“Falta densidade à conduta tática da esquerda”

Para Artur Araújo, chances de derrotar ultradireita crescem – mas a própria natureza do governo e a pandemia tornam percurso até 2022 incerto e perigoso. Por isso, é preciso ampliar as “pautas do povo” – como os R$ 600 e a denúncia da carestia

Entrevista a Antonio Martins

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> O texto a seguir foi construído a partir de entrevista com Artur Araújo. Acesse também as versões em vídeo (link acima) ou podcast (abaixo).

> O projeto Resgate, por meio do qual Outras Palavras quer debater ideias-força para a reconstrução do Brasil em novas bases, pode ser conhecido aqui.

As últimas semanas foram alvissareiras. Duas grandes jornadas nacionais de protesto cravaram a volta da oposição às ruas, superando de longe os atos de apoiadores do regime. A CPI da Covid parece conduzir Bolsonaro a uma sinuca difícil, ao demonstrar que, sempre contrário às vacinas, ele comprou sem hesitação as que têm cheiro óbvio de superfaturamento. Uma sondagem eleitoral divulgada ontem (24/6) sugere que Lula venceria já no primeiro turno, com mais do dobro de votos do “capitão”. Mas o ânimo dos que lutam pela democracia tem oscilado demais. Quem não se perturbou com os atos golpistas diante do STF, a recusa do Exército a punir a indisciplina do general Pazuello ou a resiliência do apoio ao presidente, quando o número de mortes provocados por sua negligência sanitária não parava de crescer? Que explica esta conjuntura caótica, cujo ponto de referência parece às vezes oscilar como pluma em meio a tormenta?

O analista político Artur Araújo julga que falta à esquerda um prumo: o da ligação com as angústias e o sofrimento das maiorias. A certa altura da entrevista ao vivo que concedeu ontem a Outras Palavras, no âmbito dos diálogos preliminares do projeto Resgate, ele provocou: “quem dos que nos assistem acompanha a tramitação da Medida Provisória 1039?”. O ato legislativo não está nem no radar, nem no discurso da oposição – mas sua importância é capital. Foi por meio dele que o Palácio do Planalto reduziu, dos R$ 600 de 2020 para os míseros R$ 250 de agora, o Auxílio Emergencial pago durante a pandemia. O Congresso tem pleno poder de alterar a medida – reintroduzindo, por exemplo, o valor original. O Palácio do Planalto e as bancadas que o apoiam, previsivelmente, esperam que o tema jamais venha a luz. Os presidentes da Câmara e Senado estão sentados sobre a MP. Mas o espantoso, aponta Artur, é que a esquerda também se cale – ao invés de buscar, por todos os meios, colocar o assunto no centro pauta nacional e promover intenso debate sobre ele.

A mesma omissão se dá, segundo Araújo, em relação a um leque de outros temas muito sensíveis. A alta da inflação de alimentos. O desemprego. A vacina. Perde-se oportunidade, diz, de “formar opinião pública”. E fica-se sujeito às grandes incertezas provocadas pela pandemia e pela presença da extrema-direita no poder. Bolsonaro tentará um golpe? Apelará para um bolsa-família reforçado, na tentativa de recuperar a popularidade perdida? Para todas estas hipóteses, prossegue o analista, há respostas possíveis – desde que a oposição ligue-se às maiorias e seja tida, por estas, como aliada.

Quais as causas do atual afastamento? Araújo está convencido de que ele se relaciona a uma certa miragem estatista. A esquerda governou o Brasil entre 2003 e 2016. Nesse período, apenas arranhou o poder de Estado. Jamais teve maioria em qualquer Legislativo, foi sempre marginal no Judiciário, está ausente nas Forças Armadas. Seu acesso às mídias (tradicionais e em rede) é muito limitado. Ainda assim, desenvolveu-se, nestes treze anos, a ilusão de que a presença no governo dispensaria a mobilização popular. Jamais se buscou pressionar as instituições – tensioná-las, deslocá-las de seu conservadorismo colonial e de sua ligação com o poder econômico. Esta ausência abriu espaço para o golpe de 2016. Desligado das maiorias, o governo de esquerda foi derrubado sem resistência alguma.

Araújo está esperançoso com o papel de Lula. Ele vê, na reaparição do ex-presidente, depois de reabilitado pelo STF, sinais claros de ligação com a “pauta do povo”. Ao ressurgir, Lula sacudiu o cenário político, precisamente por falar de pandemia, vacinas, pobreza, desemprego e cuidado. Desde então, a vida de Bolsonaro transformou-se em tormento. Mas é preciso um passo a mais – e é nesse ponto, talvez, que a análise aproxima-se mais dos objetivos do Resgate.

Falta reconstituir um horizonte político; imaginar e propor o que pode ser o Brasil, em algumas décadas, se outras políticas prevaleceram. É isso – não uma culpa moral – que poderá aproximar a crítica ao capitalismo da vida e dos anseios das maiorias. Os repetidos apelos à “volta ao trabalho de base” não passarão de lamentos melancólicos, se não houver um novo objetivo à frente. Araújo pensa que há uma brecha para isso. Após 40 anos, as leis de ferro do neoliberalismo fiscal se romperam. A ideia de que os mercados podem conduzir as sociedades a um futuro melhor está desmoralizada. Na pandemia, os Estados foram essenciais tanto para evitar que as economias entrassem em colapso total quanto para financiar as pesquisas que levaram às vacinas.

E surgiu algo mais contra-hegemônico: a ideia de que, sob certas condições políticas, o poder de emissão de moeda dos Estados possa ser empregado não para salvar a oligarquia financeira – mas para atender necessidades sociais. Serviços Públicos de excelência. Cidades habitáveis. Reconstituição da infraestrutura. Transição ecológica. Reindustrialização. Ocupações dignas, para as pessoas dispostas a participar deste esforço.

Como pensar tudo isso, nas condições brasileiras atuais? Como combinar defesa das “pautas do povo” com a reconstrução de um horizonte político? Será preciso muito esforço para encontrar as respostas. Mas, segundo um ditado árabe, tudo começa com a formulação das perguntas certas…

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