"Cada um de vocês é Bolsonaro"

Num mundo percebido como selva, em que se deve sobreviver individualmente, nacionalismo e conservadorismo radical crescem valorizando os ideais transcendentais associados ao passado

Reportagem de Gabriel Bayarri

“Cada um de vocês é um Jair Bolsonaro!”. Assim começava a duas semanas das eleições presidenciais seu discurso o candidato ao Senado Flávio Bolsonaro em Nova Iguaçu, município metropolitano do Estado do Rio de Janeiro.

Centenas de bandeiras do Brasil brilhavam por toda a praça Rui Barbosa, numa exposição gigantesca de símbolos patriotas. Voluntários pintavam os rostos com cores verde e amarelo, que inundavam o ato, e entregavam “santinhos” e adesivos dos candidatos.

Os simpatizantes portavam camisetas com diversos “memes”, entre os que se lia “acabou a palhaçada”, “Mais vale JAIR se acostumando” ou “Me chama de corruPTo, porra!”. Um soldado tocava uma corneta junto a uma percussionista. O ambiente era festivo, carnavalesco e de orgulho. No trio elétrico os organizadores iam passando a palavra aos diversos candidatos, e entre um discurso e outro, se mesclava o hino do Brasil com jingles como o de “capitão, levante-se, o povo brasileiro precisa de você” e as diversas frases chave como “nossa bandeira jamais será vermelha”, “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos” ou “mito, mito, mito”.

Começo este breve ensaio descrevendo esta mobilização semi-festiva no meio de uma época de um certo achatamento dos ideais, de busca constante de resultados práticos em nossas ações, um mundo percebido como uma selva na qual se deve sobreviver individualmente. Assim, como resposta a este mundo, o nacionalismo e a radicalização do discurso conservador surgem procurando a épica dos ideais transcendentais associados ao passado.

“Antigamente comprava um frango por um real”, exclama uma senhora que assiste ao evento. “Estamos perdendo os bons costumes, ninguém mais senta na mesa para jantar em família”, explica um senhor. “Estamos perdendo o respeito por tudo, pelos pais, pelos professores”, conta exasperada uma professora. “Quando os militares foram embora, disseram que teríamos saudades deles, e estavam certos”, fecha um homem de cabelos brancos.

Os depoimentos fazem parte de uma ilusão retrospectiva (1), na qual, como parte da reconstrução da memória, tendemos a esquecer o que havia de penoso no passado e lembrar do que nele nos interessa. Neste sentido, a nostalgia e o esquecimento operam como sentimentos fundamentais na arena política: muitas das pessoas que assistem ao evento viveram sua infância e/ou juventude no período da Ditadura Militar (1964-1985), e lembram-se dela como uma experiência positiva de sua infância, uma época “na qual se respeitavam os valores tradicionais”, “na qual se fizeram projetos positivos” e “que denominou-se injustamente de ditadura”.

Esta ilusão retrospectiva constrói um relato que está em disputa, um relato poderoso carregado de afetos e que está construindo um espaço hegemônico em torno à figura de Jair Bolsonaro. Este relato, legitimado pelo “líder”, questionaria todos os atentados contra a democracia sofridos durante o período militar, tratando de construir uma lembrança coletiva que, ademais, permitiria normalizar e aceitar espaços militarizados com o fim máximo de “botar ordem na casa”.

A nostalgia da infância idealizada nos induz a buscar aquela figura “paternal” que nos ajuda a lembrar nosso passado. E nesta disputa,

por se posicionar como “pai”, Jair Messías Bolsonaro se apresenta como o pai de uma lembrança militarizada, aquele que nos faria lembrar a ordem e harmonia que imperavam no passado.

Os assistentes do ato buscam formar parte desse coletivo, num contexto de crise política, social, econômica e moral, de percepção de medos, raivas e inseguranças. Os assistentes buscam a figura paterna num momento sensível, facilitando a instrumentalização de seus sentimentos num projeto político emocional, e não tanto racional, assim como a adesão e celebração em espaços políticos, colaborando na construção da liderança de Bolsonaro.

No período da Segunda Guerra Mundial, o filósofo Theodor Adorno realizou um estudo sobre a construção das lideranças. Aplicando parte da teoria de Adorno, poderíamos falar da figura do candidato Jair Bolsonaro como uma figura que de forma ambivalente se define ao mesmo tempo como “humano e sobre-humano, fraco e forte, próximo e distante” (2) num exercício de integração com a massa, de traços messiânicos, e que fica representado na metáfora “somos todos Jair Bolsonaro”.

Trata-se da representação de Bolsonaro como um “Pequeno Grande Homem”, aquele que se apresenta como “superior”, um homem forte, capaz de realizar uma cruzada pelos valores “tradicionais”, com “Deus acima de Todos” e que recuperara a nostalgia do passado militar; e ao mesmo tempo, “fraco” como qualquer de seus seguidores. “Bolsonaro é sincero”, “Bolsonaro é transparente”, “Bolsonaro é como qualquer um” são algumas das expressões acerca do líder, que se posiciona como uma representação do “Povo”, submetido às redenções de uma autoridade paternal, que no seu caso seria de um serviço muito superior a ele mesmo, da representação de uma coletividade de “todos os filhos” reunidos em torno a um projeto com traços marcadamente pós fascistas (3) à brasileira.

