Mercado, a última parada do Ocidente patriarcal?

Ele aprisionou a cognição humana. Talvez, após o controle pela força e pela fé, seja a última encarnação da insensatez humana que arrasta o planeta para o colapso socioambiental e o risco nuclear. Superá-lo exigiria um resgate de valores ancestrais de cooperação e cuidado

Arte: Mark Wagner
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Em todas as cosmogonias, três deuses dominam todos
os outros e põem em cena a trindade do poder.
Os latinos os chamam Júpiter, Marte e Quirino
deus dos deuses, da guerra e do dinheiro.
Abaixo, o reino dos homens comuns. Mais abaixo ainda,
um poder diferente atravessa todos os outros
e talvez um dia retome o seu lugar: o feminino, que domina
a reprodução das gerações e a transmissão do saber.”
(Jacques Attali)

Sob o ponto de vista da cognição humana, uma das principais características do Homo sapiens moderno talvez seja a sua aparentemente inarredável propensão ao autoengano. A realidade por ele percebida, via de regra, não guarda nenhuma correspondência com a realidade por ele vivida. Desde até mesmo antes das primeiras experiências na pólis, que afloraram na Grécia Antiga e noutras vastas regiões que compreendem os arredores do Mediterrâneo – berço das culturas e civilizações que forjaram o mundo ocidental –, não é incomum observar que os resultados das ações políticas têm sido contumazmente destoantes dos objetivos pretendidos. Dizendo de outro modo, nossos atores políticos estão sempre forjando mundos nos quais não é possível alcançar suas aspirações. Em muitos casos, os governos adotam e implementam políticas contrárias aos seus próprios interesses, gerando consequências catastróficas para suas populações.

Essa realidade paradoxal da conflituosa convivência humana foi muito bem investigada pela historiadora Barbara Thuchman (1912-1989), na sua reveladora obra A marcha da insensatez: de Troia ao Vietnã (1984), na qual ela destrincha os recorrentes desvarios políticos de governantes, que perduram desde os mitos épicos de Homero até os conflagrados tempos atuais, destacando quatro casos históricos mais notórios dessa insensatez:

1) a queda de Troia desencadeada a partir da recepção, pelos troianos, do ardiloso “presente de grego” – o atraente Cavalo de Troia, referente ao suposto acontecimento que encerrou aquela que é considerada a primeira das grandes guerras, ocorrida nos primórdios da formação do Ocidente;

2) o cisma protestante causado pelos abusos de seis papas da Renascença (Sisto IV, 1471-1484; Inocêncio VIII, 1484-1492; Alexandre VI, 1492-1503; Júlio II, 1503-1513; Leão X, 1513-1521; e Clemente VII, 1523-1534) que governaram desastrosamente a Cúria Romana e arrastaram o cristianismo ocidental para uma profunda crise;

3) as medidas tomadas por sucessivos ministros ingleses após a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), que deterioraram relações políticas, levando o império britânico a perder suas proeminentes e prósperas Treze Colônias norte-americanas, situadas na costa atlântica;

4) a notável imprudência política mantida por cinco presidências sucessivas, que vai de Eisenhower a Gerald Ford, durante o catastrófico engodo americano na longa guerra do Vietnã, que perdurou por quase vinte anos.

Neste imperscrutável século XXI, diante da inconteste deterioração em que se encontra o agônico mundo ocidental, os dois casos mais prováveis e notórios de insensatez política em andamento foram identificados pelo meticuloso pesquisador da Unicamp, Luiz Marques. O primeiro é a rápida degradação da sociedade americana, agora hiperacelerada pelo errático segundo desgoverno Trump, escolhido democraticamente e com expressiva maioria. O segundo é a destruição autoinfligida de Israel, proporcionada pela estratégia belicista e teocrática de Netanyahu para se manter no poder. Como bem ressaltou, recentemente, as ativistas Naomi Klein e Astra Taylor, “está-se enfrentando o fascismo do fim dos tempos.”

O fato é que ancorar todos os aspectos da existência humana a um suposto progresso guiado pelo pensamento econômico tem sido o mais grave dos desatinos políticos e, provavelmente, o maior autoengano que a humanidade assumiu como verdade, sobretudo nos últimos 200 anos de Revolução Industrial, que produziu a atual civilização termo-fóssil, hiperarmada com um gigantesco arsenal nuclear, assumidamente autodestrutiva, a ponto de levar o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, por ocasião da reunião do clima ocorrida em setembro de 2023, na sede das Nações Unidas, ao sombrio veredito: “a humanidade abriu as portas do inferno.”

A maior prova desse autoengano são os dois maiores impasses civilizacionais, sem precedentes na história da humanidade, com os quais nos deparamos neste início do século XXI: o colossal crescimento demoeconômico mundial que, desde 1971, não tem mais lastro sociofísico para sustentá-lo e, em consequência das crescentes hostilidades entre as grandes potências (EUA, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha), o crescente risco de escalada nuclear para uma terceira (e última) guerra mundial. É preciso agora, portanto, reconhecer esse autoengano, já que o modo de viver desse novo Homo economicus esbarrou nos seus limites lógicos. A seguir nessa rota de autodestruição, fato que inclusive já é reconhecido no âmbito das últimas avaliações anuais da maior instância decisória (e predatória) do planeta, o World Economic Forum, a humanidade corre o elevado risco de desaparecer antes mesmo do fim deste incognoscível século XXI.

Estamos agora enredados numa policrise civilizatória de cunho existencial que aparenta ter vindo para ficar, com enorme potencial de encerrar prematuramente a aventura humana, por conta de seis mil anos de insensatez. Seria cansativo listar aqui as inúmeras evidências da realidade que atestam esse estado de policrise. Um bom resumo do estado terminal em que se encontra o mundo contemporâneo está condensado neste abrangente e conciso artigo, também de Luiz Marques, que tem se dedicado persistentemente a monitorar e a alertar sobre o imperceptível e acelerado processo de colapso socioambiental antropogênico no qual estamos seriamente implicados.

