As três faces do retrocesso – e da recolonização

Com o advento da Indústria 4.0, Brasil pode perder ainda mais força econômica – e se tornar território de produtos primários e fábricas simplórias e poluentes. Por que, se mantidas as políticas atuais, esta ameaça é cada vez mais real

Não. O ano de 2020 não deixará saudades. A pandemia espalhou dor pelo mundo e foi ainda mais rigorosa nas áreas pobres do globo, onde somou-se ao flagelo de antigas mazelas sociais. Os números da saúde pública, porém, não contam o tamanho inteiro do drama. No Brasil, por exemplo, o volume de críticas dirigidas por especialistas à gestão da crise realizada pelo Governo Federal evidencia problemas que colocam em xeque, não apenas o controle da doença, mas também a recuperação da economia. Do ponto de vista exclusivamente econômico, a crise elevou o desemprego e queimou pequenos capitais em volumes nunca vistos. Ao mesmo tempo, desabou o investimento, a arrecadação tributária e tornou instáveis os cenários econômico e político. Por fim, restou o trabalho precarizado (ou uberizado) como último recurso para muitos moradores das grandes cidades.

O mais preocupante, todavia, é que o momento difícil não encerrará a tempestade, nem mesmo depois da chegada da vacina. Pelo contrário. A economia brasileira, frágil antes da covid-19 chegar ao país, está ameaçada por velhos problemas que, hoje, estão agravados por responsabilidade de importantes atores sociais. E quais são as ameaças? Três se destacam: a semi-estagnação no curto prazo, o aumento da pressão inflacionária no médio prazo e o retrocesso da estrutura produtiva no longo prazo.

As três ameaças estão intimamente relacionadas à gestão macroeconômica realizada por governos recentes e se manifestaram a partir do sucateamento (nada acidental) da indústria de transformação nacional. Desde, então, soma-se quatro décadas desde que o Brasil escolheu abandonar o esforço industrial e o crescimento para se concentrar na estabilização de preços. Assim, o setor que capacitou o país a exportar carros e aviões foi se tornando figurante na cena brasileira. Os números do Banco Central surpreendem: entre 1970 e 1979, o PIB saltou 109%. Já entre 1980 e 1989, a taxa de crescimento não passou de 22,2%, permanecendo neste patamar entre 1990-1999 (23,9%). Entre 2000 e 2009, a atividade cresceu a partir de 2004, alcançando 33,5%. O pior viria, porém, entre 2010 e 2019: a produção se elevou apenas 6,3%.

Na origem dos problemas parece estar a manipulação da taxa de câmbio para enfrentar os problemas causados pela inflação. No Brasil, por mais de uma década, o valor do dólar foi reduzido artificialmente a fim de baratear itens importados, pressionando para baixo a valia dos bens produzidos e comercializados no país. “A inflação aleija, mas o câmbio mata”, já afirmava o ex-ministro Mario Henrique Simonsen. Assim, os novos preços estabeleceram uma concorrência desleal com o produto nacional, resultando em direcionamento de compras de insumos ao exterior e no esvaziamento de cadeias produtivas e no fechamento ou venda de empresas nacionais ao capital estrangeiro. Uma tal política, se mantida por muito tempo, transforma ajustes conjunturais em permanentes e o valor do dólar passa a ser estratégico para indústrias que se tornaram dependentes da importação de insumos baratos. Diante disso, frágil demais para competir, a indústria brasileira realizou poucos investimentos, quase não fez P&D e importou máquinas e equipamentos com trajetória tecnológica definida alhures.

Naturalmente, a indústria de transformação brasileira perdeu participação no PIB, na geração de empregos, na pauta de exportações e em sua capacidade de inserir tecnologia e inovação no conjunto da economia. O Brasil, por sua vez, reduziu seu potencial de crescimento, de inovação tecnológica e não elevou a produtividade. Os setores que se destacaram foram: a grande agropecuária para exportação, dona de cadeias de produção relativamente curtas, compradora de tecnologia preponderantemente importada e poupadora de mão de obra, e o setor de serviços, dominante no PIB e composto majoritariamente por atividades pouco sofisticadas, de menor valor agregado e empregos mal remunerados. Logo, sob o domínio da grande agropecuária de exportação e dos serviços simples, o conjunto da produção brasileira só é competitivo em atividades intensivas em recursos naturais. De outro modo, se a inércia guiar o futuro, a economia brasileira não terá espaço para crescer e tenderá à semi-estagnação no curto (e talvez, médio) prazo.

