Um microconto sobre dominação

Olhar racionalista sobre o pensamento pós-moderno. Para um tirano reinar, não é preciso proibir a crítica: basta disseminar o culto às subjetividades e à fragmentação — e a resistência se tornará mera performance inepta

Após firmar as bases de seu império, à custa de sangrentas batalhas, disse o tirano a seu conselheiro:

– Agora que tomamos o poder, precisamos consolidar nosso domínio. Hoje, nos impomos pela força. Por meio de nossas armas, submetemos seus corpos à nossa vontade. Precisamos, contudo, sequestrar as suas mentes e destruir também a resistência do pensamento. Pois, é por ela que o horizonte de possibilidades dos que são contra o Império permanece sempre visível e desejável. Reside aí um grande perigo para nossos propósitos.

– E como pretende fazer isso, meu senhor? – perguntou o conselheiro.

– Proibirei a filosofia, o estudo livre da história, a sociologia e todas as teorias críticas que existem nas ciências humanas e na educação. Não permitirei sequer menção a elas em meu império.

– Posso sugerir-lhe algo melhor, senhor? Pois, ao proibir esses conhecimentos, podemos despertar, por um lado, o protesto de quem os cultiva e, por outro, a curiosidade diante de algo proibido. Um gerará tumulto; outro uma corrida aos estudos às escondidas. Não poderemos evitá-los por completo. Penso ser melhor deixar esses conhecimentos livres e não nos preocuparmos com eles.

– Acaso está agora a defender o pensamento livre, meu caro? Não me surpreenderá vê-lo, em breve, na oposição… O que me diz sobre os efeitos perniciosos desses saberes para nosso domínio? Como lidaremos com eles? Deixaremos, porventura, que esses conhecimentos minem as bases de nossa supremacia?

– De forma alguma, senhor. Mas há um meio mais eficaz de sustentar o império pelas mentes. Basta suprimir de seu reino, por meios sutis, o uso da lógica e da razão. Retire completamente a lógica da formação cultural de seu povo. Ignore-a desde a educação em todos os níveis até o entretenimento e a cultura de massas. Cultive apenas a dimensão emocional de todas as atividades de seu reino. Adicionalmente – continuou o conselheiro imperial –, em outra frente, menos popular, estimule e patrocine teorias e intelectuais que desprezem a razão, que questionem a verdade em qualquer de suas acepções, que sobrevalorizem a subjetividade particular, que desprezem qualquer pretensão de universalidade do pensamento e louvem o fragmento e o sem sentido. Transforme os que assim pensam em gurus, introduza-os nas universidades, promova seus livros, financie suas instituições, mesmo que eles, superficialmente, falem mal de nosso domínio com freses de efeito.

– E que resultados espera de tão estranho conselho? – quis saber o Imperador –Acaso você está me propondo uma democracia, com essa história de saberes livres que até possam falar mal de nós?

– De maneira alguma, senhor! Os resultados que espero são outros. Por um lado, sem a lógica e a razão, o povo em geral não conseguirá entender as medidas e ordens do imperador, não compreenderá a estrutura e os pilares do domínio imperial e será incapaz de relacionar sua situação particular à dinâmica sistêmica do Império. Tampouco compreenderá a fala dos críticos que porventura quiserem apontar essa conexão entre a estrutura do Império e suas vidas privadas. Para o povo, serão suficientes as propagandas e frases feitas para formarem suas opiniões sobre o mundo. É melhor criar um mundo fictício, baseado na simplicidade de uma guerra do bem contra o mal que se autorreproduz nas mentes, do que que argumentar com base na lógica, ainda que seja para mentir. Bastar-nos-á, em cada momento, preencher o papel do bem e do mal com aqueles que nos forem convenientes em cada situação.

– Começo a me interessar por essa sua ideia, conselheiro. Prossiga, pois entendi que há ainda um outro lado…

– Sim, há outro! De outro lado, sem a lógica e a razão mesmo aqueles que compõem a oposição e resistência ao império ver-se-ão perdidos na elaboração de seus planos e incapacitados para o planejamento de ações efetivas contra nós. Não importa quanto nos odeiem e repudiem. Sem o cultivo da razão e da lógica, perderão todo seu tempo sem se entender, interpretarão errado as coisas que eles mesmos dizem e escrevem, discutirão entre si pelo sentido de uma palavra ou frase, sem atentar-se para qualquer ponto de apoio real que possa lastrear seus discursos em um mundo existente. Como consequência, estarão sempre brigando entre si. Vencer suas disputas de performance discursiva será mais importante que traçar planos e estratégias efetivas para a derrubada de nosso domínio. Suas críticas a nós ficarão restritas a lamentos inconsequentes e denúncias moralistas, que servirão apenas para desencargo de consciência e catarse, mas nunca para orientar a ação efetiva e estratégica. Deixemos, então, que façam poesia, desde que não consigam fazer teoria. Que façam performances, desde que não façam planos. Assim estaremos seguros. Eles se tornarão seus próprios inimigos.