Portanto, parece ser vital, hoje, levantar aquela que talvez seja uma das questões essenciais a ser tratada diante de uma realidade tão fúnebre: Como a humanidade chegou ao atual estado de policrise terminal? A resposta a esta pergunta talvez exija compreendermos em profundidade o longo curso da conflituosa história humana, ou seja, as origens das cosmovisões e dos mitos que moldaram as diferentes culturas e civilizações, ao mesmo tempo, ricas em inventividade, mas totalmente disfuncionais face à sua antropia – essa capacidade humana de perturbar e alterar os processos que regem toda a complexidade da teia da vida na Terra, cujos acoplamentos, hoje seriamente ameaçados, vinham sustentando nosso nicho humano (e de nossos ancestrais) por milhões de anos.

Um dos desdobramentos dessa questão é compreender a razão pela qual o ordenamento político criado pelos humanos, em suas diversas vertentes, atuantes pelo menos desde a Grécia Antiga, não conseguiu dar conta de desviar a humanidade dessa rota de policrise terminal. Só assim, teremos alguma chance de lidar adequadamente com as pulsões suicidárias que estão por trás dessas forças políticas tão irrefletidas, hoje recrudescentes mundo afora, que certamente já devem ter comprometido a possibilidade de haver alguma estabilidade civilizacional, pelo menos até as próximas duas ou três décadas. Pulsões estas provavelmente até mais mortais ainda do que aquelas contidas na ideia de necropolítica denunciada pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, haja vista a crescente dificuldade que os governantes terão, face à inaudita convergência de crises em curso, para decidir por meio da política quem deve viver.

No entanto, como talvez ainda estejamos no meio desse turbulento percurso, a tarefa mais urgente daqueles que se preocupam com um futuro vivível para as próximas gerações, sobretudo as lideranças mundiais e pensadores mais influentes, deveria ser buscar essa profundidade de compreensão e antever quais as brechas de atuação para neutralizar tais forças, historicamente, obscurantistas e autodestrutivas.

As três ordens políticas que forjaram o Ocidente

O historiador Eric Hobsbawm havia chegado à conclusão de que “a história é o registro dos crimes e loucuras da humanidade”. De fato, a história do Homo sapiens moderno, supostamente em processo civilizatório, tem sido um continuum de guerras, massacres e destruições, o que confirma que o ato de fazer política, que tem pelo menos 2.500 anos de existência, nunca se constituiu como um meio efetivo de superação dos males humanos. Como bem expressou o escritor britânico John Gray, “a política é arte de inventar remédios temporários para males recorrentes – uma série de expedientes, não um projeto de salvação.”

Portanto, talvez a política, assim como a noção de poder, seja apenas mais um dos muitos conceitos constitutivos do Ocidente, derivado dos ideais greco-judaicos que irromperam nos primórdios da formação da cultura ocidental. A política é um meio de lidar com relações assimétricas de poder, cuja origem provavelmente remonte a um contexto de época em que se buscava uma forma de racionalizar (por ordem) as conflituosas relações de poder (no caos) inerente à vida na pólis. Por outro lado, a própria noção de poder é um fenômeno decorrente do desejo de apropriação que caracteriza o que o neurobiólogo chileno Humberto Maturana (1928-2021) chamou de Cultura Patriarcal, esse novo modo de viver que (em oposição às culturas pré-patriarcais ou matrísticas precedentes) ganhou predominância após as sucessivas invasões kurgan, fenômeno antropológico ocorrido na Europa Antiga.

Sob essa perspectiva, quem talvez tenha conseguido identificar melhor as forças que forjaram o nascimento da política na pólis grega foi o escritor e economista francês Jacques Attali, quando disse: “três poderes sempre coexistiram: o religioso, que fixa o tempo das preces, dá ritmo à vida agrícola e determina o acesso à vida futura. O militar, que organiza a caça, a defesa e a conquista. O comercial, que produz, financia e comercializa os frutos do trabalho.”

Attali também foi quem bem identificou, no auge da globalização neoliberal, durante os anos 1990, o âmago do desequilíbrio geopolítico que estava por vir. Enquanto os defensores do liberalismo proclamavam que a História havia alcançado sua conformação última pela via da democracia liberal ocidental, Attali foi um dos poucos que refutou essa fantasia iluminista e anteviu o alvorecer de uma sombria fase civilizatória, quando afirmou: “começará, ou melhor, já começou, uma formidável batalha geopolítica, entre as democracias de mercado e o mercado, pela supremacia planetária. Essa batalha levará à vitória, hoje impensável, do capitalismo sobre os Estados Unidos, e até mesmo do mercado sobre a democracia.”

Portanto, o Mercado, essa entidade abstrata que capturou a subjetividade humana ao longo de cinquenta anos de hipnose neoliberal, está se firmando como o novo eixo civilizatório e o novo indutor comportamental do modo de viver humano, que vem arrastando as civilizações para o precipício neste século XXI. Inclusive talvez seja muito cedo para dizer que já ingressamos numa fase pós-capitalista – o tecnofeudalismo, como sugerem o economista e político grego Yanis Varoufakis e outros. Trata-se simplesmente do avanço do Mercado como bem alertou Attali: “o capitalismo só está mais vivo, mais dinâmico, mais prometedor, mais dominador. Os que anunciaram seu enterro pagarão, de novo, a conta.”

O Mercado representa o desdobramento de uma história milenar que se iniciou com uma ordem militar (o controle da suposta agressividade humana pelas armas), transitou por uma ordem religiosa (a aposta numa transcendência hierarquizada redentora), que hoje culmina numa ordem comercial (a ilusão num progresso material salvacionista). O mundo ocidental, que conduziu a humanidade e forjou a civilização tal como a conhecemos hoje, é resultante de um longuíssimo percurso que está assentado nessas três principais ordens políticas, intimamente imbricadas e interdependentes, que se mesclaram e se reforçaram mutuamente ao longo dos últimos seis mil anos da sangrenta e mórbida história humana. Para sairmos dos dois impasses civilizatórios globais em que nos encontramos hoje (processo de colapso socioambiental descontrolado e elevado risco de guerra nuclear global), talvez seja preciso investigar e compreender a gênese de tais ordens políticas, que condicionaram e regeram a aparentemente irreconciliável relação entre os homens e entre o homem e a natureza.

