Hidronegócio, a distopia que já bate a porta

Água passa a ser cotizada em Wall Street e, como o petróleo, terá seu preço definido pelos cassinos financeiros. Cresce resistência contra sua privatização, apoiada até pelo Papa. Mas enfrentar Oligarquia da Água requererá novas estratégias

Nada de novo sob o sol, o capitalismo tudo transforma em mercadoria, cuja mercadoria mais vil é o ser humano (Marx em algum lugar dos Manuscritos). Um dia chegaria também na água, como chegou na terra, na biodiversidade, na cultura, nas religiões, nas pessoas humanas, inclusive nos órgãos humanos. A notícia é que a água começou a ser cotizada como uma commoditie no mercado futuro de Wall Street, cujo preço flutuará “como fazem o petróleo, o ouro e o trigo, tendo como base o índice Nasdaq Veles California Water (NQH2O) informou hoje CME Group” (El País).

O preço do metro cúbico da água terá como valor de mercado seu custo na Califórnia, onde o agro e hidronegócio escasseou a quantidade de água pelo uso intenso na irrigação. Portanto, em qualquer lugar do mundo, inclusive nos países pobres, o valor da água será referenciado no seu custo na Califórnia. Como toda commoditie, o valor da água será universal e único.

O mundo das ciências sociais define o capitalismo como uma forma organizada e racional de acumulação do capital. Baseado na propriedade privada intocável – por isso a reação ao Papa Francisco que disse na Fratelli Tutti não ser a propriedade privada uma deusa intocável -, na transformação de tudo e todos em mercadoria, na obsessão organizada de acumular bens e riquezas, na sacralidade do mercado, o capital avança agora para um bem essencial a todas as formas de vida: a água.

Como a água tem múltiplos usos – o capital só fala deles, mas não dos múltiplos valores -, ela pode ser privatizada em múltiplas atividades econômicas: agricultura, indústria, abastecimento doméstico, engarrafamento etc. A decisão do Congresso Brasileiro de privatizar o saneamento básico atende aos interesses de empresas privadas em se apossar do abastecimento doméstico de megacidades como São Paulo e outras no mundo.

Até agora havia – e há – resistências da sociedade civil no mundo inteiro. Também de certos setores religiosos, como Francisco na Laudato Si’. Houve guerras contra a privatização da água em Cochabamba e outros lugares do mundo. Centenas de cidades, cujos serviços de água tinham sido privatizados, recuaram em favor de serviços públicos. A razão foi simples, os preços subiram de forma exorbitante e a qualidade do abastecimento piorou. Mas, essas resistências apenas fazem com que a Oligarquia Internacional da Água (Ricardo Petrella) mude e aperfeiçoe suas estratégias.

Um exemplo claro se dá na Doutrina Social da Igreja Católica. Enquanto Francisco condena a privatização da água na Laudato Si’ (LS 27-31), um dicastério escreve “Aqua fons vitae” e, nas entrelinhas, como o diabo gosta, aceita a privatização da água (AFV 30). Aliás, um documento estranho, só encontrado em inglês e de responsabilidade do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Mas, esse documento merece uma análise à parte.

Sabemos que estamos numa mudança de época, outros falam até numa mudança de era. A humanidade e a Terra serão completamente diferentes do que são hoje até o final desse século. O futuro que a humanidade lá encontrará, entretanto, ninguém sabe qual é, mas o capitalismo tem certeza que nele tudo estará privatizado.

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2 comentários para "Hidronegócio, a distopia que já bate a porta"

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