Diário: em SP, a direita tenta voltar às ruas

Agora, contra Renan. Na Avenida Paulista, houve gritos contra o “amigo dos comunistas”, a “Globo” e “Veja”. O cronista de “Outras Palavras” interpelado. Mas, ao todo, só havia 150 pessoas – significa algo?

Por Gavin Adams

20 de janeiro de 2019 – Saí da estação Trianon-MASP do metrô para a manifestação Fora Renan chamada por várias organizações de direita.

Logo na saída deu para ver o pixuleco inflável do senador, vestido de presidiário e algemado no asfalto quente. Segui para a esquina da rua Pamplona, onde havia um carro de som. Estava curioso para ver e ouvir como esta secção da direita estava a formular a crítica relação com o Congresso, tão delicada para o novo governo.

Achei que o público era composto principalmente de senhores e senhoras ao redor dos 50 anos de idade, mas havia alguns adolescentes e jovens. Muito amarelo, bandeiras do Brasil aos ombros – e uma outra de Israel. Vi camisas da CBF, outras com “Meu partido é o Brasil”, “Somos todos Moro” e curiosamente uma do Banco do Brasil. Vi uma bandeira do VemPraRua, que creio ajudou a organizar o evento.

Calculei um total de 150 pessoas ao todo.

O carro trazia uma faixa: “Renan Não! Ativistas Independentes. EHSP. Despertar Patriótico. São Paulo Conservador”. Além disso, havia no carro cartazes como “Perdeu: Katia Abreu, José Dirceu, Zé de Abreu”, “Renan Não”, “Votação aberta”.

Uma oradora falava que “quando a esquerda precisa de um trabalho sujo, ela chama o Renan”. “Desde 2013 estamos nas ruas para pedir Fora Renan”.

Essa foi a tônica geral da manifestação: impedir que Renan seja reconduzido à presidência do Senado. A percepção parece ser que Calheiros “representa a política velha, e estamos passando o Brasil a limpo”. Apesar de um cartaz feito à mão indicar “Renan Não, Maia Não, Votação Aberta”, Rodrigo Maia não foi citado – ele que está à cabeça do acordão com o PSL e o governo, e que representa o velho, tanto quanto Renan. “Renan é a cara da política velha. O Brasil mudou e precisamos do apoio de vocês, nas redes sociais que elegeram Bolsonaro e que agora vão derrubar Renan”.

Notei que os discursos também pouco citaram o presidente Bolsonaro diretamente. Mas a ideia de que “a direita está no governo e 4 anos passam rapidinho” estava clara e foi enunciada de várias maneiras, inclusive um recém adotado ufanismo do Brasil “em posição de destaque no mundo” – acabaram as lamúrias do Brasil acorrentado. Lula e o PT continuam os vilões, pois “o governo ainda está cheio de inimigos”. “Votar em Renan é votar no PT!” trazia um cartaz feito à mão. Outro cartaz: “Renan canalha. O Brasil te detesta. Volta para o inferno. #renannao”.

Dei um giro e vi uma faixa de plástico “Moro estamos com você”, uma camisa do Palmeiras e uma do Santos. Vi um grupo de 5 pessoas juntas, com a camisa laranja do Partido Novo. Reparei na imensa faixa verdeamarela que estava no chão, “Renan na cadeia”.

Um moço forte de camisa amarela veio perguntar “de que veículo você é, amigo?”. Disse “Outras Palavras” e ele respondeu “Vou fuçar e achar”. Saiu fora.

Nem fiquei preocupado, mas a imprensa no geral foi vilificada por oradores: “Nosso inimigo hoje é a imprensa, corrupta e comunista. A Globo, a Folha. A Veja foi comprada por George Soros”.

Reclamava que esta revista mudara sua postura depois da venda da Abril. “Estamos numa guerra, não vai ter segunda chance. Temos que matar e esmagar nossos inimigos”. Por isso, chamavam o povo a boicotar a imprensa e trabalhar nas redes sociais para divulgar a pauta Fora Renan.

Caminhei então até o MASP ao som de Cazuza, irradiado pelo carro de som no intervalo das falas. Vi um grupo de jovens cristãos à roda de um moço de microfone na mão. Ele falava de Jesus em linguagem adolescente. Ocupavam toda uma via da avenida, bem em frente ao museu, umas 40 pessoas. Mais na esquina da rua Casa Branca havia ainda outro grupo de cristãos, estes mais teen. Uns dez deles dançavam uma energética coreografia, as meninas de camisa rosa e os meninos de camisa azul! Umas 100 pessoas assistiam, e ganhei um panfleto. Tratava-se de uma organização cristã mundial, com cara de coreana. Notei com alegria que logo ao lado uma roda de Hip Hop atraía muito mais gente, e que também faziam suas animadas evoluções no asfalto. Adiante, depois na Gazeta, vi umas 500 pessoas dançando um forró antigo, provavelmente Jackson do Pandeiro ou um jovem Luis Gonzaga. Fiquei feliz.

Ainda dei uma passada final na manifestação verdeamarela. Tudo igual. A oradora dizia que “Se não punir bandido, vamos ocupar o STF”. Outro orador leu o manifesto do VemPraRua, contra Renan Calheiros. O pouco povo respondia em jogral. Soltaram a gravação de uma palavra de ordem: “Renan seu safado, pra fora do Senado!”. Vi um cartaz “Renan quer amarrar a Lava Jato”.

Chamaram nova manifestação para o próximo domingo, mesmos local e hora.

Pareceu-me no geral que a nova situação de estar no governo traz desafios distintos para as diferentes facções da direita. Estes não eram bolsonaristas históricos nem militaristas. Talvez não estejam perto o suficiente do poder para obter posições dentro do estado. Assim, podem se dar ao luxo de ser contra quem pode vir a ser o fiador do governo de direita no Congresso. Mas achei significativo que a manifestação tivesse ocorrido. Não foi grande, não foi empolgante e mesmo a pauta Fora Renan acho que vai ressoar muito pouco na sociedade – afinal, trata-se de uma questão institucional de nível palaciano. Mas aconteceu, e a realidade do encontro do movimento com o Mecanismo está a desafiar a integridade da base direitista.

Depois de 45 minutos na rua, achei que estava repetindo muito e que não ia encher. Caminhei na tarde ainda quente em direção ao Paraíso, ao som do Raul Seixas irradiado do carro de som: “A solução é alugar o Brasil”.

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