1) a ordem militar: seus primórdios estão provavelmente associados às invasões patrocinadas pelos povos pastores guerreiros indo-europeus ou arianos, vindos das estepes euroasiáticas, ocorridas entre sete e seis mil anos atrás. Trata-se da chamada hipótese kurgan referente às migrações indo-europeias, que teriam mudado radicalmente o padrão cultural até então predominante dos povos pré-patriarcais (povos de culturas matrísticas) que habitavam a Europa Antiga. Essa hipótese foi levantada pela arqueóloga lituana Marija Gimbutas (1921-1994), que mapeou três ondas migratórias desses povos kurgan, que devastaram populações inteiras e causaram um enorme choque cultural à época: Primeira Onda, de 4300-4200 a.C.; Segunda Onda, de 3400-3200 a.C.; e Terceira Onda, de 3000-2800 a.C.

Foi provavelmente a partir desse longuíssimo e gradual evento antropológico (ver a provável gênese desse processo aqui), em que as sociedades humanas, reconhecidas em um progressivo processo civilizador, ironicamente se transformaram numa permanente arena hobbesiana, na qual só uma ordem militar regida pela força das armas poderia conter a perene e inarredável “guerra de todos contra todos” (Thomas Hobbes, em Leviatã, de 1651).

2) a ordem religiosa: muitos estudos arqueológicos evidenciam que entre esses povos pré-patriarcais (matrísticos), por terem uma sociabilidade centrada numa cooperação não-hierárquica, predominava, desde o Paleolítico Superior, uma transcendência associada às divindades femininas, ao culto a uma Deusa-Mãe provedora da vida e da fertilidade, uma vez que vigoram cosmovisões cujas culturas percebiam-se interdependentes e indissociáveis do mundo natural. Como afirmava Humberto Maturana, “tudo indica que [as mulheres e os homens] viviam imbuídos do dinamismo harmônico da natureza, evocado e venerado sob a forma de uma deusa.” Conforme proposto na obra Primitive Culture (1871) do antropólogo Edward Tylor, criador da chamada antropologia cultural, nos primórdios das religiões vigorava o animismo, em que tudo na natureza é movido pela “anima” (alma em latim, que significa sopro, princípio vital), uma manifestação espiritual até hoje muito comum entre povos originários.

No entanto, esse prolongado e expansivo choque de cosmovisões decorrente das invasões kurgan parece ter sido responsável por causar uma profunda ruptura cultural, que no plano da transcendência favoreceu a mudança de deidades femininas para masculinas. Esse longo processo pode ter sido responsável pelo quase total apagamento das vivências, símbolos e rituais que caracterizavam as cosmovisões associadas às culturas matrísticas pré-patriarcais da Europa Antiga, passando a vigorar o entendimento de que a força da espada governa o mundo e de que o homem é um ser que precisa progredir de sua suposta infância primitiva, bárbara e selvagem para uma vida dita civilizada. Como disse a socióloga austríaca Riane Eisler: “tornava-se necessário estabelecer que os antigos poderes reguladores do universo – simbolizados pelo Cálice que dava a vida – haviam sido substituídos por deidades novas e poderosas em cujas mãos a Espada assumiria agora o poder supremo.” (O cálice e a espada: nosso passado, nosso futuro, 1987)

Um politeísmo centrado em deidades masculinas desponta gradualmente como força espiritual, o que pode ter propiciado, tempos depois, o surgimento do monoteísmo (provavelmente inaugurado pelo faraó egípcio Amenófis IV, 1364 a.C., que cultuou o primeiro deus Áton). Simultaneamente, as religiões abraâmicas (o Judaísmo fundado por Abraão, por volta do século XVIII a.C.; o Cristianismo por Paulo de Tarso; e o Islamismo por Maomé, no século VII d.C.), politicamente aglutinadas na figura do lendário legislador Moisés (século XIII a.C.), despontam como forma de controle da agressividade humana que reinava no tempo dos impérios, regido pela ordem militar. Com a prevalência da nova ordem religiosa, o homem passa a temer não só as armas, mas sobretudo o poder divino dos reis. Ela se instala como principal força política no mundo ocidental, e vigora absoluta ao longo das Idades Média e Moderna até o seu saturamento político, refletido principalmente na Revolução Francesa, quando a secularização coloca a ordem religiosa em um segundo plano e o poder dos mercadores irrompe, pouco a pouco, como nova ordem política hegemônica.

3) a ordem comercial: nessa mesma época remota, por volta de 3000 anos a.C., em que a ordem militar imperava e a ordem religiosa ainda nem havia despontado para mais tarde tornar-se hegemônica e tentar conter a suposta agressividade humana, algumas criativas tribos oriundas da Ásia se instalaram no litoral e nas ilhas do Mediterrâneo. Diante do ambiente de profunda degradação social gerado pela interminável conflagração entre muitos impérios beligerantes, elas perceberam, como bem disse o economista Jacques Attali, que “o comércio e o dinheiro são as suas melhores armas. Mar e portos, os seus principais terrenos de caça”.

Uma nova ordem comercial germinava como um inofensivo parasita. A partir de então, ela foi, gradualmente, se estabelecendo como uma eficiente forma de controle, dominação e manutenção da ordem na conflituosa convivência humana. Mas foi somente nos séculos XV a XVIII, no longo período que vai do mercantilismo ao início da Revolução Industrial, que esta ordem ganha vigor e se estabelece, tendo o liberalismo e o capitalismo como suas principais expressões política e econômica, respectivamente. O maior protagonista dessa nova ordem é a entidade Mercado, que gradualmente foi capturando a subjetividade humana e condicionando seu modo de viver, e tem tudo para constituir a última agonia da longa marcha da insensatez ocidental em direção a um suposto aprimoramento da condição humana.

A simbiose entre essas três ordens políticas definem o Ocidente e sua disfunção cognitiva, pois são elas que compõem o realismo político teorizado (e justificado) por Maquiavel, Hobbes, Clausewitz e outros, sobre o qual parece não haver saída, condenando a humanidade à autodestruição. Trata-se, portanto, de um aprisionamento cognitivo fundado nas dimensões teológica e teleológica da compreensão de mundo que forjou o Ocidente: a ideia de que uma Ciência do Bem e do Mal governa o conflituoso mundo dos homens e de que a Razão caminha inexoravelmente para superá-lo. São, portanto, abstrações humanas frontalmente desconectadas do mundo real, pois não guardam coerência interna e muito menos correspondência com a complexidade da realidade, haja vista os distúrbios de escala planetária a que chegamos.

