Boate Kiss, 242 vítimas. Todo dia, a mesma noite

Parentes e amigos das vítimas fazem vigília em frente à boate Kiss, e desenham 242 corpos no chão. Foto: Gabriela Di Bella

Arrepios, lágrimas, um resfriado. O lançamento do livro em que Daniela Arbex narra a barbárie com grande delicadeza causou comoção em Santa Maria

Por Iza Maria de Oliveira

A leitura de mais um livro de Daniela Arbex, Todo dia a mesma noite: a história não contada da Boate Kiss (Ed. Intrínseca, 2018) é de padecer com o corpo, seja com arrepios, com secreções que lubrificam os olhos e umedecem a alma, seja com resfriados, assim como ocorreu no percorrer das páginas de Holocausto Brasileiro: genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil (Geração Editorial, 2013). Além de ser uma leitora lenta, com suspensões que eu mesma não sei quando consigo retornar, fico resfriada, preciso de algumas horas, literalmente, de cama. A leitura da obra de Clarice Lispector bem sabe elevar esse sintoma a sua potência máxima: quando um mundo de linguagem alcança as vísceras que compõem um organismo psíquico. Um dos sintomas irredutíveis de processos analíticos. Talvez para não esquecer que, a cada levante de um “resfriado acamado”, pode-se tornar mais resistente e fortalecida para o próximo estado literário-pseudoviral.

Antes de passar às considerações sobre aquela obra-prima, legítimo testemunho de humanidade, cabe evocar algumas notas sobre seu lançamento no Teatro Treze de Maio, em Santa Maria (RS). Uma comoção de muitos por estarem na presença física de Daniela Arbex. Ela é a sua escrita. De uma humanidade ‘sui generis’. No ato dos autógrafos: cada um era um leitor singular, dedicando tempo considerável a cada pessoa que chegava até sua presença. Prontidão para o outro. Durante a espera de quase duas horas na fila dos autógrafos, acabamos por fazer um grupo de leitores com os que ali estavam próximos. Um tempo que se esvaziou no cronológico. Apresentei-me como consegui, tentando encontrar um link de lugar geográfico: “Sou de Ijuí, da terra de Eliane Brum” – ela tinha referido essa importante escritora, durante o lançamento do livro, e quem prefaciou o Holocausto. Fôlego. “Atuo há quase vinte anos na saúde mental”. Desde a leitura do monumental Holocausto, consegui compreender a significação do mecanismo transferencial de alter ego: o desejo de escrever próximo a um estilo. Em cada vírgula. Não só pelo talento da escrita, de formação também de outra ordem, mas pela sensibilidade, empréstimo do corpo ao mais desumano que se pode experenciar, ultrapassando os medos de se despedaçar. Sempre que apresento ou trabalho esse livro considero que só alguém de muita coragem pode escrever um livro assim.

Bem sabemos que é preciso de um jogo ‘ford-da’ para escrita, um mecanismo de presença e ausência constantes. E Daniela, em dois anos, vindo a Santa Maria quatro vezes, permanecendo quinze dias a cada vez, soube fazer isso com maestria, conquistando a confiança de todos, trabalho sigiloso durante todo esse tempo. Sua gestualidade é de uma sensibilidade e delicadeza impressionantes. Um legado de humanidade habita aquele ser e sua obra. Do seu lado, também autografando o repórter consagrado Marcelo Canellas, que prefaciou Todo dia a mesma noite, apresentando o termo belamente enigmático “inventário de afetos” e fazendo links com o funeral de Heitor, na Odisséia, de Homero; também intensificando a noção de belo que um efeito catártico pode conter. Depois que li a crônica “Menino do mato”, passei a ser leitora assídua de Canellas. Livros autografados, retrato no meio daqueles seres. Memória.

A escritora tampouco é gaúcha, tampouco é parente de alguma vítima, tem a causa de encontrar humanidade onde se quer extinguir pelo silêncio ou pelo esquecimento. Assim também se fez sua nobreza ao ter lido cada história escrita às famílias (antes de publicar), tornando um ato de respeito incondicional. Postura para além do talento literário. Histórias que vamos acompanhar não como descrições brutas, mas narrativas verdadeiramente literárias, como no capítulo “Sinfonia da tragédia”. O literário aqui se apresenta no seu sentido máximo: emprestar linguagem onde seria puro Real. Metaforizando ali onde não cessa de não se inscrever.

TEXTO-MEIO

Nesse processo de empréstimo verdadeiramente de si para o outro – de corpo – literariamente, a autora narra a barbárie humana, sem deixar de lado o comércio das funerárias ou a invasão do despotismo político. Se refere à ex-presidenta Dilma Roussef como a única que aguardou, junto às famílias, a autorização para entrar no ginásio onde estavam os corpos dos jovens mortos (p.107). Também, nessas páginas encontramos a legítima descrição do que é um amor incondicional: não é aquele livre dos dissabores, da ordem do impossível, mas ao qual daríamos a nossa própria vida para salvar um filho, como repetia a mãe de Rafael, Fátima: “Teria dado a própria vida para garantir a dele”.

Diante da pergunta desesperadora de Paulo, pai de Rafael, “Como ressignificar toda uma existência?”, é possível encontrar algumas luzes nas palavras de Daniela Arbex. É preciso contextualizar essas vidas existidas, existindo. Ela vai narrando os gostos, as paixões de cada jovem, como numa tatuagem, uma roupa, a escolha da bombacha preferida de Lucas (p. 142). Um jovem maragato, sem medo de peleias. O vestido floral e as madeixas soltas de sua mãe quando assim estava, última vez que o avistou. São nesses significantes guardados em cada um que a vida pode se perpetuar.

Se, no entanto, uma substância que não tem cor, o cianeto de potássio, a mesma usada nas câmaras de gás no Auschwitz, asfixiou o organismo de duzentos e quarenta e dois jovens, naquele vinte e sete de janeiro de 2013, há um trabalho hercúleo de tentar encontrar cores com odores que despertam pulsionalidade a uma existência. Seja o cheiro de Silvinho no seu quarto e nas roupas do armário (p. 147) ou numa flor. Tal como revela o diálogo memorável de Lívia com Heitor, sobre uma de suas flores preferidas, a flor-do-campo, e que lhe pode fazer sorrir na extrema dor:

— Filho, como tu pode gostar tanto assim de flor-do-campo? Ela não tem cheiro!
— Mãe, é que tu nunca sentiste a flor-do-campo. Tu nunca cheiraste a flor do campo com o coração. Tu vais perceber que ela tem cheiro de mel.

Nestes rastros de vida habitados na linguagem como nos cheiros, é possível encontrar legados de existências. De humanidade.

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

Iza Maria de Oliveira

Psicanalista, Cronista, Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP.

Latest posts by Iza Maria de Oliveira (see all)