Cultura e estratégias dos Xavante, povo singular

Mestres no conhecimento do Cerrado | Foto Hélio Nobre

Conhecem cada palmo do cerrado. Optaram por “pacificar os warazu” (brancos), mas preparam seus meninos para a guerra. Em julho, compartilharão com visitantes sua vida e saberes

Por Angela Pappiani

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6 a 12 de Julho de 2018
O Projeto Wazu’ri’wá de visitação à aldeia Etenhiritipá é uma estratégia do povo Xavante para manter sua tradição e território para as futuras gerações. Wazu’ri’wá é o desbravador, o guerreiro que vai à frente para reconhecer o terreno, definir os caminhos, conhecer os locais, aprender com a viagem, com a natureza e com as novas culturas que encontrar pela frente. Para se fortalecer, levar o aprendizado para casa e preparar o caminho para o restante da aldeia.

Aqui, as informações sobre o programa.

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Enquanto nós, os warazu, os estrangeiros que chegamos a esta terra uns 500 anos atrás enfrentamos o caos nas grandes cidades, no meio do cerrado, a aldeia Etenhiritipá se junta para comemorar a formação de mais uma geração de guerreiros. Os meninos do povo Xavante que ficaram reclusos por cinco anos no Hö, a Casa dos Adolescentes, finalmente cumprem o ritual final para a furação de orelhas e seu retorno para o convívio social.

Uma tradição passada de geração a geração desde que o povo Xavante, os Auwê Uptabi, povo verdadeiro, começou a existir, milhares de anos atrás. Os meninos que ficaram reclusos por tantos anos aprenderam com seus padrinhos os ensinamentos fundamentais, a arte da convivência, as estratégias da caça e da vida. Fortaleceram seus corpos e espíritos em muitos treinamentos duros para se tornarem adultos saudáveis, autônomos, capazes. Formam-se agora guerreiros para darem continuidade à tradição e protegerem seu território que, mesmo demarcado desde o final da década de 70, segue sofrendo ameaças de todo tipo.

TEXTO-MEIO

As tradições Xavante estão fortes em Etenhiritipá. Mulheres e homens seguem vivendo com os valores e princípios que aprenderam e transmitem para as novas gerações, que valorizam a identidade e seu modo de vida. São grandes conhecedores do cerrado, de todos os recursos que a natureza rica e diversa lhes garante, mas sem deixar de refletir e buscar soluções para os desafios que as comunidades indígenas, de modo geral, enfrentam, como a dependência dos alimentos industrializados e os graves e irreversíveis problemas de saúde decorrentes, o uso de bebidas alcoólicas e de drogas e a invasão das seitas religiosas que interferem de maneira desastrosa no modo de vida, nos princípios e valores das comunidades, levando os povos à desestruturação.

Esse povo tão tradicional e ao mesmo tempo consciente dos riscos e ameaças também é pioneiro nas estratégias de relação com os warazu e na busca de soluções para seus desafios, desde a década de 1940, quando finalmente cederam ao contato com os brancos. Foi ali mesmo, no território que ficou conhecido como Pimentel Barbosa, liderados pelo grande chefe Ahopoen (Apoena), que os Xavante decidiram que era melhor pacificar os brancos para que eles não massacrassem o povo. Foi uma decisão difícil entre seguir resistindo, na guerra, ou aceitar o contato. Mas esses velhos sábios tinham uma estratégia: pacificar os estrangeiros e seguir dentro de seu território e tradição. E assim fizeram, impedindo a entrada das missões religiosas e mantendo autonomia em relação ao Serviço de Proteção ao Índio e depois à Funai.

Em mais uma decisão estratégica importante, esses mesmos anciãos decidiram enviar para a cidade grande oito meninos da aldeia para que aprendessem o português e o pensamento dos warazu. Essa saga dos meninos está registrada no livro “Entre dois Mundos” (Angela Pappiani, Ed. Nova Alexandria) e no documentário “Estratégia Xavante” ( Giros/IDETI, 2007). Os relatos sobre o contato podem ser conhecidos no livro “Wamrème Za’ra – Nossa Palavra, Mito e história do povo Xavante” ( Núcleo de Cultura Indígena/ Editora SENAC SP/ 1998) .