Essas três ordens políticas constituem, portanto, o resultado de um processo milenar cujo atributo comum a todas elas é a necessidade de autoridade, dominação e controle do homem sobre uma realidade cada vez mais degradada que ele mesmo produziu ao ficar condicionado a um modo de viver apartado da natureza. Humberto Maturana chamou esse fenômeno antropológico de Cultura Patriarcal, em oposição às culturas pré-patriarcais (ou matrísticas) que caracterizavam o comportamento do Homo sapiens e de seus ancestrais, a qual ele definiu nos seguintes termos: “Esta [a Cultura Patriarcal] se caracteriza pelas coordenações de ações e emoções que fazem de nossa vida cotidiana um modo de coexistência que valoriza a guerra, a competição, a luta, as hierarquias, a autoridade, o poder, a procriação, o crescimento, a apropriação de recursos e a justificação racional do controle e da dominação dos outros por meio da apropriação da verdade”.

O mundo ocidental foi forjado sob os ditames dessas três ordens políticas. A partir delas, generais, sacerdotes e mercadores se reversaram no poder e sempre dominaram o destino dos povos e civilizações. Não por acaso, estas três ordens políticas abarcam os três temas mais vastos do conhecimento e quase todos os aspectos da experiência humana (sobretudo da cultura ocidental hegemônica), já registrados: a guerra, o monoteísmo e a atividade comercial. Se retirarmos essas três expressões culturais do cotidiano dos seres humanos, que sempre foi guiado por uma cosmovisão patriarcal e ocidentalizado em todas as suas dimensões, suas vidas, sobretudo das autoridades constituídas, se tornariam um enorme vazio de sentido e de significado.

Foi nos EUA, provavelmente a última nação hegemônica que a História conhecerá, que a sinergia entre essas três ordens políticas alcançou seu ápice, e caminha para alcançar seu esgotamento. O dólar enquanto moeda de reserva internacional, a maior força político-econômica da atualidade, é a expressão da ordem comercial; a OTAN junto com as cerca de 750 base militares americanas espalhadas pelo globo são a expressão da ordem militar; e os evangélicos ultraconservadores (tal como a ética protestante no passado) como vetores de prosperidade e salvação da humanidade a expressão da ordem religiosa. O ápice dessa sinergia deu-se somente na segunda metade do século XX, consolidando o destino manifesto americano e a culminância da crise civilizatória, que sempre fez parte do longuíssimo e turbulento processo civilizador fantasiado pelo mundo ocidental.

No entanto, ironicamente, o Mercado, essa que talvez seja a última ordem política produzida pelos ideais de um Ocidente em declínio, hoje representado pelo excepcionalismo americano, é quem mais o ameaça, como havia previsto, há mais de vinte anos, Jacques Attali:

A situação é simples. As forças do mercado detêm o planeta ‘nas mãos’. Última expressão do individualismo, essa marcha triunfante do dinheiro explica o essencial dos mais recentes sobressaltos da História: para acelerá-la, para recusá-la, para dominá-la.

Se essa evolução chegar ao fim, o dinheiro acabará com tudo o que pode prejudicá-lo, incluindo os Estados, que ele destruirá aos poucos, até mesmo os Estados Unidos da América.”

Por isso, pode-se afirmar com segurança que essa entidade abstrata e totalizante que conhecemos por Mercado tornou-se hoje, inequivocamente, a religião dominante da humanidade, a nova engrenagem (des)reguladora da civilização contemporânea, que, no fundo, talvez represente a última agonia que sempre marcou os ideais de progresso e de salvação que conduziram, e ainda conduzem, o longo e persistente projeto civilizador do Ocidente, que irrompeu a partir do surgimento dos ideais greco-judaicos, 1.300 anos antes da Era Cristã. É esta engrenagem denominada Mercado que capturou o irrefletido imaginário humano e que está empurrando, silenciosa e aceleradamente, a humanidade para o precipício.

As morbidades de um Ocidente agora agonizado pelo Mercado

Cada época histórica é marcada por conflitos característicos do contexto social em que as forças políticas vigentes operam. Por exemplo, nos séculos XVII ao XIX foram as revoluções burguesas contra os absolutismos ungidos pelo cristianismo. Uma vez superada a degradação da nobreza feudal, o grande conflito do século XX foi o embate entre capitalismo e socialismo. Agora no XXI, após a conformação do capitalismo como modo de vida global hegemônico, o grande confronto civilizatório parece caminhar para o dilema cultural, entre a hegemonia dos valores ocidentais, cada vez mais submetidos à algoritmização, e os autoproclamados antiocidentais, representados no plano geopolítico especialmente pela expansão do bloco dos BRICS, os países emergentes que aspiram a uma nova ordem mundial multipolar, que se pretende pacificadora, democrática, sustentável e pós-humana. Mas ainda é muito cedo para apostar na emergência dessa Pax multipolar.

A atual civilização globalizada sob os ditames do Mercado é resultante da conjugação das três ordens: militar, religiosa e comercial, sendo regidas por esta última. Estamos nos aproximando da tempestade perfeita das crises que sempre acompanharam a civilização. Como bem alertou Attali:

Três forças lutam, nos bastidores, pelo domínio do planeta. Três forças com as quais a humanidade sempre conviveu, porque estão no poder desde os primórdios dos tempos: sacerdotes, generais e mercadores. (…) Se continuarmos como estamos, estas três forças destruir-se-ão umas às outras e, no processo, a humanidade.”

Após a grande ruptura cultural infligida pelas invasões kurgan, o comportamento do Homo sapiens moderno, ao contrário da dinâmica da teia da vida, tem sido movido, ao longo do percurso civilizatório, mais por uma pulsão de morte (Tânatos) do que pela preservação da vida (Eros), como bem havia intuído Sigmund Freud, que inclusive já parecia ter identificado a força das ordens militar e religiosa quando percebeu que o exército e a igreja são as duas “massas artificiais” nas quais “vige a miragem (ilusão) de que há um chefe que ama todos os indivíduos da massa com o mesmo amor.” (Psicologia das Massas e Análise do Eu, 1921). Ao que parece, Freud ainda não tinha, à sua época, elementos suficientes para identificar a massa artificial mercadológica (chefes de si mesmo) que só irromperia no pós-guerra mundial.

O fato é que, após ter transitado pelas ordens militar e religiosa ao longo de seis mil anos, o culto à dominação e à apropriação encontra agora no Mercado a manifestação antropológica mais potente da Cultura Patriarcal, sintetizada hoje na normalização da demonização do outro, da confluência de várias guerras e da devastação planetária. Como bem percebeu o pacifista Ruben Bauer, inspirado em Gramsci, “sintomas mórbidos vão deixando de ser pontuais para se tornarem norma.”

1) a morbidade psíquica

Humberto Maturana afirmava, com base na biologia, que 99% das enfermidades humanas estão relacionadas à negação do outro, na medida em que a aceitação do outro é o fundamento biológico do fenômeno social. Parece ter sido exatamente este o mais devastador desdobramento psíquico da Cultura Patriarcal, instalada por volta de seis mil anos atrás. Uma vez imerso no perene conflito do intratável modo de viver patriarcal ao qual ficou condicionado, o homem desconectou-se de si mesmo. A dissonância entre o biológico e o cultural estava posta. A partir de então, pôs-se em marcha o conflito interno, ou seja, o permanente entrechoque do novo viver patriarcal, sob a lógica da apropriação, com a natureza matrística do animal humano, cooperativo e não-hierárquico, tornando-o desenraizado.

As pessoas, com exceção da crescente maioria de indigentes produzidos pela lógica do Mercado, seja qual for a classe social, religiosa ou étnica a que pertençam, desejam agora apenas estar inseridas no novo mundo das comodidades tecnológicas e do entretenimento alienante. Consumo, acumulação, autossuficiência, ostentação, hedonismo, desempenho e individualismo são hoje as aspirações que mais capturam a subjetividade humana, totalmente reduzida à lógica do Mercado. Com a nova sociabilidade integralmente mediada pelo Mercado, a ideia de competição como suposto fundamento inescapável da evolução e do modo de viver humano é levada ao seu extremo. Amplificou-se, desse modo, ainda mais as diversas psicopatias e sociopatias que sempre estiveram presentes na cultura ocidental.

Muitos não conseguem se moldar a essa imposição civilizatória derivada do modo de viver patriarcal milenar, dado que tal modo de viver é conflitante com a essência matrística do animal humano. Em face desse viver antagônico, ficam suscetíveis aos inúmeros tormentos psíquicos que afligem uma parcela considerável da humanidade, como ansiedade, depressão, narcisismo, solidão, esquizofrenias, misoginia, xenofobias, criminalidade, patrimonialismo, corrupção, toxicodependência, restando em muitos casos, o suicídio como solução aparentemente inescapável diante da agudização dos conflitos internos que tais distúrbios causam nos indivíduos. Como bem constatou o escritor John Gray, “a saúde pode ser a condição natural das outras espécies, mas no caso dos homens o normal é a doença. Estar cronicamente doente é parte do que significa ser humano”.

2) a morbidade ambiental

Mais do que incompatível com a psique humana, o Mercado é o maior responsável pelo acelerado, incontrolado e não raro negado processo de colapso socioambiental em curso. O agravamento das mudanças climáticas já é uma verdade incontornável, reiteradamente confirmada nos mais recentes relatórios de entidades como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), ambos ligados à ONU, e o observatório Copernicus, os quais atestam que o tempo para evitar o tipping point e o consequente colapso de todo o ecossistema Terra está se esgotando. Uma morbidade de origem antrópica para a qual os governantes, conduzidos pela insensatez da apropriação mercadológica a qualquer custo, têm pouquíssimo tempo para começar a propor e implementar políticas globais efetivas de mitigação e reversão do inaudito armagedom climático que a humanidade começará a experimentar, provavelmente já por volta de 2030.

A humanidade já está próxima de ultrapassar sete das nove fronteiras planetárias, tornando-se refém de ondas de calor letais, secas severas, incêndios florestais devastadores, derretimento das calotas polares com o consequente aumento do nível dos oceanos, inundações, furacões e ciclones colossais, declínio acelerado da biodiversidade, poluição químico-industrial descontrolada, migrações humanas forçadas, crises sanitárias recorrentes, dentre outras anomalias ambientais, reforçando ainda mais a tendência a conflitos regionais, agora por recursos naturais declinantes. Tudo isso associado a um degradado contexto geopolítico que retroalimenta a catástrofe socioambiental em curso. E essa lista cataclísmica contempla apenas alguns dos indícios mais visíveis de uma aflição civilizatória que está só no seu início.

Para quem ainda não está bem a par desse fatídico dado da nossa sombria realidade ambiental, as evidências científicas do cataclismo climático anunciado já para as próximas décadas estão todas dissecadas no livro-dossiê O decênio decisivo: propostas para uma política de sobrevivência (Editora Elefante, 2023), do pesquisador da Unicamp Luiz Marques, para quem “os anos 2020 serão decisivos se quisermos evitar que as crises postas em marcha pelo sistema econômico global ultrapassem nossa capacidade de adaptação. As opções, agora, são entre um futuro pior, mas ainda reversível a longo prazo, e um futuro em estado terminal”.

3) a morbidade geopolítica

Se observarmos bem, a História é uma sucessão de hegemonias ocidentais intercaladas por lapsos ocasionais de regressões civilizatórias multipolares. O mundo ocidental nunca comportou a coexistência de mais de uma potência (com predominância militar, religiosa, econômica e cultural, simultâneas) por muito tempo, sobretudo se elas estiverem operando fora dos padrões teológicos e teleológicos que configuram a cognição ocidental. Foi assim ao longo de toda a Era Cristã, começando pelo Império Romano (27-395 d.C.), seguido dos impérios Bizantino (395-1453), Romano-Germânico (800-1806), Britânico (1583–1783) e agora o decadente imperialismo Americano (1803-2001).