Bolsonaro seria o “enviado” encarregado de realizar um serviço superior, um messias que colocaria o Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”, em referência clara a uma cruzada histórica pela hegemonia dos valores cristãos.

Trata-se de um projeto político cujo poder coletivo daria uma compensação emocional ante a fraqueza de cada indivíduo. Desta forma, e numa identidade construída e influenciada pelo seu oposto Lula, se começa a articular que “Bolsonaro somos todos”, “somos seus soldados” e que “cada um de nós é Bolsonaro”. A essência do Pequeno Grande Homem Bolsonaro estaria distribuída em todas as pessoas, contribuindo com este discurso na cristalização e passagem do “simpatizante de Bolsonaro” ao “ativista”, que seria portador de parte do líder, e que teria que cumprir com o serviço de “levar o Bolsonaro a cada casa, a cada família, a cada lugar”.

O atentado da facada contra o presidenciável fortalece ambos espectros do Pequeno Grande Homem, pois demonstra a fragilidade de um homem “de carne e osso”, ao mesmo tempo em que seu destino lhe dá força para continuar com sua cruzada. À raíz deste acontecimento, a representação do líder se fortalece entre seus simpatizantes, que corporalizam o atentado, reproduzindo a frase “eu também levei essa facada”. O cenário político se apresenta no relato como violento, corrompido e altamente poluído. O atentado permite que o líder centre a atenção em si mesmo, se posicionando como um afetado a mais pela “violência”, uma vítima, e de modo que as pessoas que o escutam não percebam que não está discutindo as questões programáticas que lhes interessam, mas sim, as suas qualificações como líder. Pelo fato de admitir as suas fraquezas enquanto enfatiza os seus poderes, ele quer dizer aos seus seguidores que eles também, em menor extensão, podem se tornar fortes, que “sejam um Jair Bolsonaro”, bastando que entreguem suas existências privadas ao movimento público (4).

Durante o evento, os assistentes colocam adesivos e portam roupas e chapéus com distintos memes do candidato. Trata-se de um processo de ativismo e “corporalização” do candidato, desse processo de “ser Bolsonaro”, de divisão coletiva do ato messiânico e construção de identidade em movimento. A encarnação do líder está em cada um dos simpatizantes, que precisam apenas seguir o caminho do pequeno grande homem. (5)

Desta forma, cabe pensar que práticas adotar para evitar o projeto pós-fascista brasileiro, entre as quais se encontra a reconstrução de uma memória coletiva, que consolide o reconhecimento da barbárie da ditadura, que extirpe os hábitos do passado , que reconheça os fantasmas ainda presentes. Que reconfigure, em definitivo, um novo relato baseado na verdade, na justiça e na reparação, como bem reclamam os coletivos memorialistas e de familiares de vítimas do franquismo na Espanha.

Só a construção de uma memória histórica que se sustente na consolidação democrática e dos direitos humanos oferecerá uma nova leitura do período militar. Uma memória do simbólico e do imaginário sem nostalgia que reconstrua os estados afetivos, semânticos e emocionais da ditadura militar, uma lembrança de por que não queremos Pequenos Grandes Homens.

REFERÊNCIAS

(1) DUNKER, C. I. L. (1994) – A Máquina de Fazer Sonhos. Revista Viver Psicologia. , p.14 – 15, 1994.

(2) ADORNO, Th. W. & ALII (1950) The Authoritarian Personality – Studies on Prejudice. New York, Harper & Brothers.

(3) TAMAS, G. M. (2000) ‘On post fascism’, Boston Review, Summer: 2000

(4) CARONE, Iray (2002). Fascismo on the air. Estudos Frankfurtianos sobre o agitador fascista.

Lua Nova, núm. 55-56, 2002, pp. 195-217. Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. São Paulo, Brasil.

(5) LOWENTHAL, L. & GUTERMAN, N. (1987)”Prophets of Deceit: a Study of the Techniques of the American Agitator”. False Prophets – studies on authoritarianism.New Jersey, Transaction Books.

MEU PERFIL

Gabriel Bayarri é espanhol, doutorando em antropologia e escritor. Cursa seu doutorado pela Universidade Complutense de Madri e pela Universidade Macquarie de Sydney. Durante o período 2015-2018 foi concejal eleito pelo partido Si Se Puede!, integrante do movimento Podemos na Espanha.

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5 comentários para ""Cada um de vocês é Bolsonaro""

  1. gustavo_horta disse:

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    ☹☹😟😟😞😞 VOCÊ JÁ IMAGINOU FICAR SEM SEU 13o SALÁRIO?
    VOCÊ JÁ IMAGINOU FICAR SEM SUAS MERECIDAS FÉRIAS?
    VOCÊ JÁ SE IMAGINOU SEM A ESTABILIDADE NO EMPREGO A QUE TODOS OS FUNCIONÁRIOS CONCURSADOS TÊM DIREITO?
    POIS É O QUE VAI ACONTECER COM VOCÊ SE VOCÊ ELEGER O COISO INOMINÁVEL, O BOZONARO.
    É O QUE VAI ACONTECER COM VOCÊ ELEGENDO ANASTASIA AQUI EM MINAS, POIS O AMIGUINHO DO AÉCIO NEVES APOIA O BOZONARO.
    PENSE NISTO.
    VAI ARRISCAR ASSIM MESMO?
    VAI SER TROUXA OUTRA VEZ?☹☹😙😙😟
    👆🏼👆🏼 COMPARTILHE SEM DÓ 👆🏼👆🏼

  2. Marcelo disse:

    Não adianta vocês não formam mais opiniões
    Existe duas saídas ou você entra no caminho da mudança ou escolhe a mesmice que já esta perpetuando a 18 anos no poder.
    Não tem como fazer as mesma coisas e esperar resultados diferentes.
    Gosto muito quando pego um texto extenso e vejo as artimanhas das pessoas enletradas para colocar palavras que te levam a uma reflexão, porem sabemos que só lerão esse testo pessoas já com sua opinião formada.
    Pessoas ligadas contra o MITO não lerão pois tem preguiça ou já se conformou com a mesmice.
    Agora vamos pra cima faca no dentes e eleger um patriota onde Deus acima de todos.

  3. gustavo_horta disse:

    CUIDADO COM O SEU ÓDIO… A VÍTIMA PODE SER VOCÊ TAMBÉM!!
    ALÉM DE NÓS FERRAR A TODOS…
    ANTES DE VOTAR, COMPARE! – NOSSA HORA É AGORA, SEREMOS FELIZES DE NOVO! – Compartilhe sem dó.
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2018/10/04/antes-de-votar-compare-nossa-hora-e-agora-seremos-felizes-de-novo-compartilhe-sem-do/
    ANTES DE VOTAR, COMPARE! – NOSSA HORA É AGORA, SEREMOS FELIZES DE NOVO!
    Compartilhe sem dó

  4. Edgar Rocha disse:

    Quanto aos comentários acima, só posso dizer, sem intenção alguma de formar opinião, que Bolsonaro será para a classe média nostálgica e discriminadora, uma fragorosa vitória de Pirro. A lua-de-mel com o “mito” não durará mais do que um único ano. Mas, isto é o que menos importa pra mim.
    O texto acima nos revela um dos grandes erros do pensamento progressista e das instituições que o representam: o descaso com a politização da sociedade. Não é uma questão de prioridade. Caso fosse, acabar com a fome no país teria sido um grande acerto por parte dos governos progressistas. O problema é que, sem o amadurecimento do pensamento democrático no país e o combate às estratégias e ao instrumental do conservadorismo, tudo que se conseguiu dentro do espectro humanista se esvaiu numa rapidez assustadora e com resultados tão profundos que levará um bom tempo para se reverter a destruição. Mais tempo do que se levou para se construir os poucos avanços durante dois mandatos e meio de governo federal.
    Independente do resultado, a tarefa dos setores progressistas ainda nem começou. Isto porque, ainda estamos longe de abrir mão da tese de que as lutas só conseguirão resultados sob a perspectiva de chegada ao poder pela via eleitoral. Seja por um equívoco estratégico/teórico ou pelo fisiologismo de setores ditos progressistas, porém, oriundos do mesmo extrato social dos conservadores bolsonaristas, descolar a luta social da política partidária-eleitoral é um equívoco do qual as esquerdas ainda não querem abrir mão.
    As evidências quanto a isto são reveladas pelo próprio Jair Bolsonaro: demandas por segurança pública, presença do Estado nas regiões mais carentes, combate ao crime organizado e revisão das práticas do Estado no exercício da força policial nunca foram prioridade dos setores progressistas, embora atinjam diretamente sua base eleitoral (eis a contradição do chamado governo conciliador). Isto permitiu que a direita construísse sua própria narrativa sobre a questão, apropriando-se do tema e construindo as bases para o fascismo disseminado, a cultura do medo e do ódio até mesmo entre os mais pobres. A vitória ideológica da direita se deu no campo de batalha, não no gabinete.
    Eu posso dizer com absoluta certeza que as esperanças dos que votarão no fascista serão mais do que frustradas. Talvez desapareçam por tempo indeterminado, a partir do momento que se derem conta do que todo morador de periferia sabe na prática: milicianos são em maioria, policiais; as polícias controlam o fluxo de violência e lucram com isto juntamente com os governos que lhes oferecem leniência total; são estes mesmo policiais que apoiam a candidatura Bolsonaro, o que nos leva ao último ponto: não acabará a violência nem a criminalidade. Ao contrário, ela contará com o apoio aberto do Estado totalitário, não deixando a reclamantes o menor espaço para defesa. É o fim do Estado de Direito em todas as suas formas.
    Já quanto a corrupção, meia dúzia de neurônios e um pouco de memória seriam suficientes para se prever resultados. Basta querer usá-los.

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