Para abrir espaço à transição de época

Colapso ambiental escancara o risco de extinção — e a urgência de um novo projeto civilizatório. Será preciso superar pensamento hegemônico — linear e previsível e encarar as complexidades do mundo em diálogo com a Natureza e a multiplicidade

Por Antônio Sales Rios Neto | Imagem: Pejac

A Terra é uma totalidade complexa físico-biológico-antropológica em que a vida é uma emergência da sua história, e o ser humano, uma emergência da história da vida.”IHU

No último dia 10/12, ministrei uma palestra no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, no espaço do IHU Ideias, abordando o tema Transição Epocal na Perspectiva das Ciências da Complexidade. O animal humano irá se reconciliar com a sua condição natural? Para complementar o que já foi apresentado nesta palestra, reforço aqui a relevância das reflexões em torno desta temática, hoje tão necessárias para buscarmos alternativas à atual crise civilizatória que está nos arrastando para o abismo. Já faz algum tempo que, aos poucos, surgem instituições assumindo uma postura crítica diante dos rumos sombrios que o nosso sistema-mundo vem trilhando nas últimas décadas, que caracterizam o contexto de mudança de época histórica vivenciado pela humanidade, tal como ocorreu na última transição de época, quando o agrarianismo – iniciado lá na revolução do neolítico – foi substituído pelo industrialismo, ao longo do século XVIII.

Uma dessas instituições é o próprio IHU, que desde a sua fundação em 2001 adotou em sua declaração de princípios uma abordagem crítica face à dura realidade em que a humanidade se encontra. Segundo o IHU, “vivemos a transição de uma modernidade para outra modernidade. Se a primeira foi universalizada pela Revolução Científica do século XVII e pela Revolução Industrial, desencadeada em 1750, a segunda universaliza o conhecimento e a informação, afetando profundamente todas as dimensões da existência humana”. É necessário, pois, que saibamos nos situar neste ambiente de mudança de época histórica e, desse modo, passarmos a assumir um protagonismo coletivo e integrador necessário à construção de um futuro reconhecível, que se afaste do modelo civilizatório vigente, amparado nas ilusões desnecessárias do fetiche da mercadoria e da dominação das instituições patriarcais, que se exacerbaram na contemporaneidade com a chegada do algoritmo, a mais nova ferramenta de indução do comportamento humano. Como bem alertou o historiador Eric Hobsbawm, para quem “chegamos a um ponto de crise histórica”, ao concluir o quarto volume de sua principal obra (A era das revoluções, 1962; A era do capital, 1975; A era dos impérios, 1987; e A era dos extremos, 1994): “se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade, é a escuridão.”

A seta da História está, mais uma vez, diante da possibilidade de novas bifurcações. Muitos pensadores que se notabilizaram com suas visões de mundo tentaram interpretá-la para compreender sua dinâmica e dar-lhe algum sentido. Apresento, a seguir, quatro perspectivas acerca do tortuoso curso da História que, embora antagônicas e contraditórias em muitos aspectos, podem ser muito úteis, tanto para nos mostrar que a realidade em que estamos inseridos resulta de um processo incessante de disputa de hegemonia entre muitas percepções de mundo, quanto para nos ajudar a ter uma melhor compreensão da conflituosa condição humana.

1) Há aproximadamente 170 anos, a engenhosidade do revolucionário Karl Marx em compreender a gênese e o metabolismo do capital, bem como seus prováveis desdobramentos para o futuro da humanidade, foi muito bem expressa neste relato: “A situação mais favorável para o trabalhador é a do crescimento do capital, temos de admiti-lo […]. De maneira geral, o sistema protecionista de hoje é conservador, ao passo que a livre troca é destruidora. Ela aniquila as velhas nações e leva ao extremo o antagonismo entre o proletariado e a burguesia. Numa palavra, o comércio livre acelera a revolução, e é numa direção revolucionária, senhores, que voto em favor do livre comércio!” (Discours sur le libre échange, 1848);

2) Logo após a queda do muro de Berlim, em novembro de 1989, o filósofo e economista político nipo-estadunidense, Francis Fukuyama, vislumbrou, talvez movido por uma inspiração hegeliana do processo histórico, que a redenção humana, após tantas tentativas frustradas, havia chegado a um bom termo com a supremacia da democracia liberal, ao concluir que a dissolução das Repúblicas Socialistas Soviéticas representava “uma inconfundível vitória do liberalismo econômico e político, o ponto final da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal ocidental como a forma final de governo humano.” (The End of History, 1989);