Seguindo essa cadência imperialista, os regimes políticos ocidentais transitaram pelo escravismo, feudalismo, absolutismo, até chegar ao liberalismo, segundo consta nos registros sociológicos da História. Interessante notar como a historiografia, que é um espelho da percepção ocidental de mundo, sempre procurou dar um viés hegeliano à passagem do tempo, indicando uma suposta evolução política na conflituosa relação entre os homens. A humanidade estaria em vias de concluir a gradual transição da escravidão, decorrente de um suposto primitivismo humano, em direção à liberdade conquistada na pós-modernidade. Quando, no fundo, o que se observa é uma sofisticação do poder destrutivo das engrenagens ocidentais. Regrediu-se ainda mais, acrescentando-se à histórica escravidão das três ordens políticas ocidentais a escravidão psíquica, ambiental e geopolítica.

O liberalismo, essa convergência hegeliana final das três ordens políticas, que encantou o mundo ocidental na Era Vitoriana (1815-1914), e que, depois de ressuscitado sob a alcunha do neoliberalismo totalizante, promoveu uma Pax Americana (1945-1991) só para as potências econômicas do Norte Global, talvez se confirme como a última tentativa frustrada de estabilizar o projeto civilizador do Ocidente. Sim, o liberalismo está morrendo, por diversas razões. A principal delas foi o esgotamento de duas lógicas ilusórias que sustentaram, desde sempre, o Ocidente: a ideia de progresso e de universalização. O fracasso do Fim da História pela via da democracia liberal, brevemente celebrado durante os anos 1990, deu-se principalmente por dois principais motivos: ignorou-se, de um lado, a incompatibilidade entre a essência predatória e expansionista do capitalismo e os limites do ecossistema Terra, e de outro, o pluralismo de modos de vida inerente à inarredável e incontida diversidade de culturas, tradições e costumes.

Esses dois mitos (o progresso e o universalismo) constituem os principais fundamentos do sempre agônico projeto civilizatório ocidental, desde a democracia ateniense até a democracia liberal estadunidense. São eles que alimentam a fantasia humana de tentar moldar o mundo segundo a sua imagem e, desse modo, salvá-lo de um suposto mal a ser exterminado, que inclui aqueles que não seguem a lógica de apropriação do Ocidente. Foram esses dois mitos que sustentaram a longa cruzada ocidental que exterminou muitos povos e culturas originários.

O Mercado, a última das três ordens políticas que ainda não tinha alcançado a sua plenitude, tornou-se neste turbulento início do século XXI o novo espírito civilizacional. A humanidade experimentará num horizonte muito próximo a culminância de todas as regressões, a policrise sintetizada na convergência das muitas crises interconectadas – ambiental, geopolítica, social, ética, energética, alimentar etc. A conjugação das ordens militar e religiosa sob a predominância da ordem comercial é avassaladora, uma vez que não conta mais com os freios e contrapesos que de algum modo atenuavam a agonia ocidental. Os regimes democráticos, embora apropriados pelos ideais greco-judaicos e romano-cristão, estão se esvaindo rapidamente; a tolerância liberal prometida pelo Estado secular está morrendo junto com o liberalismo; e a alteridade cristã perde cada vez mais espaço frente ao avanço do sectarismo neopentecostal. Tudo reflexo da nova subjetividade produzida pelo Mercado, que agora se torna cada vez mais algoritmizada, distópica e, portanto, insensível à condição humana e ecológica.

A aspiração de um novo mundo multipolar reflete não só um sintoma da decadência do Ocidente mas a expressão geopolítica dessa nova hegemonia da ordem comercial, representada por essa entidade, agora totalizante, que conhecemos por Mercado. Nessa nova conformação civilizatória, armas e crenças são canalizadas não mais para manter impérios e nações, e sim para transformar o já degradado planeta Terra num supostamente inesgotável balcão de “recursos naturais”, em commodities negociáveis, e para mercantilizar todas as dimensões da experiência humana, inclusive tornando a morte um ativo econômico.

O consenso entre a maioria dos governantes, diplomatas e analistas de mercado é o de que uma nova racionalidade multipolar já estaria em andamento. Pelo menos em sonho, pois como bem ressaltou Jo Inge Bekkevold, ex-diplomata e pesquisador no Instituto Norueguês de Estudos de Defesa: “a crença em uma multipolaridade que não existe faz parte de todo um buquê de esperanças e sonhos para a ordem global.”

A configuração internacional existente hoje é, no máximo, um mundo tripolar conflagrado e sem perspectiva de estabilização. Nesse cada vez mais sombrio cenário geopolítico, talvez não seja exagero a recente advertência feita pelo escritor Jacques Attali: “o mundo de hoje está em grande parte nas mãos de três predadores, que exploram suas próprias populações e todos aqueles que se deixam subjugar: Rússia, China e Estados Unidos.” Representando a tríade da desarmonia global, esses países são os maiores artífices da distopia do novo e inebriante capitalismo de vigilância. Juntos impulsionam o “melhor” da disrupção tecnológica, autocrática e armamentista, que hoje coroa a hegemonia do Mercado e tenciona a geopolítica a patamares inauditos, refletidos nos três principais conflitos geopolíticos em andamento (Ucrânia, Palestina e a guerra tecno-comercial sino-americana). A geopolítica é guiada agora por sanções unilaterais, guerras tarifárias e supressão de regimes democráticos. Estadistas tendem a ser substituídos por mercadores. Tratados e acordos entre nações por business internacionais entre Estados-corporação.

Daqui por diante, só aqueles Estados-corporação mais adaptados ao sistema-mundo Mercado (o último suspiro do Ocidente) moverão as peças no tabuleiro geopolítico desse novo desejo multipolar, insano, catastrófico e terminal. Rússia e China, por mais legítimas que sejam suas intenções de estancar a hegemonia militar e econômica dos EUA, são as sombras de um Ocidente em decesso, pois operam sob essas mesmas ordens políticas que forjaram o mundo ocidental. A Rússia, que se vê ameaçada existencialmente desde quando a OTAN foi criada, é talvez o único Estado-nação que ainda mantém muitos resquícios do modo clausewitziano de governar, pelo menos enquanto Putin estiver na liderança. A enigmática China, embora ainda preserve uma diplomacia confucionista pacientemente cautelosa, conseguiu aliar ao seu socialismo de mercado autóctone o capitalismo iliberal (para não dizer fim do ideal de democracia), a vigilância digital (para não dizer fim dos afetos) herdada do Vale do Silício e a reprimarização da economia (para não dizer aceleração do colapso ambiental) do Sul Global, por isso é talvez hoje a nação mais adaptada a estes tempos mórbidos.

