E o inferno se fez em duzentos anos

Há 12 milênios, um clima especialmente ameno permitiu ao Homo sapiens desenvolver-se plenamente. Mas seu esplendor deu-se às custas de todas as demais espécies Neste divórcio estão as raízes da crise civilizatória e da tragédia que bate às portas

Por José Eustáquio Diniz Alves, no EcoDebate“

Estamos em um carro gigante, acelerando na direção de uma parede de tijolos e todo mundo fica discutindo sobre onde cada um vai sentar”
David Suzuki

O Homo sapiens surgiu e se espalhou pelo mundo no período geológico do Pleistoceno, mas foi no Holoceno que floresceu a civilização e a espécie humana se tornou uma força onipresente no território global. A população mundial era de cerca de 5 milhões de habitantes no início do período Holoceno, há cerca de 12 mil anos. A estabilidade climática do Holoceno propiciou o florescimento do desenvolvimento econômico e social e o ser humano expandiu as atividades agrícolas, a domesticação dos animais, construiu cidades e montou uma máquina de produção e consumo de bens e serviços jamais vista nos 4,5 bilhões de anos da Terra.

O crescimento da população e da produção foi de tal ordem que prêmio Nobel de Química, Paul Crutzen, avaliando o grau do impacto destruidor das atividades humanas sobre a natureza afirmou que o mundo entrou em uma nova era geológica, a do Antropoceno, que significa “época da dominação humana”. Representa um novo período da história do planeta, em que o ser humano se tornou a força impulsionadora da degradação ambiental e o vetor de ações que são catalisadoras de uma provável catástrofe ecológica.

A Terra entrou em uma espiral da morte. A 6ª extinção em massa das espécies e a crise climática são as ameaças mais urgentes do nosso tempo. E o tempo para reverter esta espiral da morte está se esgotando. Será necessária uma ação radical para salvar a vida no planeta. O progresso demoeconômico tem gerado externalidades negativas para o meio ambiente.

O Antropoceno é uma era sincrônica à modernidade urbano-industrial. A Revolução Industrial e Energética que teve início na Europa no último quartel do século XVIII deu início ao uso generalizado de combustíveis fósseis e à produção em massa de mercadorias e meios de subsistência, possibilitando uma expansão exponencial das atividades antrópicas.

Em 250 anos, a economia global cresceu 135 vezes, a população mundial cresceu 9,2 vezes e a renda per capita cresceu 15 vezes. Este crescimento demoeconômico foi maior do que o de todo o período dos 200 mil anos anteriores, desde o surgimento do Homo sapiens. Mas todo o crescimento e enriquecimento humano ocorreu às custas do encolhimento e empobrecimento do meio ambiente. O conjunto das atividades antrópicas ultrapassou a capacidade de carga da Terra e a pegada ecológica da humanidade extrapolou a biocapacidade do planeta. A dívida do ser humano com a natureza cresce a cada dia e a degradação ambiental pode, no limite, destruir a base ecológica que sustenta a economia e a sobrevivência humanas.

No Antropoceno, a humanidade danificou o equilíbrio homeostático existente em todas as áreas naturais. Alterou a química da atmosfera, promoveu a acidificação dos solos e das águas, poluiu rios, lagos e os oceanos, reduziu a disponibilidade de água potável, ultrapassou a capacidade de carga da Terra e está promovendo uma grande extinção em massa das espécies. O egoísmo, a gula e a ganância humana provoca danos irreparáveis e um ecocídio generalizado, que pode se transformar em suicídio.

As emissões de gases de efeito estufa (GEE) romperam com o nível de concentração de CO² na atmosfera, de no máximo 280 partes por milhão (ppm) prevalecente durante todo o Holoceno. Em 2019, o índice já está acima de 410 ppm e subindo cerca de 2,5 ppm ao ano, na atual década.

Com mais GEE na atmosfera, a temperatura média tem subido e a Terra está acima de um grau mais quente do que o período pré-industrial, podendo iniciar um período de descontrole climático. Esta possibilidade foi aventada em estudo de Steffen e colegas (2018) que indicou que a Terra pode entrar em uma situação com clima tão quente que pode elevar as temperaturas médias globais a até cinco graus Celsius acima das temperaturas pré-industriais. Isto teria várias implicações, como acidificação dos solos e das águas e aumentos no nível dos oceanos entre 10 e 60 metros.

