Assim chegamos à era do futilitarismo

Neoliberalismo desmantela argumento de que a busca das vantagens individuais sempre resultará no bem comum e valoriza lógica de ações e emoções que não prestam para nada. Parte da juventude sai em busca de uma vida com sentido

Imagem: Enrico Robusti

Por Neil Vallelly no Roar Magazine | Tradução: Vitor Costa

Durante séculos, economistas e filósofos teorizaram o valor da utilidade: como ela molda a divisão do trabalho, como influencia a escolha do consumidor e contribui para as concepções de boa vida ou de bem comum. Filósofos utilitaristas, como Jeremy Bentham e John Stuart Mill, afirmavam que maximizar a utilidade – a capacidade de um objeto de causar prazer ou reduzir a dor – era o ingrediente mágico da felicidade. Economistas, dos clássicos aos neoclássicos e neoliberais, conceberam indivíduos e consumidores como “maximizadores de utilidade” racionais, e Karl Marx afirmava que “nada pode ser um valor sem primeiro ser um objeto de utilidade”.

Embora esses pensadores possam diferir sobre como a utilidade deve ser maximizada e quem colhe as recompensas desse processo, poucos discordam de que a maximização da utilidade é em si uma coisa boa. Afinal, onde estaria a sociedade humana sem a utilidade?

Mas a utilidade não é algo que existe naturalmente; não é um conceito neutro ou objetivo. A utilidade é sempre um efeito das relações sociais, construídas politicamente e profundamente enredadas nas estruturas de poder de uma sociedade. A questão, então, não é tanto “o que é útil?” Em vez disso, poderia ser: “como algo é definido como útil e quem pode julgá-lo como tal?”

Dinheiro e utilidade

O utilitarismo fornece um bom exemplo da importância dessa questão. Para os utilitaristas, a moralidade de uma ação repousa em seu potencial de maximizar a utilidade, muitas vezes entendida como produzir o maior prazer e o menor sofrimento, para o maior número de pessoas. Mas, para ser maximizada, a utilidade deve primeiro ser identificada em certos materiais e práticas sociais, e é aí que a questão de quem pode julgar a utilidade se torna crucial. Se os capitalistas detêm o poder em uma sociedade, então é fácil ver como o utilitarismo se sobrepõe aos discursos de produtividade e acumulação, porque processos como crescimento econômico, comércio e geração de riqueza serão politicamente construídos como os cursos de ação mais úteis tanto para o indivíduo quanto para a felicidade coletiva. Mas se a utilidade fosse definida de outras maneiras, como fortes laços sociais, bem-estar universal, formas políticas não hierárquicas e proteção ambiental, então a maximização da utilidade teria uma cara muito diferente.

Por esta razão, a utilidade nunca pode ser concebida exclusivamente como um conceito econômico ou filosófico. Em vez disso, a utilidade é sempre representativa de uma certa compreensão da economia política, das relações entre as formas de produção, trabalho e comércio e os mecanismos de governo, poder e, em última análise, o capitalismo. Este fato é mais evidente na obra de Jeremy Bentham, um filósofo e reformador social do final do século XVIII e início do XIX. Bentham foi o fundador do utilitarismo moderno e só conseguiu encontrar uma medida confiável de utilidade: dinheiro. Em um ensaio intitulado “A Filosofia da Ciência Econômica”, ele escreveu: “O termômetro é o instrumento para medir o calor, o barômetro é o instrumento para medir a pressão do ar, e o dinheiro é o instrumento para medir a quantidade de dor e prazer”.

Sob tal lógica, a sociedade mais moral é aquela em que os indivíduos perseguem o acúmulo de dinheiro, sob o ditame ético de que isso levará não apenas à felicidade individual, mas também a um maior bem-estar coletivo. A simbiose percebida entre a maximização da utilidade e a acumulação de riqueza tem sido um mantra dominante das sociedades capitalistas, onde o poder político rotineiramente garante que a utilidade seja definida como dinheiro, e onde uma ética utilitarista é continuamente invocada como justificativa para as explorações e desigualdades envolvidas na acumulação de capital.

A fantasia utilitária de um mundo de maximizadores de utilidade, perseguindo racionalmente a acumulação de dinheiro e contribuindo para um bem comum seguro e saudável, obviamente não se concretizou. Em vez disso, especialmente com a mutação neoliberal do capitalismo, surgiu uma sociedade de indivíduos atomistas, que veem a maximização da utilidade como um esforço competitivo, que tenta aliviar qualquer responsabilidade em relação ao bem comum. A prática da maximização da utilidade, longe de nos empurrar para uma sociedade mais igualitária, acabou nos prendendo em uma relação destrutiva com o capital.