3) Oferecendo um contraponto à perspectiva do fim da História de Fukuyama, em um artigo publicado ainda no mesmo ano de 1989, o controverso filósofo político britânico John Gray, questionador da ideia de que o progresso representou um avanço ético no processo civilizatório, disse: “Pelo menos sabemos de uma coisa: a história não há de acabar com a morte do liberalismo, nem com o colapso do comunismo. A segunda coisa que sabemos com certeza é que não temos nenhuma razão para esperar que o futuro seja marcadamente diferente do nosso passado. Como a temos conhecido, a história humana é uma sucessão de contingências, catástrofes e lapsos ocasionais de paz e civilização.” (Outra vez o fim da História?,1989);

4) Outro notável pensador que parece ter intuído bem o âmago da atual mudança de época que vivenciamos foi Hobsbawm, quando se dedicou a compreender os desdobramentos das grandes convulsões e contradições do breve século XX, período em que ocorreu o maior genocídio da História, estimado em 187 milhões de mortes (Brzezinski, 1993), o equivalente a algo em torno de 12% da população mundial em 1900. Para ele, “os jornalistas e ensaístas filosóficos que detectaram o ‘fim da história’ na queda do império soviético estavam errados. O argumento é melhor quando se afirma que o terceiro quartel do século assinalou o fim dos sete ou oito milênios de história humana iniciados com a revolução da agricultura na Idade da Pedra, quando mais não fosse porque ele encerrou a longa era em que a maioria esmagadora da raça humana vivia plantando alimentos e pastoreando rebanhos” (Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991, 1994)

Se observarmos bem, desde Fukuyama aos dias atuais, tanto a democracia quanto o mercado já passaram e continuam passando por muitas transformações. O curso da História nunca esteve tão mutável e essa dinamicidade sempre foi impulsionada por um grande vetor: a busca da liberdade. Segundo o historiador francês Jacques Attali, a História sempre seguiu, de século em século, numa direção única, de modo que nenhum dos inúmeros sobressaltos já ocorridos ao longo da sua trajetória conseguiu desvirtuá-la, pois “a humanidade impõe o primado da liberdade individual sobre qualquer outro valor”. Foi assim que se deu a longa evolução da História, uma permanente resistência às variadas formas de coerção. Como disse o sociólogo, antropólogo e filósofo francês Edgar Morin, “ainda que, para Fukuyama, sejam as capacidades criativas da evolução humana que se esgotaram com a democracia representativa e a economia liberal, devemos pensar que, ao contrário, é a história que se esgota e não as habilidades criativas da humanidade”.

Revoluções entrelaçadas, ainda em curso

Para muitos pensadores, o processo histórico é impulsionado por uma busca incessante por liberdade – obviamente considerando o ponto de vista de cada um dos diversos atores sociais –, como bem expressou Attali, ao afirmar que “a mesma força está sempre em curso: a da libertação progressiva do homem de todas as coerções.” Talvez seja mais proveitoso hoje aceitarmos que o devir da História está inexoravelmente enredado a uma pulsão por liberdade, muito embora uma considerável parcela da humanidade tenha se acomodado à falsa segurança da servidão voluntária. A liberdade é a energia que tem alimentado, tanto no passado quanto no presente, para o bem ou para o mal, as revoluções que moldaram a história da humanidade e que se manifestam com mais intensidade nesta mudança de época. Sob essa perspectiva libertária, temos hoje em movimento pelo menos três grandes revoluções entrelaçadas:

1) A revolução econômica, por mais liberdade do “capital”: desencadeada especialmente por volta de 1973, quando as nações mais ricas do globo ratificaram, sob forte pressão dos mercados, o fim dos acordos de Bretton Woods, antes rompido unilateralmente pelos EUA em 1971 com o chamado “choque de Nixon”. Esta manobra alterou as regras monetárias e financeiras internacionais de fundamento keynesiano, adotadas em julho de 1944, ainda no calor dos horrores da Segunda Guerra Mundial, para salvar a economia global da grande depressão dos anos 1930. O padrão dólar-ouro que regulava a economia no período do Estado de bem-estar social (1947-1973) foi substituído pelo regime de flutuação (tendo o dólar como moeda-reserva) ao sabor do mercado, especialmente o do estadunidense. Com isso, abriram-se os espaços para o livre trânsito de capitais, a financeirização da economia e a especulação pela especulação, exacerbando ainda mais a lógica de degradação ambiental, consumo e acumulação.