– Mas você é um conselheiro sapientíssimo! Realmente, é isso que se pode esperar de um contexto em que racionalidade está ausente! É como o espetáculo grotesco e burlesco de um exército sem planejamento e objetivos, que não reconhece a si mesmo dentro de uma batalha. Cada soldado com sua arma, sem saber o que deve enfrentar. Acabariam disparando uns contra os outros, tendo o inimigo perplexo do outro lado do campo de batalhas, a vê-los disputar entre si quem faz a melhor apresentação!

– É o que se espera, senhor.

– E quanto àqueles saberes que eu queria suprimir…?

– Os que os mantiverem fundados na lógica e na razão, tornar-se-ão sem interesse e fora de moda; eventualmente serão até combatidos como causadores da opressão e dominação que a nós deveria ser atribuída. Logo serão tidos como ultrapassados e, por fim, morrerão. Os novos, com o nosso patrocínio e estímulo, ficarão perdidos em incontáveis ficções arbitrárias, pois sem lógica e razão, sua capacidade de crítica será reduzida à lamúria. Gerarão mais pessimismo e fatalismo do que ação. Nem precisarão falar bem de nós (e é até bom que não o façam) para defender, sem que se perceba, os nossos propósitos. Além disso, permanecerão emaranhados na dúvida sobre qualquer verdade, seja do discurso da dominação ou do discurso da crítica, pois não terão critérios para julgar aquilo que consideram puro discurso. Quando a filosofia, sociologia e todas as ciências humanas estiverem tomadas por essas ideias, a crítica perderá toda sua força. Assim, não será necessário proibi-las. Elas acabarão encerradas nas academias e não ultrapassarão o plano discursivo. Produzirão muitas palavras, mas jamais revolução.

– Você é, de fato, um excelente conselheiro! Quero-o a meu lado em todo o tempo em que eu viver como imperador…

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4 comentários para "Um microconto sobre dominação"

  1. PEDRO RIBEIRO disse:

    Perfeita a metáfora. Eu acrescentaria alguma coisa sobre o estímulo a quem transforma qualquer explicação em “narrativas”. Afinal, é um direito construir a própria narrativa, pouco importa se ela tem fundamentação objetiva, ou se é pura subjetividade.

  2. PEDRO RIBEIRO disse:

    Excelente metáfora! Eu só teria acrescentado a estratégia das “narrativas”. Tratar toda explicação dos fatos como meras narrativas, que podem ser comparadas entre si, mas não contestadas objetivamente. Assim, cada pessoa ou grupo tem sua narrativa, ou escolhe na mídia aquela que lhe dá mais tranquilidade. E “tudo bem, bicho, tu fica na tua, que eu tou na minha”.

  3. Mauricio Abdalla disse:

    Pedro, pergunto-me como devem se sentir alguns colegas ao ver o discurso das “narrativas”, que se julgava tão “transgressor” e “subversivo”, ir parar na boca da extrema direita e servir a seus propósitos. E como a crítica inconsequente à ciência como “uma narrativa entre as outras” poderia se materializar em um negacionismo que tanto prejudicou o Brasil no combate à pandemia…

  4. Dr. Praxedes disse:

    Enquanto literatura o texto é bom. No entanto, considero exagerada a expectativa criada em torno da filosofia, sociologia e das artes como recursos críticos que ofereçam meios de resistência aos descalabros sociais e políticos que vivemos no Brasil atual. Na história brasileira, em que momento aquelas matérias foram úteis para ajudar a conter os desmandos históricos a que somos submetidos todos os dias? Que diferença faz para o povo brasileiro conhecer um pouco de filosofia se ela é vista pelas pessoas como algo excêntrico? Tenho a impressão de que, no Brasil, conhecer teorias críticas das ciências humanas só trazem solidão, angústia e sofrimento. O discurso pós-moderno só piorou as coisas. Ele “empoderou” todo mundo ao romper com as hierarquias da lógica e da razão. Todo mundo é sábio de tudo. Sendo assim, o que a filosofia ou as teorias críticas tem a nos oferecer para que possamos resistir às seduções da pós-modernidade?

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