as protagonistas, mesmo que estivessem presentes apoiando. Indivíduos conectados, assumindo uma identidade coletiva na rede de indignação deram o tom.

O papel que deleguei a mim mesmo foi fazer a transmissão ao vivo do ato. Faço isso desde 2010 e gosto de fazer. Quando as visualizações da transmissão chegaram a mais de 50 mil, eu mudei para modo privado pois meu perfil estava sob ataque. Passei a noite analisando os comentários, entrando em alguns perfis para ver a localidade e a vida dos sujeitos.

MBL alcançou seu objetivo

O MBL levou a fama e cresceu assumindo o protagonismo nos massmedia e bombado por parte da militância de esquerda nas redes. Assim, os nãoliberais cresceram e avançaram nas bases dos militaristas e dos religiosos fundamentalistas, que foram a maioria a se manifestar nessa amostragem da rede. As três redes da nova direita, que não pensam igual em tudo, têm uma forte articulação nacional na Internet. As redes dos fundamentalistas e dos militaristas do Bolsonaro foram muito maiores e comentaram de todo Brasil: de Altamira, no Pará, passando por pequenas cidades no interior do país. A pós-verdade construída na estratégia de autocomunicação do MBL foi que a exposição tratava de sexo com animais, pedofilia, outras causas anti-cristãs, ofensa aos direitos dos animais, racismo no caso de brancos metendo num negro, gasto de dinheiro público com a lei Rouanet.

Todas as redes têm uma boa equipe profissional de mídias sociais e sabem fazer o trabalho muito bem. A construção de uma rede dessas leva tempo e paciência, e é necessário expertise, monitoramento e análise dos dados, além da produção de conteúdos apropriados para as redes sociais. Mas, o mais importante num processo de autocomunicação são as relações que se estabelecem entre os indivíduos. Não é um espaço de “transmissão” de conteúdos, mas de escuta e diálogo. Desta forma, eles arrastaram multidões contra a nossa causa.

Atosantander

Foto: Rafael Brum-Ferretti‎

Autocomunicação[2] de multidões é o estágio atual da comunicação na Internet e foi o campo de batalha nestes dias até o evento. A capacidade de comunicação autônoma individual e inédita faz da rede o corpo dos movimentos[3]. Sem intermediários, inclusive na comunicação. A maior potência da comunicação se realiza quando a rede deixa de ser um meio para ser o corpo ativo, “a estrutura”. Isso não é um movimento espontâneo, é uma nova forma de organizar, na perspectiva de construir uma identidade coletiva potente de indivíduos conectados em rede, compartilhando emoções. Isso é o contrário de centralização, hierarquias, agencias de notícias, redação web, broadcast institucional como no período anterior e onde estão até hoje todos os investimentos humanos e materiais das esquerdas na Internet.

As esquerdas nas redes são uma multidão sem estratégias de autocomunicação, departamentalizados nas caixinhas das instituições, não conseguindo construir uma rede descentralizada de protagonistas articulados.

Marcelos

Foto: arquivo Sgarbosa (todos somos mídia)

Reveja abaixo todo ato contra a censura na exposição queermuseu por parte do Santander.

(o conteúdo foi censurado pelo Facebook. Estou recorrendo.)

[1] Porto Alegre sem PreconceitoNuances – Grupo Pela Livre Expressão Sexual ONG Outra Visão – LGBT CRDH Relações de Gênero, Diversidade Sexual e de Raça Igualdade RS – Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul Coletivo Feminino Plural Juntos LGBT Somos – Comunicação, Saúde e Sexualidade

[2] Autocomunicação de massas, Manuel Castells

[3] “A internet não é mais um componente, é o próprio corpo dos movimentos” Marcelo Branco

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8 comentários para "Queermuseu e o avanço da direita na rede"