Essa ameaça, porém, não esgota os problemas da economia brasileira. O fato do dólar ter se tornado um preço estratégico para a indústria de transformação nacional faz com que reveses no balanço de pagamentos, ao elevar o valor da divisa estrangeira, impactem os custos das empresas, marcadamente as industriais, muitas na base do tecido produtivo (aço, químicos, etc.). Se a recessão de 2015 e 2016 e o desempenho fraco que se seguiu evitaram o repasse das últimas desvalorizações cambiais aos preços, atualmente, a pandemia realiza o mesmo papel. No médio prazo, entretanto, a economia necessita crescer, criando novo cenário para a formação de preços. Ali, se o Governo Federal não desperdiçar reservas e o valor do dólar subir, as empresas terão espaço para repassar a alta de seus custos, reajustando preços. Consequentemente, o Brasil voltará a sofrer pressões inflacionárias.

O terceiro risco, no entanto, é mais complexo e grave para o país. Surge da amálgama entre fragilidade da indústria, domínio dos serviços na geração de PIB, responsabilidade da grande agropecuária nos superávits em Transações Correntes e avanço tecnológico nas economias ricas do globo. No Brasil, a indústria que sobreviveu está, em grande parte, concentrada na parte mais baixa da Curva Sorriso, isto é, nas atividades que menos valor adicionam ao produto, executando comumente tarefas de montagem. Enquanto isso, as nações poderosas do globo avançam para novos paradigmas produtivos, sustentados na junção entre mecânica, microeletrônica, big data e learning machine. Resumidos em Indústria 4.0 e Manufatura Avançada, os novos padrões de custo, produtividade, qualidade, customização, controle, integração com fornecedores, etc., entregarão ao mundo, brevemente, produtos difíceis de rivalizar. O Brasil, portanto, não terá condições de, via mercado, competir com grandes fabricantes mundiais reposicionados. Mais: dado o nível educacional, o declínio da infraestrutura e os problemas ambientais e sociais crescentes, o país poderá não ser visto sequer como oportunidade para fábricas de baixo custo. O território interessará apenas às plantas altamente poluentes e consumidoras de recursos naturais. Diante disso, emerge a ameaça de o Brasil sofrer retrocesso em sua estrutura produtiva, perdendo ainda mais elos industriais, dependendo cada vez mais da grande agropecuária para exportar e dos serviços para empregar seus cidadãos.

Dessarte, se as leis da física, propostas por Sir. Newton, são úteis para pensar a moderna economia política, é possível afirmar que, de acordo com a Primeira Lei do Movimento, nada do que aconteceu ao Brasil foi acidente. Houve forças político-econômicas que empurraram o país, colocando-o em movimento uniforme, com sentido específico. Isto é, a fim de controlar a inflação sem impor perdas ao capital, o Governo Federal abusou da taxa de câmbio valorizada nos anos 1990. Depois, exorbitou a fórmula ao retomar o dólar barato para conter a pressão sobre os preços causada pela aceleração do crescimento nos anos 2000. Mas o pior é que, ainda segundo a física de Newton, se nada for feito, o corpo, no caso a economia brasileira, continuará seu movimento retilíneo de desmanche do parque industrial e tecnológico nacional, restando apenas a grande agropecuária e os serviços simples. Isto posto, pergunta-se: como reagir? A pergunta se faz aos economistas, cientistas, empresários, banqueiros e políticos. O fato, porém, de alguns deles serem sócios no desmanche diminui a esperança de qualquer mudança e recuperação do Brasil no curto e médio prazo.

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