Na década de 80, percebendo os efeitos da ocupação e destruição do cerrado no entorno do território, mais uma vez o Warã, o conselho tribal que se reúne todos os dias e delibera sobre as questões que afetam a comunidade, decidiu buscar ajuda fora para proteger o patrimônio fundamental para sua vida.

E assim, numa manhã fria de junho de 1985, tive o meu primeiro contato com os A’uwe Uptabi. Na sede do Núcleo de Cultura Indígena, onde trabalhava, recebemos uma ligação telefônica avisando que um grupo de Xavantes chegara a São Paulo e queriam conversar com Ailton Krenak, que dirigia essa organização.

Desse primeiro contato com os Xavante de Pimentel Barbosa, surgiu uma amizade e uma parceria que atravessou três décadas, com trabalhos importantes e inovadores.

Preparação para a cerimônio do Oio | Foto Hélio Nobre

A parceria começou com o Projeto Jaburu, idealizado pelos anciãos para proteger a caça que se tornava escassa, recuperar parte do cerrado que havia sido invadido e transformado em lavouras de arroz, adensar as árvores frutíferas que alimentavam o povo e os animais, valorizar e divulgar sua cultura. O Núcleo de Cultura foi parceiro na busca de profissionais e pesquisadores que pudessem trabalhar juntamente com o povo da aldeia na busca de soluções. O projeto contou com apoio da Comunidade Econômica Europeia, numa iniciativa pioneira de financiamento direto para uma organização indígena e, pelo seu sucesso e inovação, foi contemplado pela Fundação Getúlio Vargas com o prêmio Gestão Pública e Cidadania. Os efeitos positivos do projeto permanecem até hoje, o cerrado foi recuperado, a caça ainda alimenta o corpo e o espírito do povo de Pimentel Barbosa, que diz que a carne da caça mantém as pessoas saudáveis e conectadas com o Espírito da Criação.

Essa comunidade foi a primeira a criar uma associação indígena, registrada oficialmente em 1988, e manteve por alguns anos um centro cultural Xavante na cidade de Nova Xavantina, com exposições, mostras de filmes, atividades com escolas, promovendo uma aproximação com o povo das cidades próximas, extremamente preconceituoso e hostil aos indígenas.

Em 1994 lançamos em São Paulo, no Museu da Imagem e do Som, o primeiro CD de música indígena, gravado dentro da aldeia e com os direitos autorais registrados em nome da comunidade. “Etenhiritipá- cantos da tradição Xavante” foi produzido pelo Núcleo de Cultura Indígena com apoio da produtora Quilombo, de Márcio Ferreira e Milton Nascimento, parceiros importantes desde o álbum TXAI.

Esse CD chegou às mãos de Max Cavalera, da banda Sepultura, nos Estados Unidos, e eles decidiram incluir uma parceria com o povo Xavante no seu álbum “ROOTS”. A faixa Itsari foi gravada na aldeia, com a participação de todos, criando uma relação de amizade e respeito que dura até hoje. Em sua biografia, Max Cavalera dedica um capítulo a essa grande aventura, relembrando pessoas e fatos da viagem. O grande sucesso internacional do álbum projetou o povo Xavante para um público jovem que talvez não se aproximasse da causa indígena se não fosse através desse trabalho. O povo da aldeia ficou encantado com as tatuagens e os cabelos tingidos do grupo, identificando aquele povo de uma outra tribo como aliados importantes. No meio do pátio, depois da sessão de gravação, os rapazes tocaram para a aldeia e os velhos, admirados, diziam que se o Max ensaiasse bastante, ele ficaria muito bom nos gritos!

Depois do CD vieram documentários, livros, apresentações de canto e dança ritual, teatro, viagens internacionais para divulgar a cultura. Sempre com estratégia, propósito, foco. Em cada lugar que tive o prazer e privilégio de estar com o grupo Xavante para apresentações e eventos, a nobreza, a beleza e disciplina desses guerreiros incríveis tocavam a todos, criando uma legião de amigos e fãs.