A extrema-direita, subproduto de quatro décadas de devastação neoliberal globalizada, que extinguiu a direita histórica, é a expressão política da morbidade contemporânea. É ela quem está transformando os Estados-nação em Estados-corporação vigilantes, salvacionistas e distópicos. A social-democracia da centro-esquerda, que ainda fazia algum contraponto ao capitalismo predatório, excludente e ecocida, está se esvaindo. A esquerda histórica, que tanto sonhou com a utopia de Estados socialistas, também está em processo lento de extinção por não ter compreensão epistêmica suficiente para pensar e oferecer alternativas à nova subjetividade hegemônica do Mercado. Prenúncios do fim do espectro progressistas-conservadores, essa dicotomia que ofuscou nosso problema de fundo: a Cultura Patriarcal milenar.

O fenômeno da mercantilização da vida (e até mesmo da morte) está, portanto, alçando o Mercado à condição de novo regulador civilizatório, assumindo gradualmente o lugar do Estado-nação. Combinado com a crescente e perigosa retração dos regimes democráticos, resultante da captura do Estado pelos agentes do mercado – um punhado de megacorporações transnacionais –, essa nova realidade mórbida vem, em simbiose com as inovações do inebriante novo mundo dos algoritmos, acelerando o processo de degradação dos vínculos de coesão social, desencadeando uma profunda regressão geopolítica e socioeconômica, gerando uma desigualdade social abissal e, brevemente, um planeta inabitável.

Esse mundo humano, em crescente desajuste, decorre, portanto, de uma sucessão de desdobramentos do problema raiz cognitivo-estrutural da Cultura Patriarcal milenar. A última morbidez dessa longa marcha talvez seja essa aspiração pela multipolaridade, resultante dos cinquenta anos de neoliberalismo high tech que minaram a utopia do Estado-nação – a desejada síntese hegeliana de aprimoramento da convivência humana –, e criaram o atual ambiente de vale-tudo governado pela distopia do sistema-mundo Mercado. Hoje se produz, deliberadamente, o caos para vender uma suposta racionalidade do Mercadoarquitetos do caos retroalimentando o caos. Mas essa já era uma catástrofe anunciada, infelizmente ignorada pelo Ocidente. Como bem alertou o filósofo político Jonh Gray, em 1998: “quando o laissez-faire global ruir, uma profunda anarquia internacional será a perspectiva mais provável para a humanidade.”

As crescentes turbulências geopolíticas em curso apenas demonstram que voltamos ao terreno clássico da história do Ocidente, de guerras irredentistas agora amplificadas mundialmente pela globalização dos ideais de apropriação do Ocidente e pela disputa malthusiana por energias e recursos naturais declinantes. Só resta à humanidade apertar o cinto de segurança nas próximas duas ou três décadas, que serão desgovernadas pelo imperativo de Mercado, e torcer pela emergência de uma ruptura civilizatória restauradora – isso contando que o sistema Terra não já ultrapassou as fronteiras planetárias, comprometendo em breve a permanência do nicho ecológico humano.

Sobreviveremos ao Mercado, a última “parada” da conflituosa marcha do Ocidente?

Não temos clareza nem consenso sobre como chegamos ao nosso atual modo de vida. Por conta disso, normalizamos o mundo humano como ele se apresenta, sempre conflituoso, contraditório e perturbador. Ficamos, desse modo, dependentes de uma ontologia ocidental cuja gênese, por não ser examinada criticamente, torna qualquer tentativa de mudança sempre uma repetição do passado.

Foi nesse compasso que cada época histórica viveu e se moveu segundo as forças da ordem política predominante, sem que houvesse qualquer transformação substancial que pudesse estancar os recorrentes flagelos civilizatórios vivenciados. O tempo dos impérios na antiguidade sucumbiu pela saturação de intermináveis batalhas entre mais de cinquenta reinos beligerantes, até que sobreveio o cristianismo. A profunda regressão que marcou a transição da Idade Média para a Idade Moderna na Europa resultou na degradação da autoridade papal durante a Renascença, até que sobreveio o Estado-nação soberano. A grande depressão civilizatória durante o catastrófico século XX foi provocada pelo excesso de Estado hobbesiano, até que sobreveio a solução do “capitalismo democrático” estadunidense globalizado, que agora está promovendo um acelerado processo de desconstituição do Estado-nação em prol dessa nova entidade totalizante chamada Mercado, agora turbinada por predadores digitais.

Brevemente, a agonia civilizatória será o esgotamento da lógica imposta pelo Mercado, sem que haja uma ordem política substituta para superá-lo. Esgotar-se-ão, assim, as três forças políticas que sustentaram a longa marcha da insensatez do projeto civilizador do Ocidente. Como a História nos ensina que o homem não suporta a hostilidade de uma realidade muito regressiva e degradada (pois sempre a “remediou” dentro da Cultura Patriarcal), só nos resta apostar na emergência de uma governança global democrática restauradora que resgate as ancestralidades ainda presentes no viver humano, aquele ânimo cooperativo e não-hierárquico dos povos originários e das culturas pré-patriarcais exterminadas pelas invasões kurgan. Enfim, que o feminino “que domina a reprodução das gerações e a transmissão do saber”, como ressaltado por Jacques Attali na epígrafe deste texto, possa retornar ao seu lugar de sustentação da vida.

Essa possibilidade de haver uma abertura para uma restauração antropológica, de que o Mercado – que ganhou centralidade e capturou integralmente a subjetividade humana – possa estar em vias de colapsar junto com a Cultura Patriarcal milenar, está muito bem representada no filme The Last Stop in Yuma County (Francis Galluppi, 2023). Toda a trama se passa numa lanchonete, vizinha a um posto de combustível de beira de estrada, que está desabastecido (símbolo do declínio ecológico e da escassez que marcam o tempo presente). O ambiente é visivelmente desértico, desolador e isolado a 160km da cidade mais próxima (símbolo da hostilidade de um planeta Terra degradado, já num avançado estágio de inabitabilidade), num pequeno condado do estado do Arizona (apropriadamente, o imbróglio se passa nos EUA, o centro irradiador do sistema-mundo Mercado). As conflituosas relações entre todos os personagens, bem ao estilo Tarantino de projetar o violento e irremediável mundo humano, representam uma metáfora fiel da condição terminal do Homo sapiens ocidental.

