Regina, Jair e a manipulação da espontaneidade

O bolsonarismo em dois minutos: no vídeo que anunciava rebaixamento da então secretária, transparece o tosco proposital. Seu cerne é a antipolítica: o desejo de destruir a esfera pública, esvaziar o debate e esconder a realidade

Cada vez mais fica claro que não está longe o dia em que o bolsonarismo deixará de ser uma força política ativa para ser descrito como fenômeno aberrante, que um dia acometeu a sociedade brasileira, com métodos e características específicas. Quando isso for possível, a irracionalidade que, na falta de recuo histórico, hoje chamamos de “tosco” ou “precário”, será descrita a partir de seus vestígios deixados em discursos, vídeos, filmes, memes, posts, enfim, fragmentos de um conjunto relativamente coerente, mesmo se cheio de contradições. Certamente farão parte desse conjunto os ameaçadores tuítes do general Villas-Boas, os erros gramaticais do inaceitável Weintraub, o obscuro proselitismo cafona da ministra Damares, as contribuições voluntárias das celebridades que o apoiaram, assim como, naturalmente, os próprios discursos e performances de Jair Bolsonaro que, por meio de posts, áudios e vídeos, levou a retórica política brasileira a um nível nunca visto na história do país. Como contribuição inicial, gostaria de tentar aqui apenas a descrição de um instante específico, em que a Cultura aparece no centro do discurso bolsonarista.

Me refiro a um vídeo em particular. Trata-se do diálogo entre o presidente da república e sua secretária especial de cultura, Regina Duarte, uma atriz que leva ao governo de Bolsonaro seu considerável capital simbólico, adquirido graças aos personagens de grande apelo popular que encarnou na televisão. Entretanto, transformada em burocrata da cultura, a atriz encarna o ideário de seu líder que, na famigerada reunião de 22 de abril, havia cobrado seus subalternos: “Quem não aceitar as minhas bandeiras, família… Deus… Brasil… armamento… liberdade de expressão…livre mercado… Quem não aceitar isso está no governo errado!”

Como recompensa por ter encarnado em rede nacional e sem qualquer constrangimento o projeto do governo – aliás, como já o fizera seu antecessor ao plagiar Goebbels, a atriz comemora no vídeo recente a recompensa pelos serviços prestados com transparência: um posto na Cinemateca Brasileira. Ao lado do presidente, com gestos excessivos, a burocrata se empenha em disfarçar o rebaixamento – de secretária à suposta funcionária da Cinemateca – e comemora o novo posto que, se confirmado, certamente terá função de sinecura em razão da expertise exigida pelo cargo.

Entretanto, para além da busca de autoafirmação, o vídeo evidencia alguns aspectos que podem ajudar na caracterização do próprio bolsonarismo. Vejamos. Em frente ao Palácio da Alvorada, a secretária e seu líder contrastam pela estatura física, como uma dupla de cômicos que, unidos pela expressão descontraída, evidencia a total ausência de sinais de atividade mental e se prepara para fazer um comunicado oficial. Tudo é cumplicidade entre eles. A tranquilidade do presidente destoa de sua postura característica, que em geral exibe a fisicalidade, o intenso fanatismo e o cenho duro. No lugar da exaltação típica, surge satisfeito e com certo sarcasmo. Até a fala sem qualquer musicalidade não parece mais açoitar as palavras, como lhe é frequente. Nesse vídeo, Bolsonaro, o agente provocador que também se traveste de vítima de provocações, o fanático convulsivo, parece domado, mesmo que temporariamente, como confirmam as mãos atadas uma à outra, como a conter sua raiva impotente. Resumindo a cena: ao fundo o palácio cuja arquitetura moderna sugere a flutuação do edifício, a estatura superior do líder, a alegria revanchista da seguidora, que comunica à sociedade sua nova função, negando as afirmações de uma imprensa que ela não confia, mas que mesmo assim sente necessidade de recusar.