  1. Escrevi um comentário, dias atrás…
    Sobre um aspecto da questão…
    QUEERMUSEU
    Uma outra interpretação, se é que alguém ainda não escreveu sobre isso…
    Não são as imagens literais que o MBL contesta…
    Ele faz interpretação literal de imagens para atacar algo muito mais sério…
    O incômodo não está na literalidade, mas na contestação dela pela arte…
    Forma é conteúdo, o como se diz já é o que se diz…
    Num mundo que, para muitos, cada vez mais se reduz a trabalho e entretenimento…
    No qual as narrativas dominantes no cinema, na política, no jornalismo, organizam-se em real, cronologia, verossimilhança, literalidade, causalidade, dicotomia…
    Num mundo de narrativas, explicativas, morais, de certo e errado, bem e mal…
    Os artistas da Queermuseu lidam com reflexão e crítica dessas narrativas…
    Mas queer não é apenas o corpo, o comportamento, a sexualidade…
    Queer é a própria linguagem desses artistas, frente às narrativas de nosso cotidiano…
    Aí está algo insuportável para o MBL…
    A disputa tem que ser no terreno dele, na linguagem dele…
    – Como assim, uma obra que não entendo de imediato, que me parece ambígua, onde uma imagem remete a outra, na qual o que vejo pode ter sentidos até mesmo opostos daquilo que vejo…?
    – Sentidos abertos, deslizantes…?
    – Vocês não são melhores do que nós, nós vamos transformar – interessante esta palavra aqui, esse “trans” – a linguagem, o pensamento de vocês, vamos literalizar, banalizar…
    – Nós decidimos como se dará a disputa, em que campo, com qual linguagem…
    O que o MBL não suporta é que a linguagem dos artistas não se reduza àquela do cotidiano…
    A coisa lhes escapa…
    – Nenhum Pan da linguagem vai tocar flauta no meu jardim!
    ***
    Num livro sobre sonhos que pessoas tiveram durante o nazismo…
    A jornalista que os coletou, às vezes tira deles características dos regimes totalitários…
    Um dos sonhadores relacionou suas imagens ao fato de que um inspetor de quarteirão lhe perguntou se não havia hasteado em sua casa a bandeira nazista…
    A autora escreve…
    “[…] início da instalação do sistema de vigilância dos quarteirões (System der Blockwarte), criado pelos nazistas: os abusos feitos naqueles dias sob a proteção do uniforme do partido, as muitas contas particulares que precisavam ser saldadas, o início do cerco ao indivíduo pelo zé-ninguém […].”
    (Sonhos no Terceiro Reich, Charlotte Beradt, Três Estrelas, 2017, pp. 51-52)

  2. Lídia Cunha disse:

    Obrigada por nos trazer mais informações sobre esse acontecimento lamentável. Sinto-me surpreendida, ainda surpreendida, quando vejo os jovens, isso mesmo, os jovens, a defender esse ato fascista em nome da defesa das crianças… Na Universidade…Temos tudo por fazer…

  3. P.A. Martins disse:

    Me sinto desesperada diante de tudo que está acontecendo e gostaria muito de saber como cada um pode contribuir para sair disso que você descreve “As esquerdas nas redes são uma multidão sem estratégias de autocomunicação, departamentalizados nas caixinhas das instituições” todo dia leio críticas ao comportamento da esquerda e me desespera não ver nenhuma proposta de organização mais clara, nenhuma sugestão de caminho. Na sua opinião, o que pode ser feito para ajudar a “construir uma rede descentralizada de protagonistas articulados”?

  4. Eduardo Magrone disse:

    Gostei do texto do Marcelo Branco, mas a reflexão proposta por Adriano Picarelli superou minhas expectativas. Quando digo que o Brasil caminha hoje em direção não mais ao autoritarismo de Estado (como vivido no Estado Novo e no Regime Militar), mas sim em direção a uma modalidade nova de totalitarismo que não se dá somente aqui, muitos companheiros de luta desprezam minhas advertências e partem para o “Fora Temer”, “Lula 2018”, “Abaixo a Lava Jato”, “Revolução já” etc. A verdade é que a repressão, o ódio e a intolerância não precisam tanto do Estado como precisavam antes e, cada vez menos, das instituições para imporem sua vontade. A anuência dos aparelhos repressivo do Estado, a docilidade do poder judiciário, a rendição da mídia e a adesão da burocracia virão da corrosão total da ideia de política por meio da ação dos movimentos sociais.

  5. Eduardo Magrone disse:

    (continuação)
    Sim, cara pálida, os movimentos sociais que foram decisivos para derrubar uma ditadura de coturno, de duas décadas, agora, serão o veículo da violência material e simbólica que irá fazer do País uma sociedade onde em cada residência poderá haver um informante. As redes sociais, sim, serão a estrutura onde irá se dar a necessária consistência desses movimentos fascistas, neofascistas ou webfascistas (chamem como quiserem). A SERPENTE SAIU DO OVO! Abramos nossos olhos enquanto ainda há tempo. Nessa guerra, as diferenças são bem-vindas e as divisões serão a força de quem pretende varrer do mapa da cultura nacional a ideia de uma mensagem com sentidos múltiplos. Que tal começar com uma frente universitária antifascista? Seria exagero?

  6. Fabi disse:

    Por maiores que sejam os tentáculos deles, eles não estão mais conseguindo mobilizar pessoas, a não ser em comentários de internet. Mas isso qq notícia é cheia de comentários de ódio (de direita e de esquerda, pois termos como lixo, vaca, deveria morrer… vêm de todos os lados). Bom,nesse dia do protesto contra o fechamento, eu estava lá. Eles eram nem uma dúzia(protegidos pela BM). E, vamos combinar, do nosso lado também faltou gente com a devida frieza para ignorá-los. Ao contrário, que valorizou a presença deles foram os nossos.

  7. Marcio Ramos disse:

    Ninguém vai mudar isso pelo voto de forma pacifica.
    Ninguém vai pra rua pq agora o legal e ficar no fluxo das redes sociais.
    As pessoas acreditam nas mãos invisíveis dos algorítimos digitais.

  8. V, Nicolau disse:

    A direita fez a lição de casa (Mein Kampf)?enquanto isso a esquerda está as voltas com o “combate à corrupção”. Dórias e bolsonaros surfam livres nos ares do Brasil. Maldito mundo novo.

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