O enredo gira em torno de uma bolsa com milhares de dólares (símbolo palpável do desejo ocidental gerado pela ordem comercial) roubados de um banco (outro símbolo) há poucas horas por dois assaltantes. Os transeuntes, todos armados (símbolo da ordem militar inerente à sociabilidade patriarcal), que ali aportam por necessidade de abastecimento (carros e petróleo, também símbolos palpáveis da ordem comercial de nossa civilização termo-fóssil), inclusive os assaltantes, veem-se obrigados a parar e aguardar na lanchonete, por longas horas, o reabastecimento do posto de combustível cuja previsão é incerta, o que acaba despertando a cobiça de todos pela vultosa quantia (símbolo de felicidade e realização da sociabilidade mercadológica), supostamente redentora.

O desfecho, como era de se esperar, é demasiadamente sangrento e terminal. Quase todos os personagens da trama são caricaturas do animal humano patriarcal, dominador, insaciável e destrutivo. Dentre esses personagens irremediavelmente conflituosos, o que consegue sobreviver por mais tempo é o mais ocidental de todos (incorpora a síntese das três ordens políticas). Ele está sempre sopesando (dos pontos de vista militar, religioso e comercial) suas atitudes para obter a melhor apropriação possível diante do conflituoso contexto em que se encontra implicado.

Ao final, todos sucumbem ante suas ambições e conflitos internos (por isso, o título do filme “A última parada …”), restando apenas aqueles poucos que não se enquadram nesse mundo humano de apropriação e desejo desmedido: um recém-nascido naturalmente matrístico (ninguém chega ao mundo já moldado pela Cultura Patriarcal; torna-se Patriarcal pela imersão e interação na Cultura); um jovem e ingênuo policial ainda não contaminado pela subjetividade das ordens políticas ocidentais; e um belo passarinho, que despretensiosamente observa a aparentemente incurável insensatez humana. Este último se apresenta na trama como um observador ocasional (simbolizando a Mãe-Terra, Gaia, ainda tolerante com a destruição Patriarcal), testemunhando o minuto inicial e o minuto final do trágico fim resultante da sucessão de absurdos humanos que se desdobram ao longo do filme.

Tal como ocorrido no condado de Yuma, magistralmente retratado pelo diretor Galluppi, o Mercado que aprisionou a cognição humana ao deus Quirino (além de Júpiter e Marte) tem tudo para se revelar “a última parada” da agonia ocidental. Oxalá (para usar aqui uma expressão que remete às nossas ancestralidades apagadas pela História) também sobrevivam, após essa policrise terminal, nossas referências ancestrais: as crianças, os jovens e alguns resquícios de vida do degradado ecossistema Terra, de modo a permitir a restauração das culturas pré-patriarcais, que certamente conviveram por milhões de anos sob um consenso adaptativo complexo inerente à Natureza, que é regida por uma cooperação não-hierárquica dialógica, e não pela insensatez das ordens políticas do Ocidente – a guerra, a redenção e o dinheiro.

As condições objetivas da realidade humana estão dadas. Estamos bem próximos de ingressar no novo mundo terminal da policrise gerada por uma longa marcha de apropriação ocidental. Resta apostar no quanto dessa nova realidade terminal o animal humano suportará. Talvez só quando estivermos mais próximos da agonia final, os seres humanos retornem à sua compreensão original de que um futuro ancestral, como bem intuiu Ailton Krenak, é uma inevitabilidade da complexidade da teia da vida. Seja qual for o desfecho desses seis mil anos de desvio civilizatório causado pela predominância da Cultura Patriarcal que forjou esse Ocidente cognitivo antiancestral, uma coisa é certa: a Terra, com ou sem humanidade, certamente retornará ao seu curso normal quando o Homo sapiens ocidentalizado não estiver mais ruminando sua insensatez por aqui.

Se tomarmos a história como nosso guia,
devemos esperar que o livre mercado global pertencerá,
em pouco tempo, a um passado irrecuperável.
Como outras utopias do século 20,
o Laissez-faire global – junto com suas vítimas –
será engolido pelo buraco da memória da história.”
(John Gray, 1998)

NOTA: este texto contou com uma proveitosa leitura crítica do articulista Ruben Bauer Naveira, colaborador do Outras Palavras, a quem agradeço.


Leitura recomendada

ATTALI, Jacques. Uma breve história do futuro. São Paulo: Novo Século Editora, 2008.

BAUER, Ruben. O pós-guerra nuclear no Brasil. Série de artigos publicados pelo Outras Palavras, disponível em https://www.brasilutopia.com.br.

DA EMPOLI, Giuliano. A hora dos predadores: como autocratas e magnatas digitais estão levando o mundo à beira de um colapso orquestrado. São Paulo: Vestígio, 2025.

EISLER, Riane. O cálice e a espada: nosso passado, nosso futuro. São Paulo: Palas Athena, 2007.

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. Porto Alegre: LP&M Editores, 2010.

GRAY, John. A anatomia de Gray. Rio de Janeiro: Record, 2011.

GRAY, John. Falso amanhecer – os equívocos do capitalismo global. Rio de Janeiro: Record, 1999.

KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

MARQUES, Luiz. Capitalismo e colapso ambiental. Campinas: Editora da Unicamp, 2018.

MARQUES, Luiz. O decênio decisivo: propostas para uma política de sobrevivência. São Paulo: Editora Elefante, 2023.

MATURANA, Humberto R. Conversações matrísticas e patriarcais. In: ______; VERDEN-ZÖLLER, G. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano. São Paulo: Palas Athena, 2004.

MATURANA, Humberto R. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

STONE, Merlin. Quando Deus era Mulher. São Paulo: Goya, 2022.

TUCHMAN, Barbara. A marcha da insensatez: de Troia ao Vietnã. Rio de Janeiro: Agir, 1985.

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