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O pitoresco diálogo foi divulgado pela Secretaria de Comunicação do Governo Federal no último dia vinte de maio. Após receber severas críticas da classe artística por entrevista anterior, em que minimiza as mortes ocorridas nos principais estados totalitários do século XX, especialmente na ditadura civil-militar brasileira, a então secretária de cultura anuncia agora sua nova função. Em tom supostamente informal, a forjar uma verdade espontânea, “olá, pessoal!”, como é frequente nos atuais comunicados desse governo, busca-se apresentar o evidente rebaixamento de Regina Duarte como conquista e solução, pessoal e governamental. O que fará e qual o estado atual da instituição que a receberá isso não é mencionado, naturalmente. Um dos artifícios da retórica bolsonarista, mas não só dela, é inflacionar de sentido algo irrelevante para não tratar do que de fato interessa.

Graças às novas tecnologias, garante-se que um governante se dirija a todos e a cada um de maneira aparentemente despretensiosa, como se fala a um grupo de amigos. Desde o surgimento do cinema que as mídias audiovisuais tentam a abertura de seu mercado a novos usuários, a miniaturização dos aparelhos, a simplificação dos procedimentos técnicos para abarcar a figura do amador, mas que só agora é alcançada pelas novas mídias. Se o nazifascismo se serviu do cinema para acrescentar aspectos grandiloquentes a sua retórica política, o uso que o bolsonarismo faz das novas mídias não visa mais apoderar-se da esfera pública e estetizar a política, muito pelo contrário, ele pretende destruir ambas, ou pelo menos reduzi-las ao máximo para se comunicar diretamente com cada indivíduo, sem mediações, mas não como um líder tradicional superior da década de 1930. O que o bolsonarismo almeja é o triunfo do comezinho, a redução da política à explicação rasteira da vida cotidiana, que dispensa mediações. Nesse sentido, ele também não é original, apenas copia e aperfeiçoa os populismos que o antecedem, intensificando mais o rebaixamento da linguagem. Por isso mesmo, não se trata de “tosco” ou “precário”, mas sim de atualização da política à nova fase do capitalismo necropolítico. Mais uma vez o Brasil se coloca como um laboratório avançado da moderna experimentação social. Surge aqui uma explicação para esse tipo de empobrecimento da comunicação, que não é pobre só porque obedece a um único padrão de linguagem, mas especialmente porque, por meio de uma limitação autoimposta, se permite expor apenas um aspecto, a saber, a manipulação da espontaneidade.

0No bolsonarismo, a sociedade se reduz ao “Olá pessoal” de Regina Duarte. Esse tête-à-tête entre governantes e a sociedade dispensa mediadores, no caso a mídia de quem se deve desconfiar, pois a generosidade e o reconhecimento do líder estão acima da venalidade dos jornais. O bolsonarismo quer reinventar o grande feito da burguesia: a esfera pública, tal como ela se configurou na Inglaterra a partir do século XVIII.

O líder, aquele que – segundo o sociólogo Yves Cohen(1) – surge no século XX e se dissemina na política, nas fábricas e nos escritórios em razão do vazio deixado pela aristocracia, não se mantém mais isolado, agora ele desce das alturas para equiparar-se ao mais comum dos mortais e falar-lhe ao ouvido sem meias palavras. No caso do bolsonarismo, esse rebaixamento significa ao mesmo tempo a unção do empobrecimento da linguagem como forma retórica da política, que esvazia por completo sua função de interesse comum e se converte no seu contrário, na própria antipolítica, como lembrou recentemente Henri Acselrad.(2)