Quando comecei a conviver com os Xavante, na década de 80, a realidade era muito diferente: dificuldade de acesso à aldeia por estradas de terra intransitáveis, falta de energia elétrica e atendimento básico de saúde, discriminação declarada no entorno do território até com placas improvisadas à porta de hotéis e restaurantes com a frase ”proibido a entrada de índios”. As pessoas permaneciam mais na aldeia, poucos falavam o português, a resistência à escola, que começava, era muito grande. As transformações chegaram muito rápido e ainda são motivo de preocupação para os mais velhos que temem a perda da cultura e ainda buscam novos caminhos de convivência com os warazu.

Subindo a serra | Foto Hélio Nobre

Hoje, com a luz elétrica levando as novelas e filmes para dentro das casas de madeira e palha de babaçu, as famílias seguem também admirando sua cultura, em horas e horas de gravação de vídeo de suas próprias cerimônias. A geladeira mantém a água gelada para enfrentar o calor do cerradão e até o refrigerante e a cerveja, mas conserva também a carne do porco do mato, do veado, do tamanduá caçados na mata, com toda habilidade e estratégia dos grandes caçadores que ainda são formados no Hö. Os celulares não funcionam dentro da aldeia, mas são instrumento de documentação das tradições. Nas cidades, conectam os jovens pelas redes sociais e permitem a comunicação com parceiros dos novos projetos.

Os meninos que estão no Hö daqui a pouco terão suas orelhas furadas com o osso da canela de onça. Antes disso, passarão muitos dias com o corpo mergulhado no rio, batendo com as mãos num movimento ritmado, jogando a água para cima, para amolecer os lóbulos das orelhas. Depois participarão de danças, corridas, rituais que foram transmitidos pelos ancestrais. Terão o cabelo cortado, o corpo pintado de urucum e carvão. Os corpos de menino começam a ganhar músculos e em breve os jovens estarão correndo por quilômetros, com os pés descalços, carregando toras de buriti de 80 quilos. A formação do guerreiro ainda vai se completar em outras cerimônias onde o canto coletivo, o som dos maracás e da batida dos pés no chão estabelecerão o contato com o mundo espiritual, trazendo o poder da cura. Os sonhos, sempre, vão esclarecer as dúvidas, dar o caminho a seguir, revelar os cantos. E para sonhar é preciso comer a carne da caça. Então o território tem que estar protegido, o cerrado florescer e dar frutos, a água limpa e fresca. Esse é o ciclo da vida. As estações da chuva e da seca se sucedendo, o tempo do casamento, da confecção dos cestos e esteiras, das mulheres gerarem as novas gerações e transmitirem a beleza da cultura, participando de um jeito delicado mas firme de todas as decisões.

Na aldeia Etenhiritipá os professores Xavante tentam conciliar o ensinamento das disciplinas obrigatórias com o modo de vida tradicional, incorporam o livro que ajudaram a criar (Aihö Ubuni Wasu’u – o Lobo Guará e outras histórias do povo Xavante. Editora Ikore/2014), trazendo as histórias e mitos para o cotidiano da escola. E é nesse espaço da escola, aberto e arejado, que recebem os visitantes que vêm compartilhar a vida e os conhecimentos com o Povo Verdadeiro. Jovens e adultos warazu agora podem passar alguns dias na aldeia, aprendendo sobre a vida de um povo indígena. Mais uma estratégia de aproximação, mais uma iniciativa pensada para conquistar aliados e melhorar a qualidade de vida da aldeia.

TEXTO-FIM
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Inês Castilho

Jornalista, cineasta e pesquisadora, integra o corpo editorial de Outras Palavras, foi editora do jornal Mulherio, realizadora dos filmes de curta-metragem "Mulheres da Boca" e "Histerias" e cofundadora do Nós Mulheres, primeiro jornal feminista de São Paulo.