A condição futilitária

O utilitarismo se transformou em “futilitarismo”: situação em que a maximização da utilidade leva ao agravamento das condições sociais e econômicas coletivas. Endividamo-nos para obter qualificação, apenas para depois descobrir que o emprego é cada vez mais escasso, informal e precário; lavamos nossos potes de geleia de plástico para reciclagem enquanto as empresas de combustíveis fósseis destroem nossos mares e as corporações invadem as florestas tropicais em rápido avanço; e quando um vírus mortal paralisa o mundo, descobrimos que os esforços globais na maximização da utilidade não recompensaram a maioria da população mundial com maior segurança social e financeira. Na verdade, muitos de nós maximizam a utilidade para fins que são inúteis para o maior bem-estar da sociedade, muitas vezes apenas para garantir alguma aparência de sobrevivência individual. Eu chamo essa armadilha de “condição futilitária”.

A gênese da condição futilitária surgiu justamente no momento em que a utilidade se santificou sob o capitalismo. Sob as condições do capitalismo, o princípio da maior felicidade não pode ser realizado ou, pelo menos, apenas uma versão pervertida dele pode existir. A classe trabalhadora sempre carregou o fardo do trabalho de maximização da utilidade: de produzir as coisas que são úteis e, em última análise, o dinheiro associado à utilidade.

Mas precisamente por causa das relações sociais exploradoras do capitalismo, é apenas a classe capitalista que pode realmente experimentar o prazer associado à utilidade. A ascensão de uma grande classe média em meados do século 20, apoiada por uma virada social-democrata, criou a ilusão de que o princípio da maior felicidade poderia ser realizado sob o capitalismo, e que a grande maioria das pessoas poderia viver livre e bem, embora apenas no Norte Global.

Mas o neoliberalismo acabou com essa ilusão. Ao desmantelar o Estado de Bem-Estar Social e valorizar a competição entre os indivíduos, o neoliberalismo separou a maximização da utilidade do bem-estar social. Ao fazê-lo, faz do futilitarismo a nova filosofia moral do capitalismo, ao exigir a maximização da utilidade dos indivíduos, ao mesmo tempo em que destrói simultaneamente as estruturas e instituições sociais que poderiam garantir qualquer sensação de bem-estar coletivo. A futilidade floresce nessas condições.

No entanto, a futilidade raramente apareceu de forma abrangente no estudo do capitalismo. Talvez porque a futilidade pareça ser um efeito colateral da produção capitalista e de suas relações sociais, algo que não é intrínseco à funcionalidade do capitalismo. Defendo, ao contrário, que o conceito de futilidade merece mais atenção nos exames críticos do capitalismo, especialmente porque a futilidade é central para o desenvolvimento, implementação e longevidade do capitalismo neoliberal no início do século XXI.

O exemplo da universidade contemporânea pode ajudar a contextualizar o conceito de condição futilitária. A universidade atualmente depende de um vasto exército de professores ocasionais e substitutos, principalmente estudantes de pós-graduação ou pesquisadores em pós-doutorado recrutados temporariamente, sem os quais a universidade entraria em colapso. No entanto, esses trabalhadores são rotineiramente tratados com desprezo pelas hierarquias universitárias e explorados em contratos de curto prazo que raramente cobrem a totalidade das horas em que realmente trabalham.

Mas, para conseguir um emprego acadêmico em tempo integral – cada vez mais raro em algumas disciplinas, especialmente nas Humanidades – esses trabalhadores são obrigados não apenas a ganhar o máximo de experiência docente possível, mas também a publicar incansavelmente suas pesquisas, e muitas vezes sem acesso a bibliotecas universitárias. Em outras palavras, eles são forçados a maximizar sua utilidade tanto quanto possível, com a tênue esperança de que isso possa levar a um emprego seguro no futuro. Para alguns muito seletos, esse trabalho em tempo integral se torna uma realidade. Mas, para a grande maioria, as tentativas de se tornarem úteis os prendem em um ciclo de contratos de curto prazo que pagam muito pouco e, em última análise, não levam a lugar algum.

A universidade sabe que esse precariado intelectual tem pouca escolha a não ser maximizar a utilidade, então ela passa a explorar seu trabalho pagando cada vez menos por ele, e mantendo o fluxo de estudantes e taxas. Fica claro, portanto, que a prática da maximização da utilidade por parte desse precariado intelectual pode, em algumas ocasiões, levar ao bem-estar individual na forma de uma posição permanente, mas também consolida as condições que tornam o bem-estar da grande maioria desse mesmo precariado impossível.

O neoliberalismo precisa de futilidade

A universidade não é o único exemplo da lógica da condição futilitária. De fato, o capitalismo neoliberal parece funcionar melhor quando muitas de nossas ações se tornam fúteis, não apenas porque somos incapazes de desafiar sua hegemonia, mas também porque em nosso desespero de maximizar a utilidade para melhorar nossas condições sociais e econômicas individuais, simultaneamente internalizamos as racionalidades de autossuficiência, responsabilidade pessoal e competição que desmantelam as solidariedades sociais.

Cada vez mais, o valor de uso não está relacionado às nossas tentativas conscientes de maximizar a utilidade. Para muitas corporações, somos mais úteis em nosso tempo de lazer, quando fazemos compras on-line, postamos nas mídias sociais, percorremos as notícias em nossos telefones, usamos Fitbits ou simplesmente ligamos a Alexa enquanto vagamos pela casa. Ao fazê-lo, geramos informações para uma vasta infraestrutura tecnológica que gera capital por meio do compartilhamento dessas informações com outras corporações e anunciantes.

Isso sem falar na futilidade existencial da vida neoliberal, na qual somos confrontados por tão vastas desigualdades e catástrofes sociais, políticas e ambientais que é quase impossível não sentir que enfrentar essas questões é fútil. A complexidade dessas questões e sua natureza amorfa e descentralizada também significam que a maioria de nós não entende, por exemplo, como funciona o sistema financeiro, como os dados são coletados, armazenados e usados, ou sobre a microbiologia dos vírus. Portanto, não sabemos quem ou o que exatamente pode ser responsável por crises financeiras, violações de privacidade ou pandemias. É muito mais fácil culpar os imigrantes, as elites ou mesmo o pós-modernismo.

O capitalismo neoliberal se alimenta de nossa futilidade e, ao mesmo tempo, como uma razão normativa governante – no sentido foucaultiano de “conduta da conduta” – o neoliberalismo nos leva a nos comportarmos como se nossos atos individuais de maximização de utilidade garantissem nosso bem-estar, e até mesmo às vezes causassem mudanças sociais substanciais. Ao sempre traduzir o social através das lentes do indivíduo, o neoliberalismo reduz as questões de justiça social e transformação a pouco mais do que formas de mercantilização e escolha do consumidor. A razão neoliberal se manifesta em uma série de esforços sociais e políticos fúteis, do automarketing ao consumismo ético, que muitas vezes se veem como alternativas radicais ao status quo, mas que na prática apenas o reforçam.

Futilitarismo não é niilismo

Um ponto muito importante é que o futilitarismo não é o mesmo que o niilismo. Certamente, o niilismo é uma característica proeminente do neoliberalismo. Mark Fisher chegou a descrevê-lo como “nihiliberalismo”. Wendy Brown também argumenta que “o niilismo cruza o neoliberalismo”, criando uma estranha confluência de “destituição ética” e “retidão religiosa ou melancolia conservadora para um passado fantasmático”. Essa confluência de niilismo e neoliberalismo, costurada por governos de direita e esquerda nas últimas quatro décadas, deu origem a uma política reacionária que se deleita em simultaneamente não se importar com o bem-estar dos mais destituídos (exemplificado pela frase da camiseta de Melania Trump “I really don’t care”, usada no encontro com crianças imigrantes presas na fronteira EUA-México), mas também exclama que o mundo está em crise por causa da perda dos valores conservadores tradicionais.

Enquanto o niilismo certamente está presente no neoliberalismo, o conceito de futilitarismo abre espaço para outra dimensão na falta de sentido da vida neoliberal. Nessa dimensão, a falta de sentido não é algo instituído passivamente nem ativamente abraçado, mas algo que emerge na vida das pessoas sem seu consentimento ou mesmo conhecimento, seja em seu trabalho, educação, situação social, situação econômica ou status legal. Onde o niilismo implica assumir uma certa visão do mundo, o futilitarismo é muito mais insidioso e internalizado. Afinal, muitos de nós podem acreditar que estamos contribuindo para a sociedade de maneira significativa: pergunte a qualquer consultor de relações públicas.

O futilitarismo é, ao contrário, uma forma de aprisionamento na busca de sentido, onde somos forçados a repetir uma série de comportamentos diários que nos enredam mais profundamente na pura lógica da competição e do individualismo que nega qualquer desenvolvimento de laços comuns e bem-estar coletivo.

Ao focar na futilidade ao invés do niilismo, a teoria do futilitarismo extrapola não apenas a experiência da falta de sentido que vem com o neoliberalismo, mas a construção dessa falta de sentido nas práticas sociais e políticas contemporâneas. O futilitarismo traz à tona a futilidade da vida cotidiana no período neoliberal, com a esperança de gerar ideias de como combater a falta de sentido que não termina no niilismo. O niilismo é um fim em si mesmo; uma maior consciência e compreensão da futilidade pode ser o ponto de partida de algo significativo.

É verdade, no entanto, que muitas pessoas não se importam se o utilitarismo se transformou em futilitarismo, ou se seus atos de maximização da utilidade são explorados pelo neoliberalismo para desmantelar laços comuns e interesses mútuos. De fato, no Norte Global, muitas pessoas estão relativamente seguras, especialmente se forem brancas, de meia-idade a idosas, e tiverem cidadania, uma casa, uma renda regular ou pensão e acesso ao sistema de saúde privado. Eles podem não se importar que a diferença de renda entre o Norte e o Sul Global quase quadruplicou desde a década de 1960, ou que as desigualdades econômicas e sociais tenham aumentado muito desde a década de 1980, porque todos em sua rua parecem estar indo bem. E mesmo alguns daqueles que não estão seguros raramente estão diretamente zangados com o capitalismo, mas sim com as elites urbanas, com os imigrantes ou com os fraudadores de benefícios.

Combatendo o futilitarismo

O que estamos testemunhando é uma importante divisão intergeracional entre os mais velhos e os jovens, os baby-boomers e os millennials. Os opositores, dissidentes e anticapitalistas em todo o mundo estão emergindo cada vez mais das gerações mais jovens, as mesmas que nasceram no neoliberalismo e não conheceram nada além disso.

Os millennials têm uma má reputação como a geração narcisista, preguiçosa, dependente de tecnologia e mimada, que não conheceu um dia de trabalho duro das gerações anteriores. O que é deliberadamente esquecido nessas críticas é o fato de que esta geração foi lançada em um mundo onde a educação é muito cara, a dívida é inevitável, o trabalho é escasso e precário, os salários são arrochados, os serviços sociais são reduzidos, o planeta está em chamas e o futuro é aparentemente inexistente. Para muitos deles, a experiência vivida do neoliberalismo – ou qualquer que seja o termo que escolham usar – é sombria. Dos EUA e Reino Unido a Hong Kong e Chile, estamos testemunhando grandes bolsões de resistência anticapitalista liderada pelos chamados “millennials preguiçosos”. Estes são os gritos desesperados de uma geração que rejeita a futilidade da vida neoliberal.

A futilidade mascarada de utilidade é a essência da transformação da vida cotidiana do neoliberalismo. A cada momento, somos encorajados como indivíduos a assumir uma maior responsabilidade pessoal, a investir em nós mesmos com sabedoria e a extrair cada gota de utilidade de qualquer oportunidade. Ao mesmo tempo, as estruturas sociais e econômicas que podem facilitar esses atos individuais de maximização da utilidade são repetidamente desmanteladas e sabotadas. Como resultado, a condição futilitária tornou-se a condição humana dominante no início do século XXI, onde as buscas individuais de maximização da utilidade são usadas como exemplos para nos convencer de que não precisamos de uma infraestrutura social forte ou melhores salvaguardas econômicas.

O reconhecimento de nossa futilidade compartilhada, e esse é meu argumento, pode se tornar a base de um novo sujeito político coletivo – o futilitarismo – por meio do qual podemos começar a recuperar a utilidade das forças destrutivas do neoliberalismo.

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3 comentários para "Assim chegamos à era do futilitarismo"

  1. Feliciano Bezerra disse:

    Textos ótimos, atualizados e comprometidos…

  2. Ramiro Martinez disse:

    Excelente artigo, uma reflexão altamente necessária que devemos fazer todos os dias de nossa vida. Fiquei curioso com a origem do artigo, Roar magazine, muito conteúdo interessante assim como Outras Palavras também.

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