O estudo mostra que o aquecimento global causado pelas atividades antrópicas de 2ºC pode desencadear outros processos de retroalimentação, podendo desencadear a liberação incontrolável na atmosfera do carbono armazenado no permafrost, nas calotas polares, etc. Em função do efeito dominó, as “esponjas” que absorviam carbono podem se tornar fontes de emissão de CO² e piorar significativamente os problemas do aquecimento global. Isto provocaria o fenômeno “Terra Estufa”, o que levaria à temperatura ao recorde dos últimos 1,2 milhão de anos. Caso este cenário se torne realidade, seria algo parecido com o apocalipse para a vida humana e não humana no planeta.

Para avaliar os piores cenários do aquecimento global, o jornalista David Wallace-Wells publicou, o livro The Uninhabitable Earth: Life After Warming (fevereiro de 2019), mostrando que o aquecimento global vai ser abrangente, terá um impacto muito rápido e vai durar muito tempo. Isto quer dizer que os efeitos danosos das mudanças climáticas vão se agravar com o tempo e, embora todas as gerações já estejam sendo atingidas, são as crianças e jovens que nasceram no século XXI que vão sentir as maiores consequências do colapso ambiental. As ondas de calor vão deixar diversas áreas da Terra inabitáveis.

Artigo de Camilo Mora et. al., “Broad threat to humanity from cumulative climate hazards intensified by greenhouse gas emissions”, publicado na prestigiosa revista Nature Climate Change (19/11/2018), mostra que as mudanças climáticas trarão múltiplos desastres de uma só vez. “Enfrentar essas mudanças climáticas será como entrar em uma briga com Mike Tyson, Schwarzenegger, Stallone e Jackie Chan – tudo ao mesmo tempo”, disse o principal autor do estudo, que descreve os inúmeros impactos que devem atingir a civilização nos próximos anos.

No total, os pesquisadores identificaram 467 maneiras distintas em que a sociedade já está sendo impactada pelo aumento dos extremos climáticos e, em seguida, expuseram como essas ameaças provavelmente se acumularão umas nas outras nas próximas décadas (ver gráfico abaixo). Se algo não for feito para reduzir drasticamente as emissões de gases do efeito estufa, em vez de lidar com um único grande risco de cada vez, as pessoas em todo o mundo podem ser forçadas a lidar com três a seis ao mesmo tempo.

A solução mais simples e barata para evitar o aquecimento global seria o aumento da cobertura vegetal do mundo para funcionar como absorvedores de carbono. Mas está acontecendo o contrário. Existiam 6 trilhões de árvores no mundo e este número cai pela metade. A humanidade já destruiu a metade de todas as árvores do planeta desde o avanço exponencial da pegada ecológica da civilização, segundo um estudo da Universidade de Yale, publicado pela revista científica Nature, conforme estudo de Crowther et al (Nature, 2015). Mas o pior é que os seres humanos estão destruindo 15 bilhões de árvores por ano, enquanto o aparecimento de novas árvores e o reflorestamento é de somente 5 bilhões de unidades. Ou seja, o planeta está perdendo 10 bilhões de árvores por ano e pode eliminar todo o estoque de 3 trilhões de árvores em 300 anos. O Brasil é o país que mais desmata e menos refloresta, além de bater recordes de desmatamento em 2019.

Além do aquecimento global e da perda de cobertura florestal, a humanidade está degradando os solos e as fontes de água potável. O relatório “Climate Change and Land”, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, publicado dia 8 de agosto de 2019, mostra que existe um efeito perverso de retroalimentação entre a produção de alimentos e o aquecimento global. O relatório mostrou que o crescimento da população mundial e o aumento do consumo per capita de alimentos (ração, fibra, madeira e energia) têm causado taxas sem precedentes de uso de terra e água doce, com a agricultura atualmente respondendo por cerca de 70% do uso global de água doce.

O relatório diz que, se o aquecimento global ultrapassar o limite de 2ºC estabelecido pelo Acordo de Paris, provavelmente as terras férteis se transformarão em desertos, as infraestruturas vão se desmoronar com o degelo do permafrost, e a seca e os fenômenos meteorológicos extremos colocarão em risco o sistema alimentar. Já estão aumentando as queimadas, os incêndios florestais e a frequência e a intensidade dos furacões, tufões e ciclones.

Enquanto crescem a população humana e seus efeitos negativos sobre o Sistema Terra, as populações não humanas definham e são arrasadas. A jornalista Elizabeth Kolbert, no livro The Sixth Extinction, documenta o processo de extinção das espécies que ocorre com o avanço da civilização. O Ecocídio é um crime que acontece contra as espécies animais e vegetais do planeta. Esse crime se espalha no mundo em uma escala maciça e a cada dia fica pior. O desaparecimento ou grande redução dos insetos e, em especial, das abelhas ameaça a agricultura e a vida selvagem, pois não há reprodução da flora sem os polinizadores.

O último Relatório Planeta Vivo (2018) divulgado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), mostra que o avanço da produção e consumo da humanidade tem provocado uma degradação generalizada dos ecossistemas globais e gerado uma aniquilação da vida selvagem: as populações de vertebrados silvestres, como mamíferos, pássaros, peixes, répteis e anfíbios, sofreram uma redução de 60% entre 1970 e 2014. Confirmando o impacto devastador das atividades humanas sobre a natureza, a Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês), da ONU, mostrou que há 1 milhão de espécies ameaçadas de extinção. O relatório elaborado nos últimos três anos, e divulgado em maio de 2019, fez uma avaliação do ecossistema mundial, com base na análise de 15 mil materiais de referência.

Estudo do Centro Nacional Breakthrough para a Restauração do Clima, um think-tank em Melbourne, Austrália (Barrie, 2019), descreve as mudanças climáticas como “uma ameaça existencial de médio prazo à civilização humana”. O documento argumenta que os “resultados extremamente sérios” das ameaças à segurança, relacionadas ao clima são, com frequência, muito mais prováveis do que o convencionalmente assumido, mas quase impossíveis de quantificar porque “estão fora da experiência humana dos últimos mil anos”. Na atual trajetória, adverte o relatório: “os sistemas planetário e humano devem atingir um ‘ponto de não retorno’ até meados do século, no qual a perspectiva de uma Terra praticamente inabitável leva ao colapso das nações e da ordem internacional.

Portanto, o avanço do progresso humano tem seus limites no processo de empobrecimento do meio ambiente. A ideia utópica de uma harmonia entre o crescimento da população e o desenvolvimento está se transformando em uma distopia, pois o desenvolvimento sustentável virou um oxímoro.

A Divisão de População da ONU estima que até 2100 a população mundial deve atingir cerca de 11 bilhões de habitantes e além dos problemas ambientais, existem todos os problemas de desigualdades sociais que tornam o mundo um barril de pólvora. Toda a humanidade perderá, mas o apartheid social será reforçado pelo apartheid climático, pois os pobres pagarão um preço proporcionalmente maior pelos danos causados principalmente pelos ricos (Alves, 2015).

O fato é que vivemos numa sociedade de risco que gera negatividades crescentes. Assim como o desenvolvimento sustentável se tornou uma contradição em termos, o tripé da sustentabilidade virou um trilema, segundo Martine e Alves (2015). Uma “Terra estufa” e com menos biodiversidade será não só um lugar arriscado para se habitar, mas o planeta pode ter maiores extensões territoriais cada vez mais inabitáveis.

O aquecimento global, a extinção das espécies a redução da biodiversidade, além da perda de fertilidade dos solos, numa situação de críse hídrica, pode ser prenúncio de um colapso ambiental e social. O professor Jem Bendell escreve: “A mudança climática é agora uma emergência planetária que representa uma ameaça existencial para a humanidade”. Ele prevê um colapso ecológico acontecendo no curto prazo temporal de uma geração.

Segundo Kevin Casey (20/11/2019), o modelo de desenvolvimento e o crescimento demoeconômico são as verdadeiras causas da crise climática e ambiental atual. Ele diz: “O crescimento econômico precisa do crescimento populacional para se sustentar. Mas quando um planeta empobrecido não pode mais carregar o fardo de uma população inflada e suas infinitas demandas, o crescimento não passa de uma ilusão perigosa. A ‘economia saudável’ de hoje é a miséria distópica de amanhã”.

Na história e na natureza, não é incomum a plenitude e a morte coincidirem no tempo. Assim, também não é despropositado supor que o Antropoceno – época da dominação antrópica – possa ser também o começo do fim da Era humana.

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