No vídeo em que o presidente e então a secretária especial de cultura informam sobre o novo posto, o interesse público não é sequer tratado. Busca-se apenas recuperar o capital político de alguém criticado por sua defesa do obscurantismo. A instituição de memória em questão, a Cinemateca Brasileira, que atravessa uma crise devastadora nem é considerada em sua complexidade e importância, e nem deve ser administrada ou gerenciada, ela deve ser “feita”. Segundo as próprias palavras de Regina Duarte, ela deixa a linha de frente da secretaria para “fazer Cinemateca”. Qual o significado da expressão: “fazer a Cinemateca”? A adulteração das palavras é uma das características do poder fascista para deslizar novos sentidos, desvirtuando-as até seu completo empobrecimento. Quando essa atriz, reconhecida por ser incapaz de reter o texto e apenas “decorar”, lança mão do verbo “fazer” ela está esvaziando a ação construtiva que o verbo implica e querendo dar a si própria um papel decisivo para a tal “feitura”. A autoafirmação tem mais sentido do que a vontade pública de construção. “Fazer Cinemateca” busca o heroísmo pessoal, a recompensa individual pelos trabalhos prestados. E para ela os trabalhos prestados foram muitos, afinal encarnou bem os ideais do governo, superando seu antecessor no elogio ao novo momento.

A ida para a Cinemateca não é motivada por razões de competência, ao contrário, é justificada pela exigência feita pela família da burocrata. Os motivos do rebaixamento, que na boca da ex-atriz significam “presente”, misturam um posto técnico com a necessidade de proximidade da família. No vídeo, ela comemora o fato de ir para a Cinemateca e ainda ficar perto da família. O apelo ao sentimentalismo é sempre suspeito. Se já não bastasse a estranha mistura da técnica com o familiar, salta aos olhos que diante de uma pandemia – em que o isolamento social é a prática mais razoável – alguém clame pelo aconchego familiar sem se dar conta de que esse sacrifício é de todos, como a se colocar acima da sociedade que governa. Aliás, a metáfora do se colocar acima está presente em todo o vídeo, desde o lugar escolhido, um palácio que parece flutuar, o lugar superior do presidente diante de sua subordinada, que precisa subir um degrau para enlaçar a autoridade máxima, até a frase que encerra o vídeo: “Deus acima de todos”. Nesse vídeo, devidamente editado apesar de querer se passar por um mero registro improvisado, a política se mescla com a religião para reforçar um tipo de fanatismo típico do nazismo. Como não lembrar o slogan nacional-socialista? Du bist nichts und Ich bin alles [Tu não és nada e eu sou tudo]”

O desaparecimento do bolsonarismo não se dará com a queda de Jair Bolsonaro. O bolsonarismo se serviu de diversas fórmulas populistas no ódio à cultura e na destruição da política, se mesclando ao receituário de Steve Banon, mas sobretudo se valeu de nossa cidadania precária para se impor tão rapidamente. Para sua erradicação será preciso analisar suas estratégias e as formas como se encrustou na linguagem por meio também do audiovisual. Nesse sentido, a Cinemateca Brasileira, refeita, poderá armazenar também o audiovisual bolsonarista para que ele seja analisado e que nunca mais retorne.(3)


Notas

(1) Cf. COHEN, Yves. “Por que chamar o o século vinte de o “Século dos chefes”?”In: Sociologia&Antropologia, v.05.03:963-981, dezembro, 2015. pp.963-981.

(2) Cf. ACSELRAD. Henri. “A linguagem da antipolítica” In: https://aterraeredonda.com.br/a-linguagem-da-antipolitica/

(3) A Cinemateca Brasileira guarda em seu acervo cinejornais que contém retóricas políticas audiovisuais que antecedem a Bolsonaro (Vargas, Adhemar de Barros, Jânio Quadros). O melhor trabalho sobre cinejornais é Rodrigo Archangelo. Um bandeirante nas telas: o discurso adhemarista em cinejornais. São Paulo: Alameda/Fapesp, 2015. E Imagens da Nação – política e prosperidade nos cinejornais Notícias da Semana e Atualidades Atlântida (1956-1961). Tese de Doutoramento. São Paulo: FFLCH, 2015.

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