A partir daí, de um lado, o neoliberalismo foi se firmando em busca do projeto irrealizável do laissez-faire global, ultrapassando as fronteiras e ideologias de Estado e arrastando os regimes democráticos para uma situação de declínio irrefreável. Por outro lado, a lógica da relação extrativista e predatória do capital com a natureza seguiu destruindo as condições que asseguram nossa permanência no planeta. Por isso, o alerta da jornalista e ativista canadense Naomi Klein, que vem denunciando o atual “capitalismo de desastre”, de que “o normal é mortal. A ‘normalidade’ é uma imensa crise. Precisamos catalisar uma massiva transformação para uma economia baseada na proteção da vida”;

2) A revolução tecnológica, por mais liberdade do “algoritmo”: revolução inaugurada a partir de meados dos anos 1970, quando houve a invenção do microchip (1976) pelo físico estadunidense e co-fundador da Intel Corporation, Robert Noyce. A partir daí, outras revoluções tecnológicas foram sendo desencadeadas nas áreas de nanotecnologia, inteligência artificial, robótica, biotecnologia, novos materiais etc. Ao mesmo tempo, ocorreram também mudanças radicais nas formas e meios de comunicação. Forjou-se assim uma espécie de visão cibernética de mundo.

Estas duas revoluções, a econômica e a tecnológica, estabeleceram uma simbiose em que se reforçam e se potencializam mutuamente. No momento atual, com o choque provocado pela pandemia do coronavírus e com a eficiente resposta da vigilância digital posta em prática pelos países asiáticos como China, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e outros, é muito provável que o resultado dessa simbiose para as próximas décadas seja o condicionamento do nosso modo de viver a partir de uma nova biopolítica digital, especialmente depois que o Ocidente se apropriar desse novo Estado de vigilância. Cabe aqui lembrar o alerta da filósofa e psicóloga social estadunidense Shoshana Zuboff, que tem se dedicado a compreender e denunciar o capitalismo de vigilância instalado nas duas últimas décadas. Segundo ela, “se destruirmos a democracia, tudo o que resta é esse tipo de governança computacional, que é uma nova forma de absolutismo”;

3) A revolução sociocultural, por mais liberdade de modos de viver: associada ao entendimento de que há uma silenciosa revolução iniciada por volta dos anos 1960, ainda em curso nos dias atuais, que parece não mais permitir, especialmente da parte das forças de Estado, qualquer novo arranjo civilizatório que esteja assentado em bases patriarcais. Nesta vertente, estão os movimentos sociais como os protestos desencadeados por estudantes e trabalhadores na França em maio de 68, considerados por alguns como a primeira manifestação global pelo fim de posturas conservadoras e opressoras, bem como o movimento feminista, cujas origens remontam ao século XIX, a Revolução Laranja na Ucrânia (2004 e 2005), a Primavera Árabe no Oriente Médio e no norte da África (2010 a 2012), o Occupy Wall Street nos EUA (2011), os Indignados na Espanha (2011), as manifestações de junho de 2013 aqui no Brasil, o Black Lives Matter, que irrompeu também em 2013 e recrudesceu agora em 2020 diante do acirramento de posturas racistas, dentre tantos outros, que parecem sinalizar o início do esgotamento de uma cultura patriarcal milenar.

Um dos que pressentiram que estamos vivenciando uma profunda transformação cultural nesse sentido foi Morin, quando disse: “tenho a impressão que maio de 68 é algo assim como um momento simbólico de crise da civilização, onde surgem algumas aspirações profundas, quase antropológicas (mais autonomia, mais comunidade), que declinam e renascerão sob outras formas”. Todas estas inquietações socioculturais parecem nos mostrar que chegou a vez de a sociedade assumir o protagonismo da História, se quisermos ter um futuro reconhecível.

Outro aspecto que permeia as preocupações com o decadente estado do mundo na atualidade é, conforme já amplamente comprovado pelas ciências da Terra, a questão das mudanças no clima que ameaçam seriamente as condições de manutenção da biodiversidade, da qual depende a vida do nosso planeta, o que já está nos colocando em situação de extrema vulnerabilidade, especialmente o enorme contingente de excluídos gerado pela visão mercadológica de mundo, representada pelo atual sistema capitalista hegemônico de cunho neoliberal. Um bom referencial para entender a gravidade da crise climática foi apresentado pelo jornalista David Wallace-Wells, editor da New York Magazine, ao publicar o livro A terra inabitável – Uma história do Futuro (Companhia das Letras, 2019). Não é exagero o alerta de Wallace-Wells de que seu livro contém “horror suficiente para induzir um ataque de pânico até nos de imaginação mais otimista”. Ele vê nas mudanças climáticas uma real “crise existencial”, em que estamos deixando por conta do acaso possibilidades dramaticamente infernais para um futuro bem próximo, cujo “resultado do melhor cenário é morte e sofrimento numa escala de 25 Holocaustos e o resultado do pior cenário nos deixa à beira da extinção”.

O momento pelo qual passa a humanidade, neste início de século XXI, é de extrema gravidade e, portanto, as possibilidades de profundas regressões, de barbárie e até mesmo de um colapso civilizatório nas próximas décadas já começam a permear algumas análises sobre conjuntura global e sobre o futuro da humanidade. O cenário é tão grave que a Universidade de Oxford criou em 2005 um Instituto para o Futuro da Humanidade – FHI (sigla em inglês), fundado e dirigido pelo filósofo sueco Nick Bostrom, dedicado à investigação de riscos de extinção da espécie humana. Com este mesmo propósito, a Universidade de Cambridge também criou em 2015 o Centro de Estudos de Risco Existencial – CSER. Segundo o cosmólogo e astrofísico britânico Martin Rees, que é professor de Cambridge, “este é o primeiro século na história mundial em que as maiores ameaças provêm da humanidade”. Por isso é que precisamos, com urgência, mudar radicalmente a nossa forma de estar no mundo.

Esse mal-estar civilizacional também é alimentado pela sensação de ausência de um projeto civilizatório. Há um vazio de ideias e ações, o que compromete ainda mais o futuro da humanidade, como bem expressou recentemente o sociólogo francês Alain Touraine, numa entrevista (El País, 28/03/2020) sobre a conjuntura da crise gerada pela pandemia do coronavírus: “hoje, não há nem atores sociais, nem políticos, nem mundiais, nem nacionais, nem de classe. Por isso, o que ocorre é totalmente o contrário de uma guerra, com uma máquina biológica de um lado e, do outro, pessoas e grupos sem ideias, sem direção, sem programa, sem estratégia, sem linguagem. É o silêncio.”

Para o sociólogo José de Souza Silva, a atual mudança de época histórica explica, de um lado, a crise de percepção que fragmenta os modos de interpretação da realidade e, de outro, a gênese da vulnerabilidade institucional que fragmenta os modos de intervenção nessa mesma realidade. Há, assim, uma crise de legitimidade das “regras do jogo” do desenvolvimento e “na eterna guerra entre a aparência (técnica) e a essência (visão de mundo, modo de pensar), a aparência continua ganhando a maioria das batalhas” (A mudança de época e o contexto global cambiante: implicações para a mudança institucional em organizações de desenvolvimento, 2003). Por isso, pensadores como Morin e outros propõem uma passagem do pensamento linear (enfoque em fragmentação, controle e previsibilidade), que sustentou a cultura patriarcal durante os últimos 6 a 7 mil anos, e vigora até hoje, para o pensamento complexo (enfoque em interações, incerteza e imprevisibilidade) que é bem mais abrangente para lidar com a complexidade da condição humana e da realidade que nos cerca (ver resumo de aprofundamento no Pensamento Complexo, abordado na palestra realizada no IHU Ideias, em 10/12). Nesse sentido, Morin nos alerta: “existem progressos possíveis, progressos incertos e todo progresso que não se regenerar, degenera. Tudo pode regredir.”

O filósofo político John Gray, que parece ser pouco conhecido no Brasil, no seu livro Cachorros de palha (Record, 2006), causou um certo pavor moral em muitos setores da ciência e da filosofia ainda impregnados com a ideia de que o progresso trará a salvação da humanidade. Em uma das passagens do livro, ele diz: “Hegel escreve em algum lugar que a humanidade só se contentará quando estiver vivendo num mundo construído por si mesma. Ao contrário, ‘Cachorros de palha’ argumenta a favor de uma mudança que se afaste do solipsismo humano. Os humanos não podem salvar o mundo, mas isso não é razão para desespero. Ele não precisa de salvação. Felizmente, os humanos nunca viverão num mundo construído por si mesmos.”

Ao que Gray sugere, que parece convergir com o entendimento das novas Ciências da Complexidade, quaisquer tentativas humanas de moldar a realidade segundo as visões mercadológica e cibernética de mundo (ou alguma outra), que estão disputando hegemonia nesta mudança de época histórica, estarão fadadas ao fracasso, o que pode acelerar ainda mais a interrupção prematura da experiência humana. É bem melhor apostarmos nosso futuro na revolução sociocultural em curso, na reforma do pensamento como propõe Morin, na revisão de nossas crenças e valores patriarcais, numa visão de mundo que dialogue com a realidade, que se afaste das ilusões de controle, hierarquia e apropriação da verdade, que aceite a aleatoriedade, a ambiguidade, as contradições, a multiplicidade, a imprevisibilidade e a incerteza que caracteriza a nossa frágil condição natural.

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