Belluzzo debate as oportunidades abertas pela crise

Nos EUA, eleições podem colocar em xeque as decisões que socorrem os bancos — e abandonam milhões de famílias inadimplentes. No Brasil, controle dos fluxos de capital volta à agenda. E já existe clima para falar em nova arquitetura financeira mundial

Diante de uma crise gravíssima no sistema financeiro internacional, que atitude deveriam adotar aqueles que sempre apontamos suas injustiças e desequilíbrios? Esperar que as turbulências se acalmem, para preservar os surtos de crescimento vividos por economias “emergentes”, como a do Brasil? Torcer, ao contrário, por grande colapso — no qual o capitalismo desabaria sobre os pilares de desigualdade e violência que o sustentam?

Na terça-feira (18/3) à noite, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo concedeu entrevista, da qual sobressai uma alternativa a estas duas posturas — aparentemente opostas entre si, mas idênticas no convite à passividade. Ouvido por Le Monde Diplomatique e pelo blog Futepoca, ele argumentou que: a) tanto nos EUA quanto no Brasil, as soluções apresentadas pela cartilha neoliberal são incapazes de deter a crise; b) certos fatores (como as eleições norte-americanas, o enfraquecimento do dólar e, no caso brasileiro, a existência de um governo que não ouve apenas as receitas ortodoxas) criam possibilidade de saídas não-tradicionais.

Nas últimas duas décadas, a sociedade civil multiplicou, em todo o mundo, sua capacidade de compreender as finanças globais. Elas estão entre os temas mais tratados, por exemplo, nos Fóruns Sociais Mundiais — onde campanhas relacionadas à dívida pública, justiça tributária (inclusive por meio de impostos internacionais) ou paraísos fiscais têm enorme espaço. O conhecimento acumulado e as relações construídas serão suficientes para aproveitar a janela de oportunidade que se abriu e intervir sobre a crise? Uma das condições para isso é conhecer a natureza dos problemas e os distintos meios de enfrentá-los. A entrevista de Belluzzo — um conhecedor profundo dos mercados financeiros e de sua lógica — estará no ar em breve. Veja abaixo alguns dos pontos de vista sustentados por ele, segundo o registro do blog:

> A gravidade da crise e as medidas do banco central dos EUA (o FED):

A concessão de empréstimos maciços aos bancos (“injeções de liquidez“) ou a simples redução das taxas de juros não enfrentam o centro do problema. O endividamento das famílias norte-americanas já é superior a 100% do PIB (era de40% do PIB, na crise de 1929). Essa imensa pirâmide de créditos, que se apóiam uns nos outros, está seriamente abalada por uma onda de inadimplência. Milhões de famílias terão, em breve, dívidas superiores a seu patrimônio. A redução dos juros não é eficaz porque, em tal conjuntura, os bancos resistem a emprestar. Nos últimos dias, a desconfiança reduziu inclusive os empréstimos entre as próprias instituições financeiras.

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> A cegueira dos economistas e o papel das eleições:

O FED precisará absorver, em alguma medida, os títulos financeiros que estão “podres”, porque ancorados em empréstimos que não serão pagos. Isso começou a ser feito. Muito mais importantes, porém, são ações capazes de recuperar as famílias endividadas. Elas foram atraídas, em inúmeros casos, por contratos ilusórios, nos quais as prestações são baixas apenas nos dois primeiros anos. Como a economia entrou em recessão, terão enormes dificuldades para cumprir os compromissos. Para apoiá-las, são necessárias medidas de reditribuição de renda — um tabu para os neoliberais, tanto nos EUA quanto no Brasil. O economistas ortodoxos consideram “indispensável” socorrer os bancos, mas escandalizam-se com programas como o bolsa-família.

As eleições presidenciais dos EUA são o fato novo que pode mudar o jogo. O discurso de Barack Obama e Hillary Clinton, a princípio muito “morno” em macroeconomia, está começando a ser influenciado pela crise. Ela tende a ocupar o centro dos debates. Nos últimos dias, a crítica às decisões do FED está se espalhando pelos blogs. Será muito difícil defender, perante o eleitorado, a manutenção das políticas atuais.

> A resistência do Brasil e seus limites:

Vivemos uma situação anômala, no bom sentido. Pela primeira vez, turbulências nos mercados internacionais de crédito não estão gerando uma crise cambial interna. Para isso, contribuem tanto as reservas de mais de US$ 100 bilhões quanto a noção, entre os investidores, de que a economia brasileira não é atraente apenas pelos juros altos que oferece.

Mas há duas vulnerabilidades. A primeira são as próprias dimensões que as turbulências internacionais podem assumir. Ninguém é capaz de prevê-las. Um fator-chave é a relação entre Estados Unidos e China. Uma redução muito forte nas importações norte-americanas seria sentida na Ásia e poderia provocar queda abrupta nos preços das matérias-primas (commodities), que são muito importantes na pauta das exportações brasileiras. É bom lembrar que o contágio dos preços das matérias-primas foi um dos fatores que tornou drásticas as conseqüências da crise de 1929.

A segunda fragilidade é a própria deterioração de nosso balanço externo — tanto o comercial quanto o financeiro (“balanço de pagamentos”). Para ela, contribui dramaticamente a política de juros do Banco Central. A entrada de capitais externos, em busca de rendimentos financeiros, valoriza o real, encarece os produtos brasileiros, estimula importações desnecessárias. No plano financeiro, contribui a remessa acentuada de lucros pelas multinacionais, a suas matrizes. Estamos pagando o preço da mudança importante que houve na composição da propriedade das empresas brasileiras, nas últimas décadas. Numa situação de crise internacional, a deterioração do balanço externo é um péssimo sinal para os investidores e pode por a perder as conquistas dos últimos anos.

> O possível controle dos movimentos de capital:

Pela primeira vez, o aumento de juros não é a única alternativa considerada pelo governo brasileiro, diante da crise. Na terça-feira passada (11/3), o ministério da Fazenda impôs, sobre a entrada de capitais externos, um imposto (IOF) de 1,5%. Escrevi a respeito, em Carta Capital, um artigo intitulado “Sua mãe subiu no telhado“. Argumento que o imposto ainda é “muito camarada”, mas que abriu-se um precedente. Nada impede que, diante do agravamento da crise, o governo estabeleça outras medidas de controle de capitais.

> A crise do dólar e a possibilidade de uma nova ordem financeira:

O sistema financeiro internacional não poderá ser reconstruído tal qual é hoje. A causa principal é o enfraquecimento do poder do dólar, moeda internacional de referência, e do papel político dos Estados Unidos. Juntos, os países “emergentes” já acumulam reservas de US$ 4 trilhões, algo inédito.

O interessante é que alternativas ao dólar já foram cogitadas antes, em fóruns internacionais. Em 1979, cobri, pela Gazeta Mercantil, um encontro em Dubrovnik (antiga Iugoslávia), em que autoridades monetárias de todo o mundo debateram o que fazer, diante da perda de peso relativo da economia norte-americana. Falava-se numa conta de substituição: o dólar daria lugar, paulatinamente, a uma cesta de moedas, e esta passaria a ser a referência das transações internacionais. A situação me parece muito mais propícia hoje a um padrão plurimonetário.

Esta hipótese, porém, precisa ser construída com habilidade. O Brasil pode, em princípio, ter papel importante. Haverá resistências. Em 1979, os EUA retiraram-se de Dubrovnik, contrariados, antes do final da reunião. Paul Volcker, o então presidente do FED tinha outros planos. Estávamos no aeroporto, embarcando de volta, quando lemos, pelos jornais, que ele, já em Washington, havia elevado a taxa de juros norte-americana, numa tacada, de 8% para 12%. Ela iria a 16% mais tarde. Nos anos seguintes, por meio de um conjunto de decisões políticas, os Estados Unidos construíriam, quase unilateralmente, a ordem financeira que temos hoje.

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