Vladimir Putin, Nobel da Paz?

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Presidente russo evitou ataque à Síria, mas lidera governo que viola direitos humanos. Ainda assim, sua eventual premiação não seria incoerente com história da honraria

Por Vinícius Gomes

A indicação do presidente russo Vladimir Putin para o Prêmio Nobel da Paz em 2014 tem gerado debate. A base da proposta, lançada pela Academia Internacional de Unidade Espiritual e Cooperação dos Povos do Mundo, é a atuação de Putin junto à crise na Síria e o esfriamento dos ânimos na Casa Branca e dos “falcões democratas” (sim, não são apenas os republicanos), ávidos por um bombardeio “humanitário” no país.

O Nobel da Paz será entregue no próximo dia 11 para “a pessoa (ou instituição) que mais, ou melhor, fez pela fraternidade entre as nações, a abolição ou redução de exércitos em prontidão e pela realização ou promoção de congressos pela paz”. Há 259 indicados.

De fato, o papel do presidente russo e de seu gabinete foi importantíssimo para a resolução temporária da crise na Síria. A controvérsia começa quando o “conjunto da obra” de Putin é colocado em perspectiva, principalmente na região do Cáucaso – com a repressão brutal na Chechenia e na ação militar contra o país vizinho, Geórgia–, além das misteriosas mortes, até hoje não solucionadas, dos jornalistas investigativos Yuri Shchekochikhin e Anna Politkovskaya, críticos do governo de Putin.

É consenso que Putin dificilmente terá as mesmas credenciais em “promoção da paz” que, por exemplo, Gandhi – indicado cinco vezes sem jamais receber o prêmio. Entretanto, imaginar Putin e Gandhi no mesmo hall da fama não é tão impossível para o Comitê Nobel Norueguês, responsável pelas premiações.

Se por um lado há verdadeiros promotores de fraternidade e pacifismo como Madre Teresa, Martin Luther King, Desmond Tutu e Dalai Lama – só para citar os mais conhecidos –, o Nobel da Paz também já foi entregue a gente como Henry Kissinger, por exemplo. Envolvido no bombardeio secreto ao Camboja durante a Guerra do Vietnã, ele teve participação ativa na derrubada do presidente eleito do Chile, Salvador Allende, e a instalação da ditadura de Pinochet, exatamente três meses antes de receber o prêmio, em 1973.

É possível perceber a incoerência do prêmio também em tempos recentes, como em 2009, quando o recém-eleito presidente Barack Obama foi laureado por ter feito, basicamente, nada. Assim, não é grande surpresa a indicação de Putin; nem seria surpreendente, tendo em vista o passado, ele receber o prêmio.

Afinal, nem seu criador, o sueco Alfred Nobel, escapou das contradições sobre guerra e paz. Foi o inventor da dinamite, a ser utilizada na abertura de minas subterrâneas, mas que também passou a ser arma de guerra. Instituiu o prêmio em sinal de arrependimento.

Mais de um século após a morte de Nobel (em 1896), a ordem mundial existente parece multiplicar tais paradoxos. Um deles: compõem o Conselho de Segurança da ONU, responsável por buscar a paz entre os países, os cinco países que, juntos, respondem por 80% das exportações mundiais de armamentos…

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3 comentários para "Vladimir Putin, Nobel da Paz?"

  1. Murilo disse:

    6 militares russos foram mortos na Abkássia, durante a invasão promovida pela Geórgia, a Rússia não poderia esperar mais para dar a resposta em sua fronteira. Sem contar que não houve derrubada de governo. E o presidente russo era o Dmitri Medvedev na época.
    Quanto à Chechênia, muitos massacres realmente aconteceram, mas não sei quais respostas a Rússia poderia dar depois da contaminação do conflito para outras províncias. Isso tudo em um país que teve de aceitar a independência de muitas repúblicas…
    Os assassinatos são um mistério, assim como a morte de Boris Berezovsky(colocou dinheiro até no curintia) e outros oligarcas. Mas colocar a suspeita só no governo russo é atribuir o ônus da prova ao réu, sendo que múltiplos interesses querem essas cabeças.
    O Nobel virou uma palhaçada, espero que, mesmo com tantas controvérsias, um estadista que nem Putin não ganhe esse prêmio ridículo. E como um grande ator ganhar o framboesa de ouro.

  2. Dyogo disse:

    Maravilhoso texto.

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