Desafios da interatividade

Está surgindo, diante de nossos olhos, uma nova forma de ação política. O problema é torná-la visível, reconhecida, capaz de refletir sobre si mesma e de se reproduzir constantemente

Tornar o leitor participante ativo da produção do jornal tem, para Le Monde Diplomatique, sabor especial. É que, sumultaneamente com a interatividade proporcionada pela internet, está em curso um outro movimento — provavelmente ainda mais profundo: o repensar da própria política. Uma parcela crescente das sociedades deixou de identificála (como os Fóruns Sociais Mundiais já haviam demonstrado) apenas com a representação. Política já não é o comparecimento às urnas, em intervalos regulares, para delegar, a partidos ou indivíduos, o poder de expressar nos projetos, valores e desejos. Esta forma limitada de democracia esvaziou-se aceleradamente nas últimas décadas — mas em seu vácuo não ha apenas desencanto, impotência social e agigantamento do poder econômico e das finanças.

Emergiu também a noção de que é possível mudar o mundo construindo permanentemente valores, lógicas sociais e poderes contra-hegemônicos. Multiplicam-se as iniciativas transformadoras autônomas. Às vezes, têm personalidade formal: um movimento social, uma ONG, uma cooperativa, uma associação. Em inúmeros casos, são informais: uma comunidade de software livre que trabalha em regime de colaboração, um grupo de ativistas em favor da liberdade de compartilhar conhecimento e produções culturais. Não negam a política, assim como os blogueiros não negam os jornais. Vão além: querem ser — por meio de sua vida, quotidiano e iniciativas transformadores — a política.

Este novo ativismo nunca pára de produzir reflexões e análises. Mas seu pensamento não é matéria dos jornais convencionais. Presos a uma visão que não vê espaço público além das instituições, eles dedicam suas páginas ao que diz cada vez menos (as manobras nos parlamentos, os escândalos de corrupção, o jorgo eleitoral — enfim, a política-espetáculo), enquanto fecham os olhos ao que interesa a um público cada vez maior (o exame profundo da realidade, as ações que criam novas lógicas sociais, as formas alternativas de cultura e convívio, por exemplo).

A nova cultura política que emerge precisa de espaços de diálogo. É neles que ela pode compartilhar experiências; debater pontos de vista, aprofundar compreensões e construir consensos; expor divergências, entender seu sentido e, se for o caso, resolvê-las; agir em conjunto, por meio da sedução de idéias e projetos. Estes espaços de diálogo também são necessários para que a nova cultura possa se expandir. Tornando conhecidas suas narrativas de mundo, suas práticas; revelando que é possível construir o futuro comum por meio de ações autônomas; estimulando, pela força dos exemplos, o surgimento de uma imensa diversidade de novas iniciativas.

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras