A distopia cotidiana e os sonhos insepultos

Sorrateira, “mal real ampliado”, como definiu o sociólogo Jerzy Szacki, deixou a ficção e firmou-se, em 2019, como projeto concreto. Resistência cresce — e, no terreno revolto das barbáries, podemos reencontrar a dimensão utópica

Em 1968, em Varsóvia, o polonês Jerzy Szacki escreveria uma obra peculiar. Também em um ano peculiar. Há quem o chame do “ano que nunca terminou”. De fato, muitas das pautas e bandeiras que estavam presentes naquele contexto histórico de 68 são bradadas e ecoam até os dias de hoje.

Era uma década de resistência e luta por direitos civis, sociais e políticos em todo o planeta. Período das barricadas e multidões nas ruas, fábricas e universidades de Paris; de guerrilhas armadas contra o neocolonialismo europeu nos países africanos; do temor nuclear constante em todos os rincões da Terra; de guerras sanguinárias, extermínios, golpes militares, motins e greves gerais; de punhos cerrados por moradia, educação, saúde e cultura para todas e todos; enfim, realidade histórica em que a utopia da Revolução social parecia próxima. Momento em que os horizontes de expectativas estavam ao alcance das massas. Neste ano, Szacki publicou As Utopias ou a Felicidade Imaginada.

Distante de resenhá-lo neste espaço, o escritor e intelectual polonês propôs reconstruir historicamente o conceito de Utopia: as utopias geográficas, cronológicas, as utopias de ordem transcendental (monásticas), as políticas e, finalmente, as utopias negativas – em outras palavras, as distopias. Segundo o autor, o conceito foi assim descrito: “Uma sociedade sem miséria e exploração, sem mentira e opressão, sem obscurantismo e intolerância, sem ódio e maldade, sem ócio e sem trabalho forçado”.

Em sua obra, Szacki regressa aos mais diferentes autores e suas interpretações conceituais encontrados na História, desde o período moderno, onde ele aparece especificamente em uma obra de 1516, A Utopia, de Thomas More, até o momento em que escrevia a sua própria obra analítica no afã de compreendê-las profundamente, com o ímpeto de transformar a sua própria realidade.

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O utopista “não aceita o mundo que encontra, não se satisfaz com as possibilidades atualmente existentes: sonha, antecipa, projeta, experimenta. É justamente neste ato de desacordo que dá vida à utopia. Ela nasce quando na consciência surge uma ruptura entre o que é, e o que deveria ser; entre o mundo que é, e o mundo que pode ser pensado”. Jerzy Szacki tenta ser o mais neutro e objetivo possível, o que sabemos ser uma impossibilidade. Não há neutralidade existente e, em sua obra, isso é perceptível.

Como grande intelectual – praticamente desconhecido no Brasil – não deixou de ser, também, um utopista. Apresentou ao leitor as utopias divinas das ordens monásticas medievais e as mais diversas conceituações e ideais colocados por revolucionários no correr do tempo: desde o jacobinismo francês ao bolchevismo russo. Em muitos trechos faz críticas ferrenhas, principalmente no capítulo sobre as Utopias Políticas, a respeito do comunismo soviético, por exemplo.

Nas entrelinhas de seus escritos observamos que Szacki também não aceitava as coisas da forma que eram e se projetavam. No final deste capítulo incômodo cita um trecho de Poesias, do polonês M. Jastrum: “Não existem nações felizes/ E não existem ilhas onde o sangue humano já não volte a ser derramado/ Mas é verdade que coisas novas e melhores são construídas/ Ainda que tenham que nascer em dor como os homens”.

Diante de um 2019 atordoante, onde multidões conectadas, mas doentes e solitárias, exploradas e precarizadas das mais diferentes formas, a sua análise sobre as utopias negativas, em especial, chama a atenção. Em seus escritos finais, percebemos que diferente das utopias transcendentes e políticas apresentadas no correr da obra (distantes do “real” e em um horizonte de expectativas revolucionário) não mais caminhamos lentamente para uma sociedade distópica, como o escritor nos apresentou, pois tudo está mais claro como o dia: nós já nos encontramos nela.

Como Szacki escreve, “embora todo ideal seja utópico, toda utopia contem necessariamente um ideal em oposição à realidade”. Para apresentar a utopia negativa, ou a distopia, o polonês apresenta a literatura como espaço de expressão máxima deste “ideal contrário”. Contudo, adverte: “o problema é mais complexo e não deve ser reduzido a uma questão de forma literária”. Por óbvio o autor reconhece traços distópicos em seu próprio tempo. 51 anos da publicação da obra As Utopias ou a Felicidade Imaginada, atordoados e imersos na distopia 2019, sabemos disso com tamanha clareza que o escritor polonês jamais imaginaria.

Sabemos que a onda de boçalidade, para usar as palavras de Chico Buarque no Ato da Virada, antes das eleições de 2018 que nos empurraram ladeira abaixo, esteve – e está – presente em todo o mundo, inundando violentamente o cotidiano de todas as classes dominadas. Vale dizer que o Sul Global, como conceitua Boaventura de Souza Santos, caminha para um colapso social sem precedentes.

Para nos atermos a este Sul Global, numa realidade onde as massas latino-americanas saem às calles contra o modelo neoliberal que as esmaga diariamente; contra golpes de Estado civil-militares, como na Bolívia; se aglutinando nas urnas, como na Argentina e no Uruguai; sem contar as greves e protestos maciços na Colômbia em clima de greve geral, e no Chile, entre tiros e bombas de gás lacrimogêneo, o gigante brasileiro parece estar sob efeitos anestésicos cavalares. Lembrando uma distopia cinematográfica recente, estaria sob “efeitos psicotrópicos”.

Apesar de estarmos inseridos à força na distopia 2019, existe, como se vê, resistência, ação e reação – pouca, mas existe. É interessante, antes de questionarmos as razões e indagarmos soluções, o que seria uma distopia para Jerzy Szacki:

algumas características do mundo real a um extremo, ao absurdo. […] os utopistas negativos trazem à vida um mundo consequentemente mau, onde elas passariam despercebidas no momento atual. O mal real é ampliado”.

Quando lemos distopias literárias das mais célebres, ou mesmo assistimos a obras cinematográficas com base em utopias negativas (citemos o brasileiro Bacurau e o sul-coreano Parasita, dois filmes atualíssimos) o incômodo irrompe: elas nos parecem reais. Reais demais. Quando olhamos ao nosso redor, parecemos vivê-las.

Não podemos nos esquivar. As coisas precisam ser ditas. Hoje, vivemos uma distopia: uma realidade de exceção, ilegalidades, precarização, violência e barbárie permanentes. Vivemos a distopia 2019.

As fake news, mentiras propagadas por robôs e manipulações de algoritmos em um mundo virtual que nos engole diariamente, e mesmo tentativas de se reescrever notícias e acontecimentos pelas classes dominantes e médias (no Brasil, a ditadura civil-militar e a Era Lula, por exemplo), em todas as horas de todos os dias, além de fatos históricos relevantes, recaem naquilo que escreveu George Orwell, em sua obra 1984; outra guerra travada com afinco pelo governo brasileiro, agora contra a intelectualidade em geral, onde professores e alunos, escolas e universidades tornaram-se inimigos primevos, a distopia de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, onde livros passam a ser destruídos e queimados e todos os sujeitos monitorados pelos simples ato da leitura, nos causa espanto; fanatismo atordoante urdido ao (falso) moralismo religioso transborda nas páginas de O Conto da Aia, de Margaret Atwood, onde mulheres passam a ser divididas, vigiadas, punidas e assassinadas. Em um mundo parido do patriarcalismo secular, onde o machismo mata mulheres todos os dias, traços vívidos de uma realidade distópica nos chocam; o crescimento exponencial de um “progresso” cientifico, a robotização da vida entre alterações genéticas e embelezamentos estéticos em busca de uma possível perfeição, experimentos científicos-militares e espaços sanitarizados de controle populacional são a tônica de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley – e do terrível mundo em que vivemos.

Vale lembrar que Jerzy Szacki deixa claro: “o criador da utopia negativa não engaja imediatamente, em geral, em seu próprio sistema de valores”. Todos os autores distópicos são/foram, no fundo, grandes utopistas.

Tentaram – e mediante a leitura de suas obras conseguimos observar tal atitude – e ainda tentam alertar a comunidade de leitores e toda a sociedade em geral que a distopia pode ser mais possível e provável que a utopia positiva, aquela onde, segundo Szacki, poderia existir uma sociedade sem miséria e exploração, sem mentira e opressão, sem obscurantismo e intolerância, sem ódio e maldade, sem ócio e sem trabalho forçado.

No mundo em que nos encontramos, neste exato momento, as distopias passam a ser, então, mais palpáveis e concretas – e seus traços estão sendo reproduzidos em todas as horas de todos os dias. A utopia negativa tornou-se realidade. Se olharmos ao nosso redor, percebendo-o com olhares enxutos, e, em consequência, se já vivemos aspectos aterradores de todas as distopias literárias aqui citadas, isso significa que já estamos inseridos e vivemos nela.

As indagações que faço aos meus leitores são as seguintes: como sairemos dela? Através de uma ruptura violenta e massiva das classes dominadas contra as dominantes? A contra-violência parece ser a única arma acessível aos infortunados desta realidade não mais fictícia e literária, mas imersos na sua mais profunda concretude. É quando Szacki nos acalenta: “isto não significa, contudo, que haja terminado o tempo das utopias positivas. Elas continuam a surgir e talvez ganhem mesmo força no terreno revolto pelas utopias negativas”. Esperemos que a consciência do mal abra caminhos para os sonhos.

Outras referências do autor:

“Distopia permanente: Projeto da modernidade, condição pós-moderna e o novo tempo do mundo” (https://periodicos.ufms.br/index.php/RevTH/article